...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Entretenimento / Maranhão: Rosa Reis mantém viva a memória do carnaval popular

Maranhão: Rosa Reis mantém viva a memória do carnaval popular

Repro­dução: © Rosa Reis/ Acer­vo Pes­soal

Rosa começou a carreira artística em 1989


Pub­li­ca­do em 19/02/2023 — 15:44 Por Luciano Nasci­men­to — Repórter da Agên­cia Brasil — São Luís

ouvir:

No mês em que a ale­gria toma con­ta das ruas por causa do car­naval, a Agên­cia Brasil pub­li­ca a série de entre­vis­tas Patrimônios do Car­naval, com per­son­al­i­dades que expres­sam a história, a cul­tura e o espíri­to da fes­ta que mobi­liza comu­nidades de Norte a Sul do país. Con­fi­ra a entre­vista com Rosa Reis.

Can­to­ra, caix­eira do divi­no e cacuriá, dançadeira de tam­bor de crioula. Assim se define Rosa Reis, per­son­al­i­dade de destaque na cul­tura pop­u­lar do Maran­hão, coor­de­nado­ra do Lab­o­ratório de Expressões Artís­ti­cas (Lab­o­rarte), grupo fun­da­do nos anos 1970, que tem papel de destaque em pesquisa, reg­istro e divul­gação da cul­tura pop­u­lar do esta­do. Nasci­da em 6 de março de 1959, Rosa inte­gra o Lab­o­rarte des­de 1983.

O grupo atua em diver­sas lin­gua­gens artís­ti­cas e é um celeiro de artis­tas do teatro, dança, músi­ca, fotografia, artes plás­ti­cas e da cul­tura pop­u­lar maran­hense. É uma espé­cie de esco­la volta­da para a val­oriza­ção da cul­tura pop­u­lar, onde se aprende sobre difer­entes man­i­fes­tações, como tam­bor de crioula, tocar caixa do Divi­no Espíri­to San­to, dançar cacuriá, dança típi­ca do esta­do, e a con­hecer a história da cul­tura pop­u­lar maran­hense. Há mais de 50 anos, o Lab­o­rarte é pon­to de refer­ên­cia para a cul­tura pop­u­lar do Maran­hão.

Na segun­da-feira de car­naval, o Labô, como é car­in­hosa­mente chama­do, abre as por­tas do casarão históri­co no Cen­tro de São Luís, na rua Jansen Müller, para pro­mover a tradi­cional com difer­entes man­i­fes­tações da cul­tura pop­u­lar. Blo­cos tradi­cionais, Tam­bor de Crioula, blo­cos Afro, Tri­bos de Índio, Cas­in­ha da Roça e out­ras brin­cadeiras se apre­sen­tam em frente ao casarão cen­tenário que abri­ga o grupo. Brin­cantes fan­tasi­a­dos de Fofão, per­son­agem típi­co, dão bril­ho à fes­ta. A ini­cia­ti­va de mais de 30 anos tem por obje­ti­vo preser­var a memória do car­naval tradi­cional da cidade.

Além de coor­denar o Labô, Rosa tem car­reira artís­ti­ca, ini­ci­a­da em 1989, com o show Cantareira. Des­de então, gravou com­posições difer­entes com­pos­i­tores, como Josias Sobrin­ho, César Teix­eira, Chico César, Joãoz­in­ho Ribeiro, Chico Maran­hão, Nosly Júnior, Cel­so Borges, Zeca Baleiro, Fauzi Bey­doun e Tião Car­val­ho. Lançou seis álbuns de estú­dio e uma coletânea, além de par­tic­i­pação espe­cial em dis­cos de out­ros artis­tas.

Rosa começou a carreira artística em 1989
Repro­dução: Rosa começou a car­reira artís­ti­ca em 1989 — Rosa Reis/Arquivo Pes­soal

Rosa Reis é pro­du­to­ra e inte­grante dos espetácu­los Cacuriá de Dona Teté, atual­mente sob sua respon­s­abil­i­dade, e do Tam­bor de Crioula do mestre Felipe. A arte, que corre nas veias da família, resul­tou em parce­ria artís­ti­ca com suas três fil­has, Lua­na Reis, Imi­ra Brito e Cami­la Reis, em diver­sos espetácu­los do grupo.

Agên­cia Brasil: Como começou essa relação com a cul­tura pop­u­lar?

