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Caminhos da Reportagem fala hoje sobre o cronista das ruas João do Rio

João do Rio, o cronista das ruas
Repro­dução: © TV Brasil/Caminhos da Reportagem

Programa vai ao ar neste domingo, às 20h, na TV Brasil


Pub­li­ca­do em 20/06/2021 — 10:07 Por TV Brasil — Brasília

Um sécu­lo depois da morte de João do Rio, o escritor e jor­nal­ista é lem­bra­do por ter desven­da­do a alma das ruas car­i­o­cas. “A rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! A rua nasce, como o homem, do soluço, do espas­mo. Há suor humano na arga­mas­sa do seu calça­men­to. A rua sente nos ner­vos essa mis­éria da cri­ação, e por isso é a mais igual­itária, a mais nive­lado­ra das obras humanas”, escreveu em “A alma encan­ta­do­ra das ruas”. O Cam­in­hos da Reportagem sobre João do Rio vai ao ar neste domin­go (20), às 20h, na TV Brasil.

Ao mes­mo tem­po em que foi uma teste­munha da época em que viveu (de 1881 até 1921), deixou uma obra que con­tin­ua atu­al. “Se daqui a cem anos alguém tiv­er que ten­tar enten­der como era a cidade do Rio de Janeiro vai ter que recor­rer a João do Rio. Mas não só como era, como ela é hoje com todas as suas belezas, desafios, des­graças e danações”, afir­ma o escritor e his­to­ri­ador Luiz Anto­nio Simas.

João do Rio, o cronista das ruas
Repro­dução: Luiz Anto­nio Simas lê tre­cho de A alma encan­ta­do­ra das ruas– TV Brasil/Caminhos da Reportagem

João do Rio é o pseudôn­i­mo mais con­heci­do de João Paulo Bar­reto, que começou a tra­bal­har na impren­sa aos 16 anos e mor­reu aos 39 anos, no auge da car­reira, de for­ma repenti­na, enquan­to se deslo­ca­va num táxi. É mais famoso pelas crôni­cas, mas tam­bém escreveu romance, peça de teatro, ensaio, entre­vista e reportagem.

Ele inte­grou a boemia car­i­o­ca no perío­do da belle époque. O Rio de Janeiro era ain­da a cap­i­tal do país e ten­ta­va deixar para trás o pas­sa­do colo­nial por­tuguês para se tornar uma metró­pole nos moldes parisiens­es. A refor­ma urbana con­duzi­da pelo prefeito Pereira Pas­sos, que gan­hou o apeli­do de “bota-abaixo”, pro­moveu a demolição de cen­te­nas de imóveis anti­gos que der­am espaço a novas con­struções. A inau­gu­ração da Aveni­da Cen­tral, hoje Aveni­da Rio Bran­co, foi o sím­bo­lo dessa empre­ita­da que bus­ca­va ala­van­car a civ­i­liza­ção e o pro­gres­so.

João do Rio, o cronista das ruas
Repro­dução: Aveni­da Cen­tral– TV Brasil/Caminhos da Reportagem

Os tex­tos de João do Rio retratam as luzes e som­bras da mod­ernidade que se pre­tendia alcançar, anal­isa a antropólo­ga Julia O’Donnell. “A mod­ernidade não é fei­ta só dos bril­hos, ela é fei­ta tam­bém das áreas opacas, das partes que são esque­ci­das por ela. O João Paulo Bar­reto, na figu­ra do João do Rio, cap­tou os dois lados dessa moe­da chama­da mod­ernidade mostran­do como essas trans­for­mações impactaram difer­entes gru­pos soci­ais”, expli­ca a pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro.

Os per­son­agens de João do Rio eram prin­ci­pal­mente as pes­soas que gan­havam a vida nas ruas, como músi­cos ambu­lantes, esti­vadores, car­ro­ceiros, tat­u­adores, pros­ti­tu­tas, vende­dores de livros, pes­soas sem teto, entre out­ras. Gente como a artesã Vera Abílio, de 69 anos, que dorme nas calçadas da Cinelân­dia, região cen­tral do Rio, há seis anos e faz tou­cas de crochê para vender no out­ono e no inver­no. “Estas com as cores do Bob Mar­ley têm mui­ta procu­ra”, diz ela à reportagem.

João do Rio, o cronista das ruas
Repro­dução: Vera Lúcia vende tou­cas no cen­tro do Rio — TV Brasil/Caminhos da Reportagem

A pro­fes­so­ra de jor­nal­is­mo da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ), Mar­i­al­va Bar­bosa, con­ta que naque­le momen­to faz­er car­reira nas redações era uma for­ma de con­quis­tar o públi­co e ingres­sar na lit­er­atu­ra. Os jor­nais estavam se profis­sion­al­izan­do, tor­nan­do-se “fábri­c­as de notí­cias”, diz Bar­bosa. Foi quan­do surgiu a figu­ra do repórter, que acom­pan­ha­va os acon­tec­i­men­tos cotid­i­anos da cidade e fazia entre­vis­tas.

Uma série de reporta­gens de João do Rio sobre as religiões prat­i­cadas na cidade fez dobrar a tiragem da Gaze­ta de Notí­cias, onde ele tra­bal­ha­va, e depois virou um dos livros mais con­heci­dos do escritor. João Car­los Rodrigues, autor da biografia “João do Rio, vida, paixão e obra”, diz que foi “um dos primeiros best sell­ers brasileiros”.

Rodrigues ressalta, porém, que ape­sar de ser muito pop­u­lar e ter con­segui­do uma cadeira na Acad­e­mia Brasileira de Letras, João do Rio sofreu pre­con­ceito por ser negro, obe­so e homos­sex­u­al. Quan­do ten­tou entrar para a diplo­ma­cia brasileira, a cor da pele foi um empecil­ho, segun­do o his­to­ri­ador Anto­nio Edmil­son Mar­tins Rodrigues. “O Brasil não podia ter um embaix­ador ou um diplo­ma­ta negro. Isso diante do espetácu­lo da mod­ernidade, que é um espetácu­lo bran­co”, afir­ma.

Para a pro­fes­so­ra Mar­i­al­va Bar­bosa, “quan­do você vê um sujeito que per­tence ao grupo dos excluí­dos ter suces­so no Rio de Janeiro do iní­cio do sécu­lo pas­sa­do, você está falan­do dess­es excluí­dos da história que têm rever­ber­ação no mun­do de hoje.” Este é out­ro moti­vo pelo qual a obra de João do Rio des­per­ta inter­esse.

A ínte­gra do Cam­in­hos da Reportagem fica disponív­el no site do pro­gra­ma.

Edição: Aline Leal

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