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Dia 13 de maio: comunicadores negros pautam abolição incompleta

Repro­dução: © Sel­ma Souza/Voz das Comunidades/Divulgação

Lei Áurea não garantiu reparação aos negros, maioria nas favelas


Pub­li­ca­do em 13/05/2023 — 11:15 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A abolição sem reparação, a liber­dade sem ren­da e a migração para cidades sem dire­ito a casas foram algu­mas das muitas forças soci­ais e históri­c­as que fiz­er­am os negros subirem os mor­ros e se tornarem maio­r­ia nas fave­las car­i­o­cas.

“São os quilom­bos mod­er­nos”, clas­si­fi­ca com assertivi­dade o jor­nal­ista Rene Sil­va, fun­dador do jor­nal Voz das Comu­nidades, exem­p­lo emblemáti­co de como a comu­ni­cação pop­u­lar e antir­racista reivin­di­ca a liber­dade que a Lei Áurea não garan­tiu à pop­u­lação negra, ape­sar de ter encer­ra­do ofi­cial­mente a escravidão, em 13 de maio 1988.

“A abolição é incon­clusa [incom­ple­ta] porque foram nega­dos a nós muitos dos nos­sos dire­itos. Fomos joga­dos na sociedade para nos virar­mos e faz­er­mos nos­so corre. E, por isso, as fave­las são ess­es espaços de resistên­cia e de potên­cia, porque é onde está a cri­ação e a ino­vação das pes­soas que foram deix­adas para trás”, diz René Sil­va.

Ele coor­de­na redações do Voz nas fave­las do Com­plexo da Alemão, Com­plexo da Pen­ha e Vidi­gal, com 80% das equipes for­madas por comu­ni­cadores pre­tos.

O pro­je­to Voz das Comu­nidades começou há 17 anos, quan­do René tin­ha ape­nas 11. Des­de então, ele foi nomea­do um dos 30 brasileiros mais influ­entes com menos de 30 anos pela Revista Forbes Brasil; foi con­sid­er­a­do um dos 100 negros mais influ­entes do mun­do pela orga­ni­za­ção Mipad, em Nova York, e rece­beu o Prêmio Mundi­al da Juven­tude durante con­fer­ên­cia em Nova Déli, na Índia. Todos ess­es prêmios recon­hecem uma mis­são que ele define em pou­cas palavras: “mostrar a real­i­dade da favela às pes­soas que moram den­tro dess­es espaços a par­tir de sua própria per­spec­ti­va”.

Rio de Janeiro (RJ) - Comunicador Rene Silva fundou o Voz das Comunidades no Complexo do Alemão.Foto: Renato Moura/Voz das Comunidades/Divulgação
Repro­dução Rio de Janeiro (RJ) — Comu­ni­cador Rene Sil­va fun­dou o Voz das Comu­nidades no Com­plexo do Alemão. Foto: Rena­to Moura/Voz das Comunidades/Divulgação

“O papel da comu­ni­cação é de man­ter as pes­soas infor­madas sobre suas próprias real­i­dades, com uma visão que não seja a mes­ma trata­da pelos grandes veícu­los de comu­ni­cação. Ain­da hoje, a maio­r­ia das pes­soas que moram nas fave­las têm aces­so prin­ci­pal às emis­so­ras de tele­visão grandes, que ain­da agem de for­ma pre­con­ceitu­osa e racista em suas pau­tas”, crit­i­ca o comu­ni­cador.

“A gente vê, ain­da hoje, grandes jor­nais e grandes veícu­los mostran­do ape­nas o trá­fi­co, mortes, tiroteios e coisas do tipo rela­cionadas às fave­las. A gente vê que essa mídia está muito ultra­pas­sa­da. No Voz das Comu­nidades, a gente entra nes­sas pau­tas, mas não são as pau­tas pri­or­itárias”.

Além de prêmios, a luta para pro­duzir a comu­ni­cação pop­u­lar de den­tro da favela ren­deu tam­bém repressão: em 2016, ele chegou a ser deti­do quan­do cobria a remoção da Favelin­ha Skol, no Com­plexo do Alemão, com o midia­tivista e fotó­grafo Rena­to Moura. “Um dos poli­ci­ais arran­cou o celu­lar da min­ha mão, e eu fui atrás. Nesse momen­to, ele me deu voz de prisão por estar des­obe­de­cen­do ordem. Nis­so, fui alge­ma­do e lev­a­do para a del­e­ga­cia”, disse Rene Sil­va ao próprio Voz das Comu­nidades após ser lib­er­a­do.