Rosa Reis: Con­sidero min­ha relação com a cul­tura pop­u­lar a par­tir do momen­to em que entrei no Lab­o­rarte e come­cei a desco­brir mais o Bum­ba-boi, o tam­bor de Crioula, acom­pan­har mais todos esse movi­men­to. Des­de então cada vez mais me apro­fun­dei, pas­sei a pesquis­ar mais, fui me envol­ven­do mais e trouxe tudo isso para den­tro do meu tra­bal­ho de músi­ca. É dessa for­ma que chegou o meu envolvi­men­to com a cul­tura pop­u­lar. Essa coisa de estar con­viven­do com os mestres, con­ver­san­do, par­tic­i­pan­do de ofic­i­nas, indo nos ter­reiros, indo nas suas sedes e isso tudo foi me deixan­do cada vez mais apaixon­a­da pela nos­sa cul­tura tradi­cional.

Agên­cia Brasil: E sua tra­jetória com o Lab­o­rarte, como foi?

Rosa Reis: Cheguei ano Lab­o­rarte em 1983 e aqui come­cei a tra­bal­har com o depar­ta­men­to de som, porque, na época, eu can­ta­va no Coral São João. Min­ha con­tribuição com o depar­ta­men­to de som, com o tra­bal­ho em várias lin­gua­gens: teatro, dança, músi­ca. Lá começamos a cri­ar shows, a faz­er tra­bal­ho de pesquisa de rit­mos tradi­cionais como Bum­ba-boi, Tam­bor de Crioula, Fes­ta do Divi­no, Cacuriá. E foi aí que começou toda essa história onde estou até hoje.

Agên­cia Brasil: É um desafio estar a frente do Lab­o­rarte?

Rosa Reis: É um grande desafio, porque aqui tra­bal­hamos várias lin­gua­gens que deman­dam. Já tive um momen­to mais difí­cil, porque sou fun­cionária públi­ca, ago­ra aposen­ta­da. Então, teve um tem­po que era super difí­cil con­cil­iar os horários e ao mes­mo tem­po estar tra­bal­han­do com a arte e com a cul­tura. Hoje  me sin­to mais tran­quila.

Temos grupo de gestão em várias áreas: de capoeira, teatro, tam­bor de crioula e dança pop­u­lar que é o Cacuriá. Então, várias equipes tra­bal­ham jun­tas e con­seguem man­ter o casarão em fun­ciona­men­to o tem­po todo. Mas a manutenção ain­da é difí­cil, pois o casarão tem mais de 100 anos e está sem­pre pre­cisan­do de peque­nas refor­mas e manutenção.

Há mais de 50 anos, o Laborarte é um ponto de referência para a cultura popular do Maranhão.
Repro­dução: Há mais de 50 anos, o Lab­o­rarte é um pon­to de refer­ên­cia para a cul­tura pop­u­lar do Maran­hão. — Rosa Reis/Acervo Pes­soal

Para man­ter o casarão, faze­mos ofic­i­nas, vendemos espetácu­los. Daí sai um per­centu­al e é com ele que a gente se man­tém. Fora isso, par­tic­i­pamos de edi­tais. Às vezes, o per­centu­al que vem das ofic­i­nas aca­ba sendo mais para paga­men­to das pes­soas que estão à frente. Então, é dessa for­ma que a gente vai sobre­viven­do aqui, real­izan­do pro­je­tos soci­ais. Já tive­mos tra­bal­hos em pro­je­tos soci­ais e cul­tur­ais. Os dois últi­mos anos foram muito difí­ceis, em razão da pan­demia. Ago­ra que esta­mos nos lev­an­ta­men­to.

Tive­mos um coor­de­nador no Lab­o­rarte, o Nel­son Brito, que fez o grupo fun­cionar o ano inteiro, den­tro do cal­endário cul­tur­al da cidade, no Car­naval, na Sem­ana San­ta, São João, férias, sem­ana da cri­ança, Natal. A gente sem­pre fazia um espetácu­lo nes­sas datas, sem­pre tin­ha even­tos e isso prop­i­ci­a­va man­ter a casa. Até porque não recebe­mos sub­sí­dios do gov­er­no do esta­do ou da prefeitu­ra. Aqui a gente se man­tém mes­mo com as nos­sas ativi­dades, com as nos­sas pro­duções.

Agên­cia Brasil: Fale um pouco sobre o car­naval no Lab­o­rarte.

