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Estudo mostra que faltam mulheres negras em companhias aéreas do país

Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Mais de 97% das vagas são ocupadas por homens e desses, 2% são negros


Pub­li­ca­do em 19/03/2023 — 09:00 Por Lud­mi­la Souza — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Pesquisa da Orga­ni­za­ção Quilom­bo Aéreo em parce­ria com a Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Car­los (UFS­Car) mostrou que, em todo o Brasil, não há mul­heres negras tra­bal­han­do como pilo­to em com­pan­hias aéreas nacionais. 

Em 2022, havia 3.283 for­madas, sendo que mul­heres atu­antes em com­pan­hias aéreas eram ape­nas 992, rep­re­sen­tan­do 2,3% dos tra­bal­hadores nes­sa função. Ou seja, mais de 97% das vagas são ocu­padas por home­ns, sendo que ape­nas 2% são negros, segun­do as esti­ma­ti­vas. Quan­to aos comis­sários de bor­do, ape­nas cer­ca de 5% dos profis­sion­ais atu­antes são pes­soas negras e cer­ca de 66% são mul­heres.

A Orga­ni­za­ção Quilom­bo Aéreo, com o apoio do Grupo de Pesquisa Gênero, Raça e Inter­sec­cional­i­dades no Tur­is­mo (GRI­Tus), que é coor­de­na­do pela UFS­Car em con­jun­to com a Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Pelotas (UFPel), real­i­zou entre­vis­tas com tra­bal­hado­ras e ex-tra­bal­hado­ras negras do setor. Há comis­sárias de bor­do e pilotas for­madas que não estão atuan­do setor no momen­to.

A pesquisa rev­el­ou tam­bém cin­co bar­reiras para as mul­heres negras aden­trarem o setor da avi­ação civ­il nacional: cus­to da for­mação profis­sion­al, fal­ta de infor­mações sobre a car­reira e de rep­re­sen­ta­tivi­dade de out­ras mul­heres negras, proces­sos sele­tivos desiguais e não aceitação dos cor­pos negros.

Para per­manecer no setor, são sete as bar­reiras recon­heci­das: fal­ta de rep­re­sen­ta­tivi­dade, nív­el de cobrança, negação do cor­po negro, não aceitação do cabe­lo cre­spo, saúde mental/laboral, machis­mo e assé­dio.

“As mul­heres negras enfrentam bar­reiras para entrar no mer­ca­do de tra­bal­ho da avi­ação civ­il brasileira, assim como para per­manecer atuan­do no setor”, afir­mou a comis­sária de bor­do e pesquisado­ra Laiara Amor­im, ide­al­izado­ra do Quilom­bo Aéreo, cole­ti­vo cri­a­do em 2018 por duas mul­heres negras, Laiara e Kenia Aquino, a par­tir dos pro­je­tos “Voe Como Uma Garo­ta Negra” e “Voo Negro”. O obje­ti­vo é dar vis­i­bil­i­dade a profis­sion­ais negros da avi­ação civ­il, pesquisas acadêmi­cas inédi­tas no setor, empre­ga­bil­i­dade e saúde men­tal dess­es trip­u­lantes.

“Já sabíamos aprox­i­mada­mente dess­es dados, o reg­istro cien­tí­fi­co dess­es números foi uma con­statação. Então, para as pesquisado­ras do Quilom­bo Aéreo não foi nen­hu­ma sur­pre­sa, mas é uma sur­pre­sa para sociedade e, tam­bém, para as com­pan­hias aéreas, que não olhavam para ess­es números até um ano atrás”, disse Laiara.

Rejeição

“O cor­po negro inco­mo­da e é rejeita­do”, ressaltou a pro­fes­so­ra na UFPel e coor­de­nado­ra do GRI­Tus, Natália Oliveira. “Olhan­do para o cabe­lo da mul­her negra, por exem­p­lo, iden­ti­fi­camos profis­sion­ais negras que foram bar­radas em proces­sos sele­tivos, porque estavam com seus cabe­los nat­u­rais soltos nas entre­vis­tas de emprego. É explíc­i­to como essas mul­heres não são sele­cionadas, mes­mo ten­do um cur­rícu­lo bem qual­i­fi­ca­do ou até mel­hor que out­ras can­di­datas bran­cas.”

Ape­sar de serem a maio­r­ia nos cur­sos supe­ri­ores na área do tur­is­mo, as mul­heres ain­da ocu­pam posições precárias no mer­ca­do de tra­bal­ho, prin­ci­pal­mente nas áreas de alo­ja­men­to e ali­men­tação.

