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Pesquisadoras tratam dos desafios da carreira para mulheres no país

Repro­dução: © Fiocruz/Arquivo

Agência Brasil entrevistou cientistas que mapearam genoma do SARS-CoV


Pub­li­ca­do em 08/03/2023 — 06:43 Por Heloisa Cristal­do – Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

A paixão pela ciên­cia uniu o des­ti­no das pesquisado­ras Ester Sabi­no, 63 anos, e Jaque­line Goes, de 33 anos. De ger­ações dis­tin­tas, elas par­tic­i­param do primeiro sequen­ci­a­men­to genéti­co do novo coro­n­avírus no Brasil. O mapea­men­to genéti­co do vírus real­iza­do em ape­nas 48 horas – enquan­to a média mundi­al é de cer­ca de 15 dias –, ger­ou uma reper­cussão ines­per­a­da na equipe de espe­cial­is­tas.

Em entre­vis­tas exclu­si­vas à Agên­cia Brasil, Ester e Jaque­line falaram sobre as per­spec­ti­vas e val­oriza­ção de suas car­reiras e da ciên­cia no país, no Dia Inter­na­cional da Mul­her. Ampli­ar a divul­gação da ciên­cia no país e garan­tir inves­ti­men­tos para a pro­dução cien­tí­fi­ca estão entre os prin­ci­pais pon­tos defen­di­dos pelas duas pesquisado­ras.

Ingra Morales, Érica Manuli, Ester Sabino, Flávia Sales, Jaqueline Goes participaram do sequenciamento do coronavírus no Brasil.
Repro­dução: Equipe de pesquisado­ras que mapeou o geno­ma do SARS-CoV­‑2. Da esquer­da para a dire­i­ta: Ingra Morales, Éri­ca Man­uli, Ester Sabi­no, Flávia Sales e Jaque­line Goes — Almir R. Ferreira/ SCAPI IMT

Jaque­line é bio­médi­ca e coor­de­nado­ra da Rede Colab­o­ra­ti­va de Sequen­ci­a­men­to Genéti­co no Brasil (Rede SEQV Br). Ela defende reg­u­la­men­tar a profis­são no país e lem­bra que as bol­sas de pesquisa ficaram quase dez anos sem rea­juste. Em fevereiro o gov­er­no anun­ciou aumen­to de 25% a 200% nos val­ores pagos.

“Tra­ta-se o pesquisador como se ele fos­se um estu­dante, mas esquece-se que ele já é um profis­sion­al grad­u­a­do. Não faz sen­ti­do gan­har R$ 1.500 para desen­volver pesquisa, que é algo tão impor­tante para o país. Essa desval­oriza­ção do cien­tista tam­bém impacta na pro­dução, porque muitas vezes o cien­tista está ali, mas não está em condições ideais. Nem de mora­dia, nem de ali­men­tação, nem de apoio psi­cológi­co e, obvi­a­mente, isso vai impactar na pro­du­tivi­dade dele den­tro da pesquisa” pon­tu­ou.

Além da reg­u­la­men­tação profis­sion­al, Jaque­line defende a mod­ern­iza­ção da leg­is­lação brasileira para asse­gu­rar, por exem­p­lo, mais agili­dade na impor­tação de insumos para a pesquisa.

“O Brasil não pro­duz [insumos] e toda a ciên­cia brasileira é pau­ta­da pelas impor­tações de pro­du­tos pro­duzi­dos fora do país. Isso faz com que tudo encar­eça porque ess­es mate­ri­ais são impor­ta­dos em dólar ou euro”.

“Tam­bém é necessário con­sid­er­ar a cadeia logís­ti­ca [para impor­tação], pois a gente cansa de rece­ber reagentes que ficam na alfân­de­ga por 15 dias, 20 dias, muitas vezes em tem­per­atu­ra inad­e­qua­da”, acres­cen­tou.

A imu­nol­o­gista e pro­fes­so­ra do Depar­ta­men­to de Molés­tias Infec­ciosas da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) Ester Sabi­no tam­bém defende o aporte de mais ver­bas para ativi­dades de pesquisa e diz que na gestão do ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro hou­ve uma “guer­ra con­tra ciên­cia”.

“Hoje real­mente a área de ciên­cia pre­cisa de muito apoio para poder con­tin­uar crescen­do do jeito que esta­va antes dess­es últi­mos qua­tro anos, quan­do hou­ve uma guer­ra con­tra a ciên­cia. O val­or das bol­sas [de ensi­no e pesquisa] caíram, os estu­dantes vivem muito mal e isso tem um grande impacto”, ressaltou a pro­fes­so­ra.