O con­trapon­to que o jor­nal comu­nitário propõe não é escon­der a vio­lên­cia, mas humanizar a abor­dagem, mostran­do quan­do a padaria para de fun­cionar com um tiroteio, quan­do o mototáxi pre­cisa inter­romper a loco­moção dos moradores e quan­do as esco­las são obri­gadas a parar as aulas.

“A gente faz uma comu­ni­cação para que as pes­soas daqui sejam comu­ni­cadas do que está acon­te­cen­do, para man­tê-las seguras den­tro das suas casas. As cri­anças que moram nas fave­las e vão às esco­las, muitas vezes, apren­dem a se pro­te­ger de tiroteios, balas per­di­das e oper­ações poli­ci­ais antes mes­mo de apren­der a ler e escr­ev­er. Nis­so tam­bém está o quilom­bo mod­er­no”, con­tex­tu­al­iza.

“Nos­so papel de comu­ni­cação, enquan­to quilom­bos que são as fave­las, é mostrar o quão potentes nós somos, quan­ta gente incrív­el existe aqui den­tro, e isso não é fal­a­do nos espaços midiáti­cos con­ven­cionais”.

O esforço de comu­ni­cadores negros como ele está viran­do o jogo e pau­tan­do a mídia hegemôni­ca, avalia Rene Sil­va, que já foi roteirista e con­sul­tor em nov­e­las e pro­gra­mas do Grupo Globo. “O que a gente via de estereótipo na mídia falan­do sobre a real­i­dade das pes­soas pre­tas no país mudou muito a par­tir de mídias comu­nitárias e inde­pen­dentes”, reflete.

“A maneira como a gente se comu­ni­ca cer­ta­mente impactou na maneira como a grande mídia vem mel­ho­ran­do. Ain­da ten­ho muitas críti­cas. Há muitos prob­le­mas, obvi­a­mente, mas acho que mel­horou muito e isso tudo tem impacta­do de for­ma pos­i­ti­va no pro­gres­so das pes­soas pre­tas”.

Movimento crescente

A coor­de­nado­ra de grad­u­ação da Esco­la de Comu­ni­cação, Mídia e Infor­mação da Fun­dação Getúlio Var­gas (ECMI/FGV), Rena­ta Tomaz, apon­ta que a pre­sença de cri­adores de con­teú­do negros nas redes soci­ais é um movi­men­to cres­cente, tan­to em quan­ti­dade de influ­en­ci­adores e comu­ni­cadores quan­to em ampli­tude de temáti­cas.

“Cer­ta­mente, ess­es con­teú­dos têm um papel impor­tante quan­do a gente fala de práti­cas antir­racis­tas no debate públi­co, mas eu diria que eles vão além”, avalia a pesquisado­ra. “Para além de falar de raça e de racis­mo, essas pes­soas estão ali para falar do que elas con­hecem. Elas dom­i­nam con­hec­i­men­tos e têm exper­iên­cias vál­i­das e pro­du­ti­vas que elas podem e querem com­par­til­har. É cres­cente tam­bém esse movi­men­to de pro­du­tores de con­teú­do negros e negras pro­moven­do essa sub­je­tivi­dade negra em difer­entes setores, camadas e temáti­cas”.

Obser­var o esforço de seus famil­iares para super­ar situ­ações de escassez e garan­tir um futuro mais sóli­do para a sua ger­ação aju­dou a baiana Aman­da Dias a enten­der que a ances­tral­i­dade tem muitas lições finan­ceiras que não estão no dis­cur­so hegemôni­co dos influ­en­ci­adores de finanças. Somadas à vivên­cia no can­domblé e ao estu­do da história pre­ta brasileira, as lições apren­di­das fiz­er­am a comu­ni­cado­ra de Sal­vador perce­ber que tin­ha muito a com­par­til­har com out­ras pes­soas que, como ela, não se iden­ti­fi­cam com histórias de enriquec­i­men­to de home­ns bran­cos de out­ros con­ti­nentes. Foi assim que ela fun­dou o Grana Pre­ta, uma pági­na de con­teú­do em que pau­ta reflexões sobre eman­ci­pação e pros­peri­dade, algo que nada tem a ver com o acú­mu­lo de din­heiro.

“A maio­r­ia dos influ­en­ci­adores de finanças têm como mote enrique­cer, tornar pes­soas ric­as. E, quan­do a gente olha para a riqueza no nos­so país, ela vem muito do acú­mu­lo, muitas vezes de um acú­mu­lo que teve origem no proces­so de escravidão”, con­tex­tu­al­iza.

