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Convívio entre gerações é receita contra etarismo, aponta especialista

Entre idosos, esse tipo preconceito impacta saúde física e mental

Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 01/11/2025 — 11:50
Rio de Janeiro
Ver­são em áudio
Brasília (DF), 26/03/2025 - Varlinda Leite e seu neto, Arthur Diogo, participam do lançamento de gibi da Turma da Mônica sobre intergeracionalidade em escola no Itapoã, região administrativa do Distrito Federal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
© Marce­lo Camargo/Agência Brasil

O etaris­mo é o pre­con­ceito, a dis­crim­i­nação basea­da na idade, prin­ci­pal­mente em relação às pes­soas idosas, que se man­i­fes­ta em difer­entes con­tex­tos da vida cotid­i­ana. Isso se traduz, por exem­p­lo, no tra­bal­ho, na exclusão de profis­sion­ais mais vel­hos em proces­sos sele­tivos e na fal­ta de opor­tu­nidade de capac­i­tação. Esse tipo de situ­ação tam­bém acon­tece na saúde, quan­do profis­sion­ais desautor­izam a queixa do idoso ou a asso­ci­am sim­ples­mente a sin­tomas da idade, ale­gan­do que isso é nor­mal para a faixa etária do paciente e não deve ser val­oriza­do.

Dados do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE) indicam que a pro­porção de idosos (pes­soas com 60 anos ou mais) na pop­u­lação brasileira vem aumen­tan­doDe 2000 a 2023, esse per­centu­al quase dupli­cou, subindo de 8,7% para 15,6%. Em números abso­lu­tos, o total de idosos no país aumen­tou de 15,2 mil­hões para 33 mil­hões no perío­do.

Segun­do as Pro­jeções de Pop­u­lação do IBGE, em 2070, os idosos rep­re­sen­tarão quase 40% (37,8%) dos habi­tantes do Brasil. Serão 75,3 mil­hões de pes­soas com 60 anos ou mais de idade no país.

Brasília (DF), 31/10/2025 - Dra. Isabela Azevedo Trindade, fisioterapeuta e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG. Foto: SBGG/Divulgação
Repro­dução: Fisioter­apeu­ta Isabela Azeve­do Trindade aler­ta que o pre­con­ceito impacta a saúde físi­ca e men­tal de idosos — Foto: SBGG/Divulgação

Pres­i­dente do Depar­ta­men­to de Geron­tolo­gia da Sociedade Brasileira de Geri­a­tria e Geron­tolo­gia (SBGG), a fisioter­apeu­ta Isabela Azeve­do Trindade diz que, nos meios de comu­ni­cação, são comuns rep­re­sen­tações estereoti­padas de idosos como frágeis, depen­dentes, inca­pazes. “Na própria relação social famil­iar, [obser­vam-se] a infan­tiliza­ção, a super­pro­teção ou a descon­sid­er­ação da autono­mia da pes­soa idosa.”

Ela acres­cen­ta que, muitas vezes, a pes­soa idosa aca­ba incor­po­ran­do o pre­con­ceito, acred­i­tan­do que é sinôn­i­mo de per­da, de inca­paci­dade. “Tra­ta-se de um prob­le­ma social, que impacta a saúde físi­ca e men­tal da pes­soa. Ele favorece o iso­la­men­to social, induz ao não enga­ja­men­to em ativi­dades pro­du­ti­vas, per­pet­ua a ideia de que o envel­hec­i­men­to é algo neg­a­ti­vo. Isso é muito ruim”, apon­ta Isabela. Na visão da espe­cial­ista, com­bat­er o etaris­mo é uma for­ma de val­orizar o envel­hec­i­men­to como uma parte nat­ur­al da vida, de se con­stru­ir uma sociedade para todas as idades.

Intergeracionalidade

Para com­bat­er o etaris­mo, segun­do a espe­cial­ista, a recei­ta é pro­mover o rela­ciona­men­to interg­era­cional, val­orizan­do o con­vívio e a tro­ca entre ger­ações.

“[É pre­ciso] incluir a pau­ta do envel­hec­i­men­to nos meios de comu­ni­cação, mostran­do idosos ativos, pro­du­tivos; capac­i­tar profis­sion­ais da saúde, recon­hecer e evi­tar ati­tudes etaris­tas; fomen­tar políti­cas públi­cas que garan­tam a inclusão social e a empre­ga­bil­i­dade de pes­soas idosas, estim­u­lan­do uma mudança cul­tur­al”, enu­mera Isabela Azeve­do.

Procu­rar ter uma longev­i­dade saudáv­el tem muito a ver com a for­ma como a pes­soa vai envel­he­cer. Ela deve procu­rar faz­er ativi­dade físi­ca, ter ali­men­tação saudáv­el, sono ade­qua­do em todas as fas­es da vida, desta­ca a espe­cial­ista. “Mas tudo isso começa antes. É a pes­soa procu­rar ter um envel­hec­i­men­to saudáv­el. Tem muito a ver com essa for­ma de viv­er, como você vai pas­sar os seus anos de vida.”