Segun­do Ester Sabi­no, ger­ações inteiras de pesquisadores se per­dem, já que muitos tal­en­tos vão para o exte­ri­or em vir­tude da fal­ta de inves­ti­men­to e per­spec­ti­vas na área.

“A ciên­cia é uma coisa de lon­go pra­zo. Sin­to fal­ta de pes­soas mais novas que eu, que já estivessem fazen­do os seus gru­pos, senão vamos ter de novo uma fal­ta de pesquisadores. Essa leva [de pesquisadores] que foi for­ma­da pode cair de novo, como acon­te­ceu na déca­da de 60”, avalia.

Carreira

Com mais de 30 anos desen­vol­ven­do pesquisa no país, Ester Sabi­no lem­bra das difi­cul­dades do iní­cio da car­reira, no final da déca­da de 1970.

“Quan­do eu entrei para faz­er med­i­c­i­na, tudo era muito mais difí­cil que ago­ra. Tin­ha muito cien­tista indo emb­o­ra do Brasil. Não me lem­bro de nen­hum pro­fes­sor falan­do de ini­ci­ação cien­tí­fi­ca. Se fazia muito pou­ca pesquisa na fac­ul­dade de med­i­c­i­na”.

Segun­do ela, na déca­da de 1950 a fac­ul­dade de med­i­c­i­na no Brasil era con­sid­er­a­da uma das dez mel­hores do mun­do, mas sem inves­ti­men­tos, cien­tis­tas brasileiros começaram a deixar o país a par­tir da déca­da de 60.

“Quan­do entrei na fac­ul­dade, em 1978, já não tin­ha ninguém [fazen­do pesquisa cien­tí­fi­ca]”, lem­bra.

O tra­bal­ho com sequen­ci­a­men­to genômi­co começou nos anos 80, com o então recém-descober­to vírus HIV trans­mis­sor da Aids. De lá, a pesquisado­ra pas­sou a atu­ar com doenças trans­mis­síveis pelo sangue, seguin­do para estu­dos sobre doenças trop­i­cais, como a Doença de Cha­gas.

“Fui fazen­do as coisas à medi­da que con­seguia recur­sos para estu­dar. A ciên­cia é muito depen­dente de recur­sos, nem sem­pre o que eu quero estu­dar é o que tem recur­so disponív­el. Então, parte do que eu faço tem a ver com o tema para o qual con­si­go ess­es recur­sos”, expli­cou.

“Eu acho que pre­cisamos encon­trar um jeito para que a pesquisa fique menos depen­dente dos sola­van­cos da econo­mia. Essa é uma área con­sid­er­a­da extrema­mente necessária e os fun­dos dev­e­ri­am ser man­ti­dos de for­ma estáv­el”, defende.

Segun­do a pesquisado­ra, a exper­iên­cia acu­mu­la­da com o sequen­ci­a­men­to de out­ros vírus per­mi­tiu que a análise do DNA do SARS-CoV­‑2, nome cien­tí­fi­co do novo coro­n­avírus, fos­se agiliza­da pela equipe.

São Paulo- 07/03/2023 A pesquisadora e doutora em imunologia, Ester Sabino, trabalha no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo - USP e é membro titular da Academia Brasileira de Ciências - ABC.
Repro­dução: Ester Sabi­no tra­bal­ha no Insti­tu­to de Med­i­c­i­na Trop­i­cal da Uni­ver­si­dade de São Paulo — USP e é mem­bro tit­u­lar da Acad­e­mia Brasileira de Ciên­cias — Rove­na Rosa/Agência Brasil

“Está­va­mos muito pre­ocu­pa­dos com isso, em faz­er testes que dessem respostas ráp­i­das. Era nis­so que está­va­mos tra­bal­han­do antes de a pan­demia chegar. Então quan­do chegou o vírus, está­va­mos prepara­dos com essa tec­nolo­gia”, con­ta.

Ape­sar dos con­stantes avanços e retro­ces­sos na pro­dução cien­tí­fi­ca brasileira, a imu­nol­o­gista se man­tém otimista com as per­spec­ti­vas para a profis­são no país.