“Quan­do tra­go a pros­peri­dade, é algo que não está lig­a­do ao acú­mu­lo, e, sim, ao bem estar, ao bem viv­er. Sair da lóg­i­ca da sobre­vivên­cia para entrar na lóg­i­ca da vida, de ter um plano de vida. Às vezes, eu não quero me aposen­tar aos 30 anos, eu quero parar de tra­bal­har em um emprego que me explo­ra e me tra­ta mal e abrir meu próprio negó­cio, ser meu próprio chefe e ter flex­i­bil­i­dade de horário. Não é ficar falan­do pra pes­soa de como faz­er seu primeiro mil­hão, quan­do, às vezes, ela quer tra­bal­har de for­ma mais tran­quila, e não entrar nes­sa com­pet­i­tivi­dade voraz e perder saúde nes­sa lóg­i­ca de enriquec­i­men­to por meio do acú­mu­lo”.

Filosofia Iorubá

A pros­peri­dade pro­pos­ta por Aman­da Dias no Grana Pre­ta tem como base a filosofia iorubá, e ela acred­i­ta que pau­tar finanças pes­soais por esse ângu­lo é tam­bém con­tes­tar a lóg­i­ca impos­ta pelos col­o­nizadores europeus e out­ras elites bran­cas que vier­am depois. O res­gate que ela ten­ta comu­nicar inclui olhar exem­p­los como o das gan­hadeiras da Bahia, mul­heres pre­tas escrav­izadas que, de pouco em pouco, con­seguiam jun­tar din­heiro para com­prar suas alfor­rias.

Rio de Janeiro (RJ) - Amanda Dias dá dicas de finanças pessoais com o Grana PretaFoto: Taciana Pereira/Divulgação
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ) — Aman­da Dias dá dicas de finanças pes­soais com o Grana Pre­ta — Foto: Taciana Pereira/Divulgação

“Não foi só o col­o­nizador, não foram só os europeus que desen­volver­am filosofia e con­hec­i­men­to sobre din­heiro e finanças. O povo pre­to tam­bém desen­volveu, a par­tir da sua visão de mun­do”, pon­dera. “Eu pre­ciso divul­gar, porque eu gostaria de ter rece­bido esse con­hec­i­men­to quan­do eu era mais nova. Na esco­la, por exem­p­lo. Será que a min­ha relação com o din­heiro não teria sido muito difer­ente se, des­de o meu ensi­no fun­da­men­tal, eu soubesse quem foram as gan­hadeiras? Se eu soubesse quem foram as irman­dades e as con­frarias de mul­heres negras que jun­tavam joias e din­heiro? Se eu con­hecesse esse lado, essa potên­cia da min­ha história, será que eu tam­bém não pode­ria con­stru­ir uma autoes­ti­ma e uma relação com o din­heiro muito mel­hor?”

Pro­duzir con­teú­do de for­ma difer­ente da maio­r­ia dos influ­en­ci­adores de finanças tam­bém per­mite ques­tionar o dis­cur­so recor­rente no meio de que a pobreza é cul­pa dos próprios pobres. Aman­da bus­ca faz­er um ajuste fino que tam­bém não pode tirar do indi­ví­duo a respon­s­abil­i­dade e a potên­cia de ten­tar mudar sua real­i­dade. A influ­en­ci­ado­ra con­ta que, em vez de prom­e­ter o primeiro mil­hão em cin­co pas­sos, ela propõe que, se você se orga­ni­zar hoje, você con­segue ampli­ar a lin­ha de larga­da para o seu fil­ho, dan­do a ele uma base mais sól­i­da para con­stru­ir sua jor­na­da. Para ela, essa per­spec­ti­va que­bra a ansiedade ger­a­da pelas redes soci­ais por obje­tivos como se aposen­tar com 30 anos, algo inat­ingív­el para a grande maio­r­ia.

“Quan­do um influ­en­ci­ador de finanças trans­fere toda a cul­pa para o indi­ví­duo, além de ser um dis­cur­so raso e muito fácil de faz­er, ele não tem com­pro­mis­so de mudar a vida daque­la pes­soa. Que tipo de mudança a gente pro­move na vida dessa pes­soa se ela não con­segue refle­tir tam­bém que o meio que ela vive tem impacto sobre a for­ma com que ela lida com din­heiro?”, ques­tiona a influ­en­ci­ado­ra, que afir­ma que esse dis­cur­so hegemôni­co tam­bém vem de um lugar de priv­ilé­gio.

