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Arqueóloga carioca é premiada por descoberta do Cais do Valongo

Rerpro­dução: © Agên­cia Brasil/Tomaz Sil­va

Padre Júlio Lancelotti também receberá este ano o Hypatia Award


Pub­li­ca­do em 14/09/2023 — 07:55 Por Alana Gan­dra – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A arqueólo­ga car­i­o­ca Tania Andrade Lima é a segun­da mul­her brasileira a rece­ber o prêmio inter­na­cional Hypa­tia, con­ce­di­do pela Con­fed­er­ação dos Cen­tros Inter­na­cionais para a Con­ser­vação do Patrimônio Arquitetôni­co em hom­e­nagem aos que con­tribuem para o con­hec­i­men­to cien­tí­fi­co em suas áreas de atu­ação.

Tania foi escol­hi­da entre os dez cien­tis­tas hom­e­nagea­d­os este ano pela descober­ta do Cais do Val­on­go em 2011. Situ­a­do na região por­tuária do Rio de Janeiro, no bair­ro da Saúde, pelo cais pas­saram de mais de 1 mil­hão de escrav­iza­dos vin­dos da África.

A primeira mul­her hom­e­nagea­da com o Hypa­tia Award foi a tam­bém arqueólo­ga Niède Guidon, em 2020, por seu tra­bal­ho na cri­ação e con­ser­vação do Par­que Nacional da Ser­ra da Capi­vara, no Piauí, sítio que foi recon­heci­do como Patrimônio Cul­tur­al da Humanidade pela Orga­ni­za­ção das Nações Unidas para a Edu­cação, a Ciên­cia e a Cul­tura (Unesco) em 1991. Já o Cais do Val­on­go foi recon­heci­do em 2017 como Patrimônio Mundi­al da Unesco.

Orgulho

O dire­tor do Museu Nacional, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ), pale­on­tól­o­go Alexan­der Kell­ner, disse à Agên­cia Brasil que, ape­sar de ter se aposen­ta­do, Tania con­tin­ua como pesquisado­ra vin­cu­la­da à insti­tu­ição. Para Kell­ner, o pon­to prin­ci­pal do prêmio dado a Tania é o tremen­do orgul­ho de ter uma cien­tista pesquisador da área de arque­olo­gia recon­heci­da e, ain­da, “de poder con­tar com uma pesquisado­ra do cal­i­bre dela. É um prêmio fan­tás­ti­co, muito impor­tante”.

Para Kell­ner, o segun­do pon­to impor­tante é o prêmio ter sido dado a uma mul­her. “Olha que coisa bacana que a nos­sa insti­tu­ição con­segue dar, que são as condições de qual­i­dade e de gênero. Esta­mos muito felizes e orgul­hosos com esse recon­hec­i­men­to, total­mente jus­to, da grande pesquisado­ra do Museu Nacional.”

Em tex­to pub­li­ca­do no últi­mo dia 11, o Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan) recon­heceu os brasileiros vence­dores do Prêmio Hypa­tia 2023 por inter­mé­dio da can­di­datu­ra rece­bi­da pela Cicop.Net Con­fed­er­a­tion, cuja pres­i­dente nas Améri­c­as é a arquite­ta e urban­ista brasileira Maria Rita Amoroso. A entre­ga do prêmio será no dia 16/ de out­ubro, na aber­tu­ra da 6ª Bien­al de Restau­ro Arquitetôni­co e Urbano, em Flo­rença, Itália.

Com car­reira ded­i­ca­da à arque­olo­gia, Tania é pesquisado­ra sênior do Con­sel­ho Nacional de Desen­volvi­men­to Cien­tí­fi­co e Tec­nológi­co (CNPq) e pro­fes­so­ra aposen­ta­da do Depar­ta­men­to de Antropolo­gia do Museu Nacional da UFRJ. Foi fun­dado­ra do Pro­gra­ma de Pós-Grad­u­ação em Arque­olo­gia da uni­ver­si­dade, para o qual ain­da hoje colab­o­ra, ori­en­tan­do teses e dis­ser­tações e min­is­tran­do dis­ci­plinas, infor­mou o Iphan.

Foi ain­da pres­i­dente e vice-pres­i­dente da Sociedade de Arque­olo­gia Brasileira, inte­gra o con­sel­ho edi­to­r­i­al de revis­tas cien­tí­fi­cas no Brasil e em país­es da Améri­ca do Sul e da Europa, além de já ter rece­bido out­ros prêmios, como a Comen­da da Ordem do Méri­to Cul­tur­al, con­ce­di­da pelo pres­i­dente Luiz Ina­cio Lula da Sil­va, em 2006, e o Prêmio Globo Faz Difer­ença, na cat­e­go­ria “Rio”, em 2016.