Inda­ga­da por que os jovens, espe­cial­mente, acred­i­tam que a pes­soa idosa não deve mais tra­bal­har, está “mor­ta” para o amor e, inclu­sive, para o sexo, Isabela avalia que isso tem a ver com a edu­cação, que é gera­cional. “Isso é muito ruim. A gente tem que tra­bal­har isso, fomen­tan­do a relação interg­era­cional, val­orizan­do o con­vívio e a tro­ca entre ger­ações.”

Brasília (DF), 26/03/2025 - O Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa do Ministério dos Direitos Humanos, Alexandre da Silva, participa do lançamento de gibi da Turma da Mônica sobre intergeracionalidade em escola no Itapoã, região administrativa do Distrito Federal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: O secretário nacional dos Dire­itos da Pes­soa Idosa do Min­istério dos Dire­itos Humanos, Alexan­dre da Sil­va, diz que é pre­ciso ensi­nar as cri­anças sobre a importân­cia do envel­he­cer — Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Out­ro pon­to impor­tante é desmisti­ficar a ideia de que a vel­hice sig­nifi­ca o fim da vida afe­ti­va, do amor, da sex­u­al­i­dade. “A afe­tivi­dade e o dese­jo fazem parte de todas as idades. O que muda são as for­mas de expressão e as pri­or­i­dades. A gente pre­cisa dessa mudança cul­tur­al de val­orizar o envel­hec­i­men­to como parte nat­ur­al da tra­jetória humana.”

Para o secretário nacional dos Dire­itos da Pes­soa Idosa, do Min­istério dos Dire­itos Humanos e da Cidada­nia (MDHC), Alexan­dre da Sil­va, o enfrenta­men­to ao etaris­mo pas­sa pelos aspec­tos cul­tur­al e da edu­cação.

“A cri­ança que não tem essa visão pos­i­ti­va do envel­he­cer tam­bém vai falar mal do que é uma pes­soa idosa”, diz o secretário, em entre­vista à Agên­cia Brasil. “O mes­mo vai ocor­rer com o ado­les­cente e out­ras faixas etárias”, com­ple­men­ta.

História em quadrinhos

De acor­do com a Ouvi­do­ria do MDHC, as pes­soas mais jovens são as que mais vio­len­tam os idosos, mas são tam­bém as que mais podem pro­te­ger. Por isso, a sec­re­taria lançou a revista em quadrin­hos Tur­ma da Môni­ca em: Interg­era­cional­i­dade, que bus­ca esta­b­ele­cer um diál­o­go entre ger­ações, usan­do per­son­agens idosos para falar de diver­si­dade, respeito e etaris­mo.

“É uma for­ma de aprox­i­mar em que todo mun­do gan­ha”, desta­ca Sil­va. “Somos uma sociedade con­sti­tuí­da por vários povos, como os povos africanos e asiáti­cos, que têm uma cul­tura de respeito aos mais vel­hos.”

» Acesse a ver­são dig­i­tal da revista em quadrin­hos

 

Brasília (DF), 26/03/2025 - O ministério dos Direitos Humanos e Instituto Maurício de Souza lançam gibi da Turma da Mônica sobre intergeracionalidade em escola no Itapoã, região administrativa do Distrito Federal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­duçõ: Gibi da Tur­ma da Môni­ca sobre interg­era­cional­i­dade — Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil

O gibi foi lança­do em even­to numa esco­la públi­ca do Dis­tri­to Fed­er­al, em março deste ano. Par­tic­i­param do lança­men­to a pen­sion­ista Var­lin­da Lis­boa Leite, de 61 anos, e o seu neto, Arthur Digo, de 12 anos (foto prin­ci­pal), que moram jun­tos des­de que o meni­no nasceu.

Na ocasião, Var­lin­da, que tam­bém foi cri­a­da pela avó, desta­cou a importân­cia da tro­ca de exper­iên­cias com o quin­to neto, mes­mo com a difer­ença de idade de quase 40 anos. “Eu ensi­no muito o que os meus pais e min­ha avó me pas­saram. A ter respeito pelo próx­i­mo”, con­tou Var­lin­da.

A Sec­re­taria Nacional dos Dire­itos da Pes­soa Idosa desen­volve out­ras ações para essa parcela da pop­u­lação, como ini­cia­ti­vas edu­ca­cionais voltadas ao com­bate ao anal­fa­betismo.

“Nós esta­mos tam­bém crian­do uma ação jun­to ao Min­istério da Edu­cação visan­do à for­mação tec­nológ­i­ca para idosos e temos um pro­gra­ma chama­do Viva Mais Cidada­nia, que está alin­hado ao Arti­go 5º da Con­venção Inter­amer­i­cana, que fala das pes­soas que estão em situ­ações de vul­ner­a­bil­i­dade. A gente já faz isso para vários gru­pos, como quilom­bo­las, indí­ge­nas, pes­soas ribeir­in­has, refu­gia­dos, pes­soas idosas LGBTQIA+. E já começa um pouquin­ho antes dos 60 anos”, infor­ma o secretário Alexan­dre da Sil­va.

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