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Fogos de artifício acarretam sofrimento físico e risco para animais

Barulho pode desencadear reações como pânico e tentativas de fuga

Alana Gan­dra – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 31/12/2025 — 17:44
Rio de Janeiro
Feira de adoção de animais
Repro­dução: © Prefeitu­ra do Rio/Subvisa/Nelson Duarte

Enquan­to a audição humana con­segue dis­tin­guir sons que vão até uma fre­quên­cia máx­i­ma de 20 mil hertz (Hz), os cachor­ros podem cap­tar até 40 mil Hz e os gatos até 65 mil Hz. Daí a pre­ocu­pação do pres­i­dente do Con­sel­ho Region­al de Med­i­c­i­na Vet­er­inária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), Dio­go Alves, em relação aos impactos neg­a­tivos que os fogos de artifí­cio nas fes­tas de fim de ano podem acar­retar para os ani­mais.

Emb­o­ra as grandes aglom­er­ações e as queimas de fogos façam parte da tradição do Réveil­lon, para os ani­mais, esse perío­do pode sig­nificar sofri­men­to físi­co, pavor e risco real de aci­dentes.

“Porque o som alto e repenti­no, quan­do o cão ou o gato escu­tam, eles inter­pre­tam como se fos­se um estí­mu­lo poten­cial­mente ameaçador, que leva a um forte estresse e pode até rela­cionar com uma com­bi­nação de fatores sen­so­ri­ais tam­bém, emo­cionais e com­por­ta­men­tais”.

De acor­do com Dio­go Alves, isso leva a uma fobia sono­ra, uma vez que o ani­mal tem o poder de poten­cializar os sons. “Ouvem o dobro dos sons de um ser humano. E nos gatos isso é ain­da maior”. Desse modo, o ide­al seria os tutores começarem a faz­er uma preparação prévia, para garan­tir maior segu­rança para os pets, não só na sem­ana do Natal e do Ano Novo, mas tam­bém do car­naval, sug­eriu.

“Porque o ani­mal tem que ter uma roti­na super har­mo­niosa den­tro de casa. Você pode ten­tar faz­er com que o ani­mal ten­ha brin­qued­in­hos em casa, que podem fun­cionar até como uma fer­ra­men­ta emo­cional para ele, porque vai aju­dar a canalizar a ener­gia, estim­u­lar o foco no brin­que­do e ser algo pos­i­ti­vo que vai faz­er ele se desli­gar dos estí­mu­los exter­nos. Isso é muito impor­tante tam­bém”.

Os respon­sáveis devem se preparar com ante­cedên­cia, deixan­do ambi­entes mais seguros, como cômo­d­os fecha­dos, corti­nas fechadas e iso­la­men­to acús­ti­co impro­visa­do, que aju­dam a reduzir o impacto do som. Sons con­stantes, como tele­visão ou músi­ca em vol­ume mod­er­a­do, podem fun­cionar como bar­reira sono­ra.

Rio de Janeiro (RJ), 29/12/2025 - Fogos de artifício acarretam sofrimento físico, pavor e risco real de acidentes para os animais. Diogo Alves. Foto: Diogo Alves/Arquivo Pessoal
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 29/12/2025 — Fogos de artifí­cio acar­retam sofri­men­to físi­co, pavor e risco real de aci­dentes para os ani­mais. Dio­go Alves. Foto: Dio­go Alves/Arquivo Pes­soal

Reações

Como cães e gatos pos­suem audição muito mais sen­sív­el que a humana, o barul­ho dos fogos pode des­en­cadear reações como pâni­co, ten­ta­ti­vas de fuga, tremores, sali­vação exces­si­va, auto­mu­ti­lação e aci­dentes graves, como quedas de janelas e muros durante ten­ta­ti­vas deses­per­adas de escapar do barul­ho. Com a fuga, podem acabar sendo atro­pela­dos nas ruas. O pres­i­dente do CRMV-RJ aler­ta que os efeitos do estresse provo­ca­do por explosões sono­ras não são ape­nas com­por­ta­men­tais. Os ani­mais sujeitos a esse tipo de estí­mu­lo podem apre­sen­tar taquicar­dia, aumen­to da pressão arte­r­i­al, des­ori­en­tação e crises con­vul­si­vas. Em situ­ações extremas, o quadro pode levar ao óbito do ani­mal.