Racismo

Tania disse que a grande pre­mi­a­da este ano foi a arque­olo­gia, que nem sem­pre é val­oriza­da pela capaci­dade de traz­er à tona “ver­dades inde­se­jáveis, dolorosas, que muitos dese­jam esque­cer ou igno­rar”. A pesquisado­ra afir­mou que o Cais do Val­on­go denun­cia a que pon­to as pes­soas são capazes de chegar no ódio e no despre­zo por aque­les que são difer­entes delas, ultra­pas­san­do todos os lim­ites da intol­erân­cia e da per­ver­si­dade humana.

O recon­hec­i­men­to a obras como a do Cais do Val­on­go con­sti­tui demon­stração vig­orosa de que uma parte muito expres­si­va da humanidade rejei­ta essa ide­olo­gia, aju­dan­do a deter o vio­len­to pre­con­ceito racial que vem se alas­tran­do nos últi­mos anos, não só no Brasil, mas no mun­do inteiro, desta­cou Tania. Para ela, o Prêmio Hypa­tia é um pas­so impor­tante con­tra o racis­mo e em defe­sa dos que são humil­ha­dos pelo pre­con­ceito racial. “Daí min­ha mais que infini­ta gratidão por esse prêmio.”

Out­ro brasileiro agra­ci­a­do com o Prêmio Hypa­tia neste ano foi o padre Júlio Lan­cel­lot­ti, por sua luta con­tra a arquite­tu­ra hos­til que impede moradores de rua se abri­gar em espaços públi­cos e pela sua defe­sa de pro­je­tos urbanís­ti­cos inclu­sivos.

Sítio arqueológico

Des­de 21 de março de 2023, o Iphan coor­de­na o Comitê Gestor do Sítio Arque­ológi­co do Cais do Val­on­go. É a enti­dade respon­sáv­el pelo esta­b­elec­i­men­to de dire­trizes e mon­i­tora­men­to da efe­tivi­dade das ações de preser­vação e sal­va­guar­da do bem. O comitê é com­pos­to por 15 insti­tu­ições rep­re­sen­ta­ti­vas da sociedade civ­il e 16 gov­er­na­men­tais, nas esferas fed­er­al, estad­ual e munic­i­pal, infor­mou a asses­so­ria de impren­sa do órgão.

Com cer­ca de 350 met­ros de com­pri­men­to, o o Cais do Val­on­go vai da Rua Coel­ho e Cas­tro até a Rua Sacadu­ra Cabral. Sua con­strução foi ini­ci­a­da no fim do sécu­lo 18 e ficou pron­to em 1811. Como a região era desabita­da na época e com aces­so difí­cil, foi escol­hi­da para sedi­ar o por­to de desem­bar­que de escrav­iza­dos. A área deixou de fun­cionar como pon­to de entra­da de escrav­iza­dos por vol­ta de 1831, quan­do leis con­tra a escravidão começaram a ser assi­nadas. Ape­sar dis­so, o tráfego con­tin­u­ou sendo feito à noite, emb­o­ra de for­ma clan­des­ti­na.

Entre os sécu­los 16 e 19, 10 mil­hões de africanos foram lev­a­dos para o con­ti­nente amer­i­cano. Desse total, 40% vier­am para o Brasil, o que sig­nifi­ca cer­ca de 4 mil­hões de pes­soas, das quais 60% (2,6 mil­hões) desem­bar­caram no Rio de Janeiro. Por isso, a região ficou con­heci­da como Peque­na África. Os escrav­iza­dos eram expos­tos nos mer­ca­dos e ven­di­dos. O des­ti­no dos que mor­ri­am logo após a lon­ga viagem era o cemitério dos pre­tos novos. Com a refor­ma urbanís­ti­ca do Rio pro­movi­da pelo prefeito Pereira Pas­sos, toda a estru­tu­ra do cais foi soter­ra­da.

Em 2011, porém, durante escav­ações real­izadas como parte das obras de revi­tal­iza­ção da zona por­tuária da cap­i­tal flu­mi­nense, foram descober­tos os dois anco­radouros – Val­on­go e Imper­a­triz –, jun­to aos quais se encon­traram grande quan­ti­dade de amule­tos e obje­tos de cul­to, orig­inários do Con­go, de Ango­la e de Moçam­bique.

Edição: Nádia Fran­co

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