“Nós ficamos vici­a­dos em faz­er ciên­cia, a gente quer saber. A ativi­dade em si te dá essa ale­gria: con­ver­sar, tro­car ideias, faz­er novos estu­dos. Isso dá muito praz­er. Só que, por out­ro lado, é pre­ciso ser resistente, estu­dar muito”, con­tou.

“Espero que a gente volte ao pata­mar do que esta­va sendo feito antes porque é sem­pre bom tra­bal­har no seu próprio país. As pes­soas pen­sam que lá fora é mais fácil. Real­mente tem uma infraestru­tu­ra mel­hor, mas nem sem­pre é fácil viv­er em out­ra cul­tura e aqui você faz sem­pre a difer­ença”, asse­gurou.

Representatividade

A reper­cussão do tra­bal­ho com o sequen­ci­a­men­to genômi­co do SARS-CoV­‑2 chegou a assus­tar Jaque­line. No entan­to, a opção da pesquisado­ra foi de encar­ar o momen­to como opor­tu­nidade de ampli­ar o con­hec­i­men­to cien­tí­fi­co para a pop­u­lação.

“Quan­do eu come­cei a ter recon­hec­i­men­to eu fiquei muito pre­ocu­pa­da. Primeiro em relação a como seria todo esse proces­so de exposição e segun­do porque eu não tin­ha feito nada soz­in­ha. Então tin­ha toda uma equipe por trás que tra­bal­hou bas­tante, mas que acabou não ten­do tan­to destaque quan­to eu tive. Então eu tin­ha muito medo de me posi­cionar, eu tin­ha muito medo de apare­cer na mídia. Aos poucos eu fui enten­den­do que era necessário estar pre­sente, para aprox­i­mar a ciên­cia da pop­u­lação”, asse­gurou.

ESPECIAL DIA INTERNACIONAL DA MULHER - Bonecas Barbie. Foto: Mattel/divulgação
Repro­dução: Jaque­line Goes é a úni­ca pesquisado­ra hom­e­nagea­da por uma série de bonecas da lin­ha Bar­bie — Mattel/divulgação

Como resul­ta­do do tra­bal­ho, Jaque­line Góes foi uma das cien­tis­tas escol­hi­das pela fab­ri­cante de brin­que­dos Mat­tel para ser hom­e­nagea­da com a boneca Bar­bie. Ela foi a rep­re­sen­tante brasileira jun­to com out­ras cin­co cien­tis­tas da Aus­trália, Canadá, Esta­dos Unidos e Reino Unido.

“Quan­do eu rece­bi a notí­cia, min­ha primeira reação foi rejeitar [a hom­e­nagem]. Em um primeiro momen­to, eu não quis aliar meu nome a uma mar­ca que havia me trazi­do muitas frus­trações na infân­cia. A Bar­bie é uma boneca de cor bran­ca e eu não me enx­er­ga­va em um mod­e­lo inacessív­el”, disse.

Ela con­ta que, em segui­da, faz uma out­ra releitu­ra da pro­pos­ta e começou a enten­der que aqui­lo pode­ria mudar par­a­dig­mas: “a pre­sença de uma boneca negra, cien­tista, brasileira pode­ria mudar o imag­inário das cri­anças no Brasil”.

“É esse o papel da rep­re­sen­ta­tivi­dade que hoje eu estou ten­tan­do real­mente me apro­pri­ar para ten­tar mudar vidas, trans­for­mar a vida de meni­nas como eu”, acres­cen­tou.


A bio­médi­ca expli­ca que a atu­ação em bus­ca de infor­mações essen­ci­ais para a pro­dução de medica­men­tos e vaci­nas a fez ocu­par um espaço difer­ente do imag­i­na­va quan­do ingres­sou no cur­so de bio­med­i­c­i­na pela Esco­la Bahi­ana de Med­i­c­i­na e Saúde Públi­ca.

“Come­cei a enten­der a questão da rep­re­sen­ta­tivi­dade, o quan­to isso era impor­tante para mostrar as pes­soas. E, prin­ci­pal­mente, pes­soas negras: elas podi­am sim alcançar esse espaço, de suces­so acadêmi­co”, con­ta Jaque­line, ao con­cluir: “Hoje [ocupo espaço] de ser uma por­ta-voz da ciên­cia, prin­ci­pal­mente como rep­re­sen­tante fem­i­ni­na e negra para mostrar que a ciên­cia está a dis­posição da sociedade de for­ma saudáv­el, inclu­si­va, diver­sa”, com­ple­tou.

Edição: Denise Griesinger

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