“O mer­ca­do de tra­bal­ho no setor do tur­is­mo é bas­tante divi­di­do em relação às ocu­pações, levan­do em con­ta o gênero dos profis­sion­ais. Acom­pan­hamos o proces­so sele­ti­vo de uma das entre­vis­tadas que par­ticipou da nos­sa pesquisa, por exem­p­lo. Ela con­seguiu uma vaga como comis­sária, ape­sar de estar capac­i­ta­da para atu­ar como pilo­to. A empre­sa ale­gou que ela não esta­va prepara­da, mas con­tra­tou um homem que tin­ha as mes­mas especi­fi­ci­dades que ela no cur­rícu­lo”, exem­pli­fi­ca Laiara Amor­im.

Assédio

Out­ro fato iden­ti­fi­ca­do na pesquisa foi o assé­dio sex­u­al, moral e psi­cológi­co sofri­do pelas profis­sion­ais negras, sendo prat­i­ca­do tan­to pelos cole­gas de tra­bal­ho como por clientes das com­pan­hias aéreas. Den­tre as tra­bal­hado­ras no tur­is­mo, o assé­dio é fre­quente entre comis­sárias de bor­do, recep­cionistas e camareiras, porém mais acen­tu­a­do em direção a mul­heres negras.

De acor­do com as entre­vis­tadas o assé­dio acon­tece de várias for­mas, como, por exem­p­lo, por meio do ques­tion­a­men­to da mul­her estar naque­le lugar. “Uma das profis­sion­ais ouviu de uma pilota que ela pare­cia uma pas­sista de esco­la de sam­ba. Em out­ros casos, home­ns já per­gun­taram quan­to a trip­u­lante gan­ha­va de salário e se ofer­e­ci­am para pagar mais”, rela­tou Gabriela San­tos, uma das pesquisado­ras do estu­do.

O Quilom­bo Aéreo tra­bal­ha com três pilares: empre­ga­bil­i­dade, acadêmi­co e for­mação téc­ni­ca. “Neste momen­to, esta­mos fazen­do nos­sa cam­pan­ha de arrecadação para for­mar mais uma tur­ma do Pro­je­to Pre­tos que Voam que capaci­ta, profis­sion­al­iza e empre­ga jovens negros per­iféri­cos. Para além dis­so, temos apoio psi­cológi­co, acom­pan­hamen­to de car­reira e empodera­men­to, por meio do recon­hec­i­men­to estéti­co e econômi­co.”

Projeto Pretos que Voam

O Pro­je­to Pre­tos que Voam é uma ini­cia­ti­va para profis­sion­alizar e empre­gar jovens negros per­iféri­cos. A primeira tur­ma se for­mou em 2021. Ago­ra está em anda­men­to uma cam­pan­ha de arrecadação para a segun­da tur­ma. Da primeira tur­ma, afir­mou a rep­re­sen­tante do Quilom­bo Aéreo, todos estão aprova­dos na Agên­cia Nacional de Avi­ação Civ­il (Anac) e alguns empre­ga­dos como comis­sários de voo. O Pro­je­to Pre­tos que Voam é finan­cia­do por doações pela platafor­ma Ben­feito­ria e recebe doações a par­tir de R$ 10.

Inclusão

Nes­ta sem­ana, a Latam anun­ciou a aber­tu­ra de proces­so sele­ti­vo no Brasil exclu­si­vo para mul­heres para a função de copi­lo­to de aeron­aves da família Air­bus A320. A com­pan­hia afir­mou que bus­ca pro­mover a equidade de gênero com foco na diver­si­dade e inclusão e que pre­tende preencher pelo menos 50 vagas até dezem­bro de 2023.

Para a rep­re­sen­tante do Quilom­bo Aéreo Laiara Amor­im, é de suma importân­cia que ocor­ram ações com a inserção de mul­heres nesse mer­ca­do, mas em relação a gênero e raça é necessário pen­sar em ações afir­ma­ti­vas para suporte, apoio e for­mação de mul­heres negras.

“No mapea­men­to do Quilom­bo Aéreo, por exem­p­lo, não temos nen­hu­ma mul­her negra que preen­cha os req­ui­si­tos da vaga em especí­fi­co, como por exem­p­lo o número de horas de voo, o que reforça as bar­reiras iden­ti­fi­cadas na pesquisa, a bar­reira de aces­so à for­mação. A maio­r­ia das mul­heres negras são arri­mo de família e geral­mente têm que escol­her entre a for­mação e a sobre­vivên­cia. Quan­do se con­segue faz­er os dois não é na mes­ma veloci­dade que as mul­heres ou home­ns bran­cos. As com­pan­hias que real­mente querem se com­pro­m­e­ter com a equidade racial e de gênero, na cab­ine de coman­do, vão ter que olhar para o antes e o durante da for­mação e para a situ­ação atu­al das mul­heres negras no nos­so país”, disse.

Edição: Maria Clau­dia

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