“Tem muito influ­en­ci­ador que pas­sa uma visão de que não é van­ta­joso você com­prar um imóv­el. Esse é um proces­so que igno­ra com­ple­ta­mente a real­i­dade da maio­r­ia da pop­u­lação que não teve aces­so à casa própria, cujos pais não tiver­am uma casa própria, e que pode ser a primeira ger­ação a adquirir um imóv­el para chamar de seu. Isso vai muito além da matemáti­ca bási­ca, envolve son­hos, envolve vivên­cia das pes­soas. Ter uma casa própria é a garan­tia, por exem­p­lo, de que, em um momen­to de crise finan­ceira, você não vai pre­cis­ar morar na rua”.

Foca­da no bem viv­er e em uma vida que vai além das neces­si­dades bási­cas e per­mite o aces­so às diver­sas for­mas de laz­er, cul­tura e liber­dade, a pro­moção da pros­peri­dade que Aman­da pre­ga é a própria abolição con­cluí­da, ain­da dis­tante da maio­r­ia da pop­u­lação negra, avalia a influ­en­ci­ado­ra.

“Essa abolição foi incom­ple­ta porque, até hoje, a maio­r­ia da pop­u­lação negra com­pete muito por coisas que são bási­cas, como mora­dias, saúde, edu­cação e emprego. O que é um obje­ti­vo para uma pes­soa bran­ca e rica, um obje­ti­vo finan­ceiro, para a pes­soa pobre é quase inat­ingív­el. Então, ela tem obje­tivos mais real­is­tas. Às vezes, a pes­soa quer se orga­ni­zar para faz­er uma viagem, para con­seguir ter uma reser­va para não se pre­ocu­par se vai fal­tar din­heiro no final do mês. Às vezes, o obje­ti­vo da pes­soa é con­seguir esse bem estar que dev­e­ria estar disponív­el para todo mun­do, mas infe­liz­mente não está. Toda a orga­ni­za­ção finan­ceira da pes­soa vai para garan­tir o bási­co, sendo que, se fos­se difer­ente, ela pode­ria com essa orga­ni­za­ção finan­ceira realizar son­hos”.

Algoritmos racistas

Jor­nal­ista e fun­dado­ra da revista Bre­jeiras, volta­da para mul­heres lés­bi­cas, Cami­la Marins con­ta que a atu­ação de comu­ni­cadores negros ampliou a cir­cu­lação de nar­ra­ti­vas pos­i­ti­vas sobre essas pop­u­lações e pres­siona os meios de comu­ni­cação a pautarem o antir­racis­mo e tam­bém a con­tratarem pes­soas negras para seus quadros de tra­bal­hadores. Por out­ro lado, ela defende que as redes soci­ais, mes­mo sendo instru­men­tos dessa mobi­liza­ção, têm algo­rit­mos racis­tas que expõem a pop­u­lação negra ao dis­cur­so de ódio.

“É um desafio muito grande faz­er com que a pop­u­lação negra este­ja na inter­net sem sofr­er nar­ra­ti­va de ódio e aces­so a desin­for­mação, e que os algo­rit­mos façam com que a comu­ni­cação negra chegue ao maior número de pes­soas”, afir­ma.

Cami­la Marins e out­ras três jor­nal­is­tas fun­daram a revista Bre­jeiras em 2018 diante de um cenário de apaga­men­to e fetichiza­ção de mul­heres lés­bi­cas na mídia. O quadro, que já era difí­cil, se agravou com o assas­si­na­to da vereado­ra Marielle Fran­co no mes­mo ano, com a cam­pan­ha e eleição da extrema dire­i­ta à Presidên­cia da Repúbli­ca no ano seguinte, e com a pan­demia de covid-19 a par­tir de 2020.

“Com o assas­si­na­to, a gente adiou o lança­men­to, porque foi um trau­ma cole­ti­vo, e fize­mos mês depois. Fize­mos qua­tro edições da Bre­jeiras, rodamos o país e até fora, na Ale­man­ha, uti­lizan­do essa comu­ni­cação impres­sa como uma for­ma de mobi­liza­ção da luta e de orga­ni­za­ção cole­ti­va, para for­t­ale­cer o movi­men­to social e as nos­sas pau­tas lés­bi­cas. E, aí, vem o gov­er­no Bol­sonaro. É mais um baque muