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Laboratório a céu aberto permite pesquisas sobre queimadas

Repro­dução: © Fabi­o­la Sinimbu/Agência Brasil

Projeto é desenvolvido na Fazenda Tanguro, em Querência (MT)


Publicado em 06/03/2024 — 08:50 Por Fabíola Sinimbú — Repórter da Agência Brasil* — Canarana (MT)

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Um lab­o­ratório a céu aber­to em área de tran­sição entre dois bio­mas, o Cer­ra­do e a Flo­res­ta Amazôni­ca, per­mite infini­tas pos­si­bil­i­dades de estu­dos sobre meio ambi­ente, a ação humana e a dinâmi­ca dos ecos­sis­temas diante de difer­entes dis­túr­bios nat­u­rais ou não. Essa é a real­i­dade dos pesquisadores que atu­am na Fazen­da Tan­guro, um dos pro­je­tos desen­volvi­dos pelo Insti­tu­to de Pesquisa Ambi­en­tal da Amazô­nia (Ipam), orga­ni­za­ção da sociedade civ­il de inter­esse públi­co (Oscip) na cidade de Querên­cia, em Mato Grosso.

Pro­priedade de uma empre­sa de agri­cul­tura tradi­cional e que, por muito tem­po, cri­a­va gado para a pecuária, a área man­tém parte de sua exten­são preser­va­da. Ao todo, são quase 100 mil hectares dis­tribuí­dos ao lon­go de 60 quilômet­ros. Em qual­quer lugar, é pos­sív­el obser­var exper­i­men­tos que tes­tam a natureza, a con­vivên­cia de áreas into­cadas com out­ras afe­tadas pela ação humana e os lim­i­ares entre resil­iên­cia e resistên­cia do meio ambi­ente nos dois bio­mas.

Fazenda Tanguro - laboratório de pesquisa a céu aberto - Querência- MT. Foto: Fabiola Sinimbu/Agência Brasil
Repro­dução: Fazen­da Tan­guro — Lab­o­ratório de pesquisa a céu aber­to — Querên­cia- MT. Foto Fabi­o­la Sinimbú/Agência Brasil

Queimadas

Um con­tra­to fir­ma­do entre pro­du­tores e pesquisadores, ren­o­va­do a cada cin­co anos, per­mi­tiu a primeira pesquisa sobre os efeitos do fogo e a recu­per­ação de uma flo­res­ta esta­cional perenifólia, tam­bém con­heci­da como flo­res­ta sem­pre-verde, já que sem a ação do homem ela man­tém suas car­ac­terís­ti­cas, mes­mo em perío­dos de esti­agem.

O pesquisador e ger­ente de pro­je­tos da Tan­guro, Leonar­do San­tos, expli­ca que a ideia era obser­var, ini­cial­mente, como o fogo age em área preser­va­da e depois com queimas em tem­pos difer­entes, avaliar os impactos cau­sa­dos pelo fogo na fau­na e na flo­ra local. “É uma área com car­ac­terís­ti­cas úni­cas que, até então, não tin­ha nen­hum tipo de estu­do sobre o fogo”, diz

Fazenda Tanguro - laboratório de pesquisa a céu aberto - Querência- MT. Foto: Fabiola Sinimbu/Agência Brasil
Repro­dução: Fazen­da Tan­guro — Lab­o­ratório de pesquisa a céu aber­to — Querên­cia- MT. Foto Fabi­o­la Sinimbú/Agência Brasil

Para isso, em 2004, foi sele­ciona­da área de 150 hectares, que pas­sou por lev­an­ta­men­to florís­ti­co para doc­u­men­tar a veg­e­tação orig­i­nal, os ani­mais e inse­tos que habitavam o local. Tam­bém foi medi­da a quan­ti­dade de matéria que serviria de com­bustív­el para o fogo, ou seja, fol­has secas, gal­hos e out­ras sub­stân­cias que facili­tam a queima.

Depois, a área foi demar­ca­da em três espaços de 50 hectares, sendo que uma não foi queima­da, para con­t­role. A segun­da sofreu três queimas, uma a cada três anos; e a ter­ceira foi queima­da anual­mente, pas­san­do por dez queimas.

Ao lon­go dos dez anos, tan­to a parcela de con­t­role quan­to as out­ras duas que rece­ber­am fogo com fre­quên­cias difer­entes pas­saram a ser inven­tari­adas a cada dois anos e mon­i­toradas por difer­entes méto­dos.