“A lib­er­ação de adren­a­li­na é tão alta que pode ocor­rer uma para­da cardía­ca em decor­rên­cia da con­vul­são e do choque”. Dio­go Alves não recomen­dou tam­bém pren­der os ani­mais em coleiras porque isso pode acabar provo­ca­do enfor­ca­men­to. “Isso é muito pior porque o ani­mal sente medo, vai ten­tar pular, aca­ba sendo enfor­ca­do e muitos mor­rem”.

Para os gatos, em espe­cial, Dio­go Alves lem­brou que uma opção são os fer­omônios em for­ma de spray. Fer­omônios para gatos são com­pos­tos quími­cos (nat­u­rais ou sin­téti­cos) que imi­tam os sinais de bem-estar e segu­rança que os gatos lib­er­am, aju­dan­do a acal­mar, reduzir estresse, ansiedade, e facil­i­tar adap­tação a novos ambi­entes ou out­ros pets. Out­ra dica impor­tante, segun­do o médi­co vet­er­inário é con­tro­lar as entradas da casa, man­ter a por­ta do ani­mal sem­pre fecha­da.

“Muito cuida­do com con­vi­da­dos, que ficam entran­do e sain­do den­tro da casa da pes­soa. E, aí, podem deixar a por­ta aber­ta e o bicho fugir”.

Segun­do Alves, é necessário um con­t­role muito grande “porque os ani­mais mere­cem esse cuida­do mes­mo”. Envolvê-los em man­tas, por exem­p­lo, aju­da a aliviar o estresse.

“O con­ta­to da pele ani­mal com a do ser humano faz com que ele se sin­ta mais seguro. Isso é muito impor­tante”. Esse hábito, que muitas pes­soas chamam de “tail in touch”, ter­mo inglês que sig­nifi­ca toque do pano, “ameniza essa fobia, estim­u­la a lib­er­ação de hor­mônios para reduzir o estresse do bich­in­ho. É impor­tante, sim”.

 

Tutores com cães no Parcão, espaço exclusivo para cachorros, na Praça Ayrton Senna do Brasil.Repro­dução: Barul­ho dos fogos pode des­en­cadear reações como pâni­co, ten­ta­ti­vas de fuga, tremores. Rove­na Rosa/Agência Brasil

Cuidados

Em relação a med­icações, o pres­i­dente do CRMV-RJ aler­tou que o uso de ansi­olíti­cos só deve ser pre­scrito por um médi­co vet­er­inário. “Porque cada caso é um caso”. O mes­mo ocorre quan­to à pos­si­bil­i­dade de sedação. “A sedação é só com ori­en­tação vet­er­inária mes­mo. Porque tem mui­ta gente que ouve e quer faz­er uma coisa desse tipo e não pode, não deve faz­er. Com a inter­net, todo mun­do é curioso, todo mun­do se acha pro­fes­sor”, criti­cou. Além dis­so, o uso indis­crim­i­na­do dess­es remé­dios tam­bém pode causar efeito colat­er­al grave. “O suces­so e o pre­juí­zo são a dose que é min­istra­da”, salien­tou.

Out­ra coisa impor­tante é não ali­men­tar o ani­mal per­to dos horários dos fogos porque, com a agi­tação, ele pode sofr­er engas­gos. Emb­o­ra a queima de fogos se inten­si­fique na hora da vira­da, tem pes­soas que des­de a man­hã do dia 31 já estão soltan­do fogos, lem­brou Dio­go Alves. Como o calor está muito forte, out­ra recomen­dação é hidratar bas­tante o ani­mal.