Rosa Reis: Quan­do cheguei aqui, o pes­soal fazia muito adereço para as esco­las de sam­ba. Os artis­tas plás­ti­cos da casa trazi­am alas para faz­er adereços e tudo mais, então já tín­hamos aque­la relação com o car­naval. Mais ou menos em 1986, 1987, o grupo começou a pen­sar um espetácu­lo que trouxesse o car­naval do jeito que ele acon­te­cia na cidade, na rua. Então,vimos que esta­va muito enfraque­ci­do, prin­ci­pal­mente o de rua, de gru­pos, de brin­cadeiras. Naque­la época, tin­ha mais o car­naval de pas­sarela, que a gente ques­tion­a­va, por achar que era uma imi­tação do do Rio de Janeiro, essa coisa toda.

Na ver­dade a gente que­ria for­t­ale­cer um out­ro lado do car­naval, que era o de rua. Dos gru­pos tradi­cionais, dos blo­cos. Temos muitos blo­cos tradi­cionais na cidade, muitas tri­bos de índio. As tri­bos hoje pre­cisam de ren­o­vação, é uma man­i­fes­tação que está muito enfraque­ci­da por fal­ta de inves­ti­men­to, apoio mes­mo. Aí temos as tur­mas de sam­ba que já são bem tradi­cionais, como os Fuzileiros da Fuzarca, os tam­bores de Crioula. Tem tam­bém os brin­cantes de rua, como Cruz Dia­bo, Bar­al­ho, Urso, o Maca­co e Cachor­ro, Dom­inós,  Fofão que é um per­son­agem bem tradi­cional daqui. Isso tudo esta­va desa­pare­cen­do e alguns chegaram a desa­pare­cer,

Out­ra coisa eram os bailes na cidade, na noite de segun­da-feira: o Big­or­ril­ho, a Gru­ta do Satã, o Sar­avá. Os bailes acon­te­ci­am em casarões e as pes­soas iam mas­caradas. Eu não vivi isso muito, pois era garo­ta ain­da, mas ouvia falar dos bailes. E era isso que a gente que­ria, for­t­ale­cer esse lado, real­izan­do o Car­naval de Segun­da, chaman­do atenção para isso, chaman­do através dos espetácu­los que a gente fazia, dos tex­to. E tam­bém do envolvi­men­to políti­co den­tro da fes­ta. Troux­e­mos ques­tion­a­men­tos, como por exem­p­lo, abadá. Porque todo mun­do está usan­do abadá se a gente pode botar, cri­ar a nos­sa fan­ta­sia?

É a par­tir daí que surge o Car­naval de Segun­da, fazen­do ques­tion­a­men­tos e trazen­do para a por­ta do Lab­o­rarte. E uma das coisas de antiga­mente eram os assaltos, como eles chamavam. Os assaltos eram as vis­i­tas dos gru­pos à casa de ami­gos, de par­ceiros. Era um tro­ca, você dava uma bebi­da, uma comi­da, tin­ha toda uma relação e hoje isso prati­ca­mente acabou. Ain­da acon­te­cem em algu­mas casa, que con­vi­dam alguns gru­pos, mas hoje a difi­cul­dade é maior, pois para um grupo sair ele pre­cisa de trans­porte, cachê dos músi­cos.

Começamos tam­bém com a pro­gra­mação infan­til, que é o Baile da Chu­pe­ta, E vamos ter a Ser­penti­na, que é um tra­bal­ho feito com ami­gos. As cri­anças ficam todas apaixon­adas, depois temos o blo­co Afro Akomabu, vamos ter o Tam­bor de Crioula do mestre Felipe, o blo­co tradi­cional Os Feras, o Urso Capri­chosos, que eram brin­cadeiras que esta­va desa­pare­cen­do. A gente foi no inte­ri­or da ilha, na Mata e lá tin­ha o Urso Capri­choso, que troux­e­mos para se apre­sen­tar aqui. Esse grupo se for­t­ale­ceu, tan­to que até hoje ele per­manece vin­do aqui. Vamos ter todas essas man­i­fes­tações e o meu show que tam­bém vai acon­te­cer. Fora isso, a gente deixa sem­pre um espaço para brin­cadeiras. Mui­ta família, mui­ta cri­ança, as pes­soas mais idosas gostam de ficar aqui em cima assistin­do no casarão.

Agên­cia Brasil: Você falou de man­i­fes­tações que prati­ca­mente desa­pare­ce­r­am e uma delas foi a Cas­in­ha da Roça.