Leonar­do expli­ca que o mon­i­tora­men­to dos com­po­nentes da estru­tu­ra da veg­e­tação, como as copas das árvores, a den­si­dade da madeira, a quan­ti­dade de ser­rapil­heira, que é o mate­r­i­al acu­mu­la­do sobre o solo, pas­saram a ger­ar dados durante os dez anos de exper­i­men­to e em cada eta­pa foram uti­liza­dos difer­entes equipa­men­tos. “Durante a queima foram medi­das a veloci­dade do fogo, altura da chama, veloci­dade do ven­to, com equipa­men­tos móveis. Em 2010, quan­do as queimas foram final­izadas, insta­lam­os duas tor­res com sen­sores para avaliar o fluxo de água e o fluxo de car­bono que a flo­res­ta pas­sou a pro­duzir na área de con­t­role e nas que foram atingi­das pelo fogo”, expli­ca.

Fazenda Tanguro - laboratório de pesquisa a céu aberto - Querência- MT. Foto: Fabiola Sinimbu/Agência Brasil
Repro­dução: Fazen­da Tan­guro — Lab­o­ratório de pesquisa a céu aber­to — Querên­cia- MT. Foto Fabi­o­la Sinimbú/Agência Brasil

Recuperação natural

Uma nova eta­pa teve iní­cio com a ger­ação de dados sobre o proces­so de recu­per­ação nat­ur­al dos locais que foram queima­dos. “Dados secundários pas­saram a ser ger­a­dos e novas pesquisas foram desen­volvi­das a par­tir dessa exper­iên­cia” con­ta o pesquisador Felipe Arru­da, que anal­isa o com­por­ta­men­to de formi­gas e abel­has.

Além dos inse­tos, sementes e plan­tas, são estu­da­dos mamífer­os, aves e o ciclo hidrológi­co nos locais do exper­i­men­to. De acor­do com a equipe, ao lon­go de quase 20 anos do pro­je­to, os resul­ta­dos cien­tí­fi­cos estim­u­lam novos estu­dos e impactam o desen­volvi­men­to de políti­cas públi­cas.

Com tan­tas pos­si­bil­i­dades em um lugar onde a agri­cul­tura é ati­va — há cur­sos de rios, veg­e­tações de gale­ria, fau­na e flo­ra diver­si­fi­ca­da — parce­rias com out­ras insti­tu­ições per­mi­ti­ram a expan­são das pesquisas. Mais 244 estu­dos foram desen­volvi­dos na fazen­da, dos quais 190 foram divul­ga­dos em impor­tantes pub­li­cações cien­tí­fi­cas. São estu­dos que, por exem­p­lo, inves­tigam o impacto de deter­mi­na­dos tipos de agri­cul­tura no meio ambi­ente.

Fazenda Tanguro - laboratório de pesquisa a céu aberto - Querência- MT. Foto: Fabiola Sinimbu/Agência Brasil
Repro­dução: Fazen­da Tan­guro — Lab­o­ratório de pesquisa a céu aber­to — Querên­cia- MT. Foto Fabío­la Sinimbu/Agência Brasil

Longa duração

Esse espaço aber­to a exper­i­men­tações acabou tor­nan­do a fazen­da um local de tro­ca de exper­iên­cias entre pesquisadores do Brasil e do mun­do. Além dis­so, o pro­je­to pas­sou a inte­grar o Pro­gra­ma de Pesquisas Ecológ­i­cas de Lon­ga Duração (PELD), ini­cia­ti­va do Con­sel­ho Nacional de Desen­volvi­men­to Cien­tí­fi­co e Tec­nológi­co (CNPq), que esta­b­ele­ceu uma rede de locais de refer­ên­cia para pesquisas de ecolo­gia de ecos­sis­temas.

“Se a gente não sabe quais são os efeitos das queimadas na veg­e­tação nati­va, o impacto na bio­di­ver­si­dade e quan­to tem­po, as comu­nidades de plan­tas e ani­mais demor­am a recu­per­ar, a gente não tem como pre­v­er o que vai acon­te­cer no futuro. Então, estu­dos de lon­ga duração podem nos dar dados para a gente faz­er essas pro­jeções”, diz.

*A repórter via­jou a con­vite do Insti­tu­to de Pesquisa Ambi­en­tal da Amazô­nia (Ipam) 

Edição: Graça Adju­to

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