“Eu sem­pre recomen­do faz­er cubin­hos de gelo, sorvet­inho de fru­tas. Você con­gela a fru­ta, melan­cia ou melão, para o ani­mal brin­car. Ele fica lam­ben­do, aqui­lo vai dis­traí-lo, tira o foco do calor um pouco tam­bém. E evi­tar fru­tas açu­caradas. Melan­cia e melão são as que a gente real­mente recomen­da porque a quan­ti­dade hídri­ca é muito maior. Eles vão ado­rar, vão brin­car”.

Atenção tam­bém para os apar­el­hos de ar-condi­ciona­do, porque podem resse­car as vias aéreas dos ani­mais. Para que isso não ocor­ra, o médi­co vet­er­inário sug­ere colo­car um balde den­tro do local para aumen­tar a umi­dade daque­le espaço. Em relação aos pas­seios na rua, obser­vou que “se o chão está quente para a gente, está dez vezes mais quente para o ani­malz­in­ho”. Não se deve faz­er pas­seios com os ani­mais em horários de pico de sol, mas até 8 horas da man­hã ou só no final da tarde, para que o bich­in­ho ten­ha uma tran­spi­ração mel­hor. Para os gatos, que são preguiçosos por natureza, os tutores devem colo­car vários pot­in­hos de água pela casa e com fontes, porque o gato é estim­u­la­do a beber tam­bém pela água em movi­men­to.

O CRMV-RJ reforça que cel­e­brar não pode sig­nificar colo­car vidas em risco. Em perío­dos de grande incidên­cia de fogos, a respon­s­abil­i­dade com os ani­mais deve faz­er parte do plane­ja­men­to das comem­o­rações.

Outras orientações

O pro­fes­sor do cur­so de Med­i­c­i­na Vet­er­inária da Uni­ver­si­dade Guarul­hos (UNG), Diego de Mat­tos, desta­cou que um dos con­tratem­pos durante as fes­tivi­dades é a intox­i­cação com ali­men­tos pre­sentes nas ceias, como o choco­late, uva pas­sa, cebo­la, nozes e alho, que são comi­das perigosas para os com­pan­heiros de qua­tro patas. “O choco­late, por exem­p­lo, tem teo­bromi­na e cafeí­na. O organ­is­mo dos ani­mais não con­segue metab­o­lizar ade­quada­mente essas sub­stân­cias”, expli­cou.

De acor­do com Diego de Mat­tos, é pre­ciso tam­bém evi­tar mas­sas cruas com fer­men­to e bebidas alcoóli­cas, pois podem causar intox­i­cações graves. Carnes gor­durosas, defu­madas ou muito tem­per­adas aumen­tam o risco de pan­cre­atite. Out­ro ele­men­to que deve ser evi­ta­do é osso cozi­do, pois suas las­cas podem per­furar ou obstru­ir o tra­to diges­ti­vo dos ani­mais. Deixar todos os ali­men­tos fora do alcance dos ani­mais e não ofer­e­cer restos de comi­da são providên­cias acer­tadas.

“Caso o tutor queira incluir os bich­in­hos nas fes­tivi­dades, é recomen­da­do preparar opções seguras, como carnes magras e cozi­das sem tem­pero e sal, legumes ade­qua­dos e petis­cos volta­dos aos pets”.

Ele desta­cou ain­da que a bus­ca por atendi­men­to vet­er­inário é indi­ca­da quan­do o medo ou a ansiedade se tor­nam inten­sos ou per­sis­tentes. Sin­tomas como tremores con­tín­u­os, vômi­tos, difi­cul­dade para res­pi­rar, con­vul­sões, ten­ta­ti­vas deses­per­adas de fuga ou recusa total em se ali­men­tar são alguns sinais que mere­cem atenção. Ele assi­nalou que o acom­pan­hamen­to vet­er­inário é essen­cial para evi­tar que a ansiedade e o medo se trans­formem em um prob­le­ma crôni­co

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