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Indígenas yanomami mostram impactos sociais graves do garimpo ilegal

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Extração de minérios causou desorganização social de comunidade


Pub­li­ca­do em 13/02/2023 — 08:33 Por Pedro Rafael Vilela* — Envi­a­do espe­cial — Boa Vista (Roraima) — Boa Vista

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A pre­sença do garim­po ile­gal no Ter­ritório Yanoma­mi causa múlti­p­los impactos na vida social dos indí­ge­nas. A crise human­itária é mais visív­el no esta­do de saúde del­i­ca­do, espe­cial­mente de cri­anças e idosos, como vis­to nas últi­mas sem­anas, mas alcança ain­da dimen­sões cul­tur­ais desse povo. Na últi­ma sem­ana, a reportagem da Agên­cia Brasil vis­i­tou algu­mas vezes a Casa de Saúde Indí­ge­na (Casai), em Boa Vista, e tam­bém esteve no próprio Ter­ritório Yanoma­mi, no Polo Base de Suru­cu, entre quin­ta (9) e sex­ta-feira (10). Durante as vis­i­tas, con­ver­sou com os indí­ge­nas e espe­cial­is­tas para enten­der mel­hor como eles percebem ess­es impactos. 

“Água suja para com­er, estra­ga o peixe. Cri­anças muito fra­cas. Água bebe-se suja e bar­ri­ga dói muito”, diz Enenexi Yanoma­mi, que ten­ta descr­ev­er a situ­ação vivi­da por seus par­entes na ter­ra indí­ge­na. A Agên­cia Brasil encon­trou o jovem indí­ge­na, de 21 anos, na entra­da da Casai. Segun­do ele, já pas­savam de 60 dias sua esta­dia na cap­i­tal para acom­pan­har famil­iares doentes. O retorno ao ter­ritório, que depende de trans­porte aéreo, não tin­ha pre­visão. “Fal­tam mais horas de voo para Suru­cu­cu”.

Para ele, a pre­sença do garim­po é o que tem cau­sa­do os danos que afe­tam seu povo. “Ago­ra, tem que tirar garim­po. Quan­do tirar, tran­qui­lo. Tem muito garim­po lá, [tem que ser] proibido”.

Mãe de duas cri­anças inter­nadas na Casai, Lou­vâ­nia Yanoma­mi já perdeu a con­ta de quan­to tem­po está longe de sua ter­ra. Sem pre­visão de alta, ela rece­beu aler­ta dos médi­cos de que, se voltar, pode colo­car a vida do fil­ho menor em risco. A cri­ança, que tem entre 1 e 2 anos, apre­sen­ta quadro de desnu­trição sev­era e inchaço do abdô­men.

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Indígenas yanomami acompanham deslocamento de equipes e material da Força Nacional do SUS no aeroporto de Surucucu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Suru­cu­cu (RR), 09/02/2023 — Indí­ge­nas yanoma­mi acom­pan­ham deslo­ca­men­to de equipes e mate­r­i­al da Força Nacional do SUS no Aero­por­to de Suru­cu­cu — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

“Eu estou muito cansa­da, tem mui­ta gente aqui [Casai], dá pra perce­ber. É uma situ­ação difí­cil. Não vou deixar porque é meu [fil­ho] e não pos­so levar porque ele vai mor­rer”, rela­ta, angus­ti­a­da, com aju­da de um intér­prete. Em janeiro, a Casai chegou a abri­gar mais de 700 pes­soas, mas o local tem capaci­dade para pouco mais de 200. Hou­ve uma redução dessa super­lotação, mas o espaço ain­da reg­is­tra a pre­sença de mais de 500 pes­soas, segun­do bal­anço da sem­ana pas­sa­da do Cen­tro de Oper­ações de Emergên­cias (COE) do gov­er­no fed­er­al.

Quem tam­bém recla­ma dos danos ambi­en­tais trazi­do pela explo­ração ile­gal de minérios é Arokona Yanoma­ma, com quem a reportagem con­ver­sou na Casai. Ele cita como o maquinário pesa­do de dra­gas e tra­tores afu­gen­ta ani­mais de caça e polui a ter­ra. “Cheiro ruim. Morre caça, morre tudo. A ter­ra não é boa, é muito feio. Máquina de fumaça entrou, por isso cheiro muito ruim. Con­t­a­m­i­naram ter­ra, con­t­a­m­i­naram água, poluíram peixe”, rela­ta. Ago­ra, para caçar um por­co do mato, ele tem que andar por pelo menos 50 quilômet­ros para se afas­tar da área mais dete­ri­o­ra­da.

Referência perdida

“O garim­po vai jus­ta­mente atacar a cadeia ali­men­tar bási­ca dos yanoma­mi. Eles são um povo de mobil­i­dade ter­ri­to­r­i­al, vivem da caça, da pesca, da cole­ta e da agri­cul­tura. Nada mais triste, então, do que um caçador yanoma­mi não ter caça para suprir a família”, expli­ca a antropólo­ga Maria Aux­il­i­ado­ra Lima de Car­val­ho. Ela tra­bal­ha há mais de 20 anos com o povo yanoma­mi, em Roraima.

“O povo yanoma­mi nun­ca pre­cisou de doação de ali­men­tos para sobre­viv­er. Todo esse cenário de vul­ner­a­bil­i­dade foi provo­ca­do. O maior mal ain­da é a pre­sença do garimpeiro, do garim­po”, afir­ma o secretário espe­cial de Saúde Indí­ge­na do Min­istério da Saúde, Weibe Tape­ba, que vis­i­tou o ter­ritório na últi­ma quin­ta-feira (9).

Até mes­mo alguns dos rit­u­ais mais sagra­dos dos yanoma­mi estão sendo dras­ti­ca­mente abal­a­dos pela ativi­dade garimpeira e a desas­sistên­cia gen­er­al­iza­da em saúde den­tro do ter­ritório. É o caso das cer­imô­nias fúne­bres. Os yanoma­mi não enter­ram seus mor­tos. Eles cre­mam os cor­pos de seus famil­iares fale­ci­dos e, depois, trit­u­ram os ossos até virar pó. O proces­so pode levar sem­anas e, muitas vezes, inclui uma fase final em que a comu­nidade real­iza um ato de tomar min­gau de banana com as cin­zar do ente fale­ci­do.

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Mulheres e crianças yanomami em Surucucu, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Suru­cu­cu (RR), 09/02/2023 — Mul­heres e cri­anças yanoma­mi em Suru­cu­cu, na Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

“Os yanoma­mi fazem questão dos rit­u­ais fúne­bres, mas os mor­tos são tan­tos que não está haven­do nem tem­po para chorá-los”, afir­ma a antropólo­ga. Essas cer­imô­nias podem incluir tam­bém a pre­sença de vis­i­tantes de aldeias difer­entes e, ness­es casos, os anfitriões cos­tu­mam ofer­e­cer um ani­mal de caça, o que tem fica­do escas­so nas regiões afe­ta­da pelo garim­po.

A entra­da do álcool na cul­tura yanoma­mi, que não é recente, mas tem se agrava­do, é out­ro fator deses­ta­bi­lizador. O kaxiri, bebi­da  fei­ta de macax­eira cozi­da, não alcoóli­ca, e muito tradi­cional, pas­sou a ser fer­men­ta­da pelos indí­ge­nas para ficar com alto teor de álcool, por influên­cia dos garimpeiros, ain­da durante a primeira invasão ao ter­ritório, no fim da déca­da de 80. “Isso fez aumen­tar casos de vio­lên­cia con­tra as mul­heres e de vio­lên­cia de uma for­ma ger­al”, expli­ca Maria Aux­il­i­ado­ra. Tam­bém inter­feriu na pro­dução agrí­co­la, fazen­do com que indí­ge­nas aumen­tassem a plan­tação de macax­eira para pro­duzir a bebi­da, amplian­do o ciclo do con­sumo de álcool nas aldeias.

Juventude assediada

A antropólo­ga tam­bém obser­va out­ro tipo de deses­tru­tu­ração comu­nitária cau­sa­da pelo garim­po. No primeiro grande sur­to de garim­pagem ile­gal na Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi, a par­tir da segun­da metade da déca­da de 80, a maior parte da pop­u­lação de indí­ge­nas era for­ma­da por adul­tos. Atual­mente, no entan­to, a base da pirâmide etária ficou bem mais numerosa, com forte pre­sença de ado­les­centes e jovens. No entan­to, a grande maio­r­ia das esco­las den­tro do ter­ritório foi desati­vadas pelo gov­er­no do esta­do.

“As políti­cas públi­cas não chegam para ess­es jovens. E eles são jovens, querem aven­turas. Com isso, o garim­po asse­diou enorme­mente essa juven­tude, com aces­so a armas, que eles apre­ci­am muito, e out­ros obje­tos”, acres­cen­ta a espe­cial­ista.

Ela cita o caso de assé­dio sex­u­al de garimpeiros con­tra as mul­heres indí­ge­nas, que obser­vou durante tra­bal­ho de cam­po na comu­nidade, onde per­maneceu por vários anos, entre 2002 e 2009. Segun­do a antropólo­ga, as denún­cias que vêm sendo rev­e­ladas ago­ra, com a explosão de garim­po no ter­ritório, são bem prováveis.

“Com o garim­po o tem­po todo e cada vez mais, é bem pos­sív­el que eles ten­ham feito sedução. Elas gostam muito de sabonetes, óleo para cabe­lo, comi­da. Então, essa tro­ca por relação sex­u­al, seja con­sen­ti­da ou não, é desigual, porque há posições de poder bem claras”, argu­men­ta.

O gov­er­no fed­er­al inves­ti­ga o caso de 30 meni­nas yanoma­mi que estari­am grávi­das de garimpeiros que atu­am ile­gal­mente no ter­ritório.

Esperança

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Indígenas yanomami acompanham deslocamento de equipes e material da Força Nacional do SUS no aeroporto de Surucucu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Suru­cu­cu (RR), 09/02/2023 — Indí­ge­nas yanoma­mi acom­pan­ham deslo­ca­men­to de equipes e mate­r­i­al da Força Nacional do SUS no aero­por­to de Suru­cu­cu — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Em meio ao caos vivi­do pelos yanoma­mi, a esper­ança no futuro pas­sa pela reati­vação das esco­las na região, fechadas há mais de uma déca­da.

“Aqui tin­ha esco­la, eu ain­da lem­bro”, afir­ma Ivo Yanoma­mi, tux­aua (cacique) na comu­nidade de Xir­im­i­fik, com mais de 200 pes­soas, grande parte cri­anças e ado­les­centes. A aldeia fica a cer­ca de 15 min­u­tos de cam­in­ha­da da pista de Suru­cu­cu.

A deman­da pela retoma­da das esco­las indí­ge­nas den­tro do ter­ritório será lev­a­da ao gov­er­no fed­er­al, asse­gurou o secretário de Saúde Indí­ge­na, Weibe Tape­ba, durante visi­ta que fez à região.

*Colab­o­raram Flávia Peixo­to e Ana Gra­ziela Aguiar, repórteres da TV Brasil.

Edição: Graça Adju­to

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