Rosa Reis: A Cas­in­ha da Roça pas­sou um perío­do sem se apre­sen­tar e, então, começamos a tam­bém traz­er para cá. Depois sur­gi­ram out­ras cas­in­has da roça, como a Tijupá, a Tapera, inspi­radas nes­sa primeira cas­in­ha tradi­cional, que era de 1940, uma coisa assim. Eu não sei como está hoje, depois da pan­demia. Tem um com­pan­heiro que fazia uma das cas­in­has, que era o Erival­do Gomes, que fale­ceu, e ele fazia a Tapera. A gente está ven­do que o Car­naval em São Luís deste ano não teve apoio.

Agên­cia Brasil: Como você está ven­do o car­naval aqui?

Rosa Reis: Eu estou achan­do muito estran­ho, esquisi­to, porque a gente tem que val­orizar nos­sas tradições. O que eu perce­bo é que está haven­do uma grande con­tratação de gru­pos de fora, de trios, axé e out­ras sonori­dades que não têm nada a ver com o car­naval e é um inves­ti­men­to muito alto. Esse inves­ti­men­to pode­ria ser volta­do para cá, para deter­mi­na­dos gru­pos que estão pre­cisan­do, como as Tri­bos de Índio, o Tam­bor de Crioula que tem muitos gru­pos na cidade. Acho que está sendo uma coisa ter­rív­el, e o gov­er­no tem que fomen­tar a cul­tura, faz­er com que a gente reforce isso e não é o que está acon­te­cen­do.

Agên­cia Brasil: Fale um pouquin­ho sobre o seu tra­bal­ho.

Rosa Reis: Eu gos­to demais, gos­to de tra­bal­har muito com o São João, gos­to mais do que o car­naval. Mas no car­naval tem sem­pre esse envolvi­men­to, sem­pre essa ale­gria, já tem muitos anos que a gente faz isso aqui e é sem­pre muito gos­toso can­tar as nos­sas march­in­has, músi­cas, tril­has, tam­bores. O São João para mim tam­bém é muito forte. Par­ticipo do Cacuriá. Tín­hamos uma grande mes­tra que é dona Teté, que se foi.

Eu can­to no Cacuriá, no show, can­tar Bum­ba-boi, Tam­bor de Crioula, Tam­bor de Mina. O envolvi­men­to é muito forte, acho que está na pele, no sangue. Para mim, meu tra­bal­ho tem um pouco de tudo isso, é o que eu gos­to de faz­er, o que eu gos­to de can­tar.

Além de cantora, é produtora e integrante dos espetáculos realizados pelo Laboratório de Expressões Artísticas
Repro­duçãol: Além de can­to­ra, é pro­du­to­ra e inte­grante dos espetácu­los real­iza­dos pelo Lab­o­ratório de Expressões Artís­ti­cas — Rosa Reis/ Acer­vo Pes­soal

Agên­cia Brasil: Como é desen­volver parce­ria com as fil­has no Lab­o­rarte? Como é a inter­ação artís­ti­ca?

Rosa Reis: As min­has meni­nas começaram aqui bem pequenin­in­has, porque a gente vin­ha para cá, eu e o Nel­son Brito, pai das meni­nas porque ele era coor­de­nador daqui. Era a pes­soa que dava o sangue pela cul­tura do Esta­do. Alguns ami­gos o chamavam de guer­ril­heiro da cul­tura pop­u­lar. A gente vin­ha para cá, ensa­iar e trazia as meni­nas e acho que elas foram absorven­do toda essa história. Des­de peque­nas começaram a dançar o Tam­bor de Crioula, o Cacuriá. Aí, quan­do adul­tas, já estavam den­tro da história. Hoje, eu ten­ho Cami­la, que can­ta, faz con­tação de histórias, escreve livros, é uma artista muito com­ple­ta. Ten­ho a Lua­na, que já tem mais a parte da dança e do teatro, e a Imi­ra, que tam­bém par­tic­i­pa dos espetácu­los, mas gos­ta mais da gestão, gos­ta mais de faz­er a pro­dução. A gente está aqui hoje pre­sente par­tic­i­pan­do de tudo. E tem o Nelsin­ho, que é da capoeira, que era sobrin­ho de Nel­son. Está des­de pequenin­in­ho aqui, se tornou mestre de capoeira e hoje geren­cia a capoeira do Lab­o­rarte. Tudo foi acon­te­cen­do espon­tanea­mente.

Edição: Maria Clau­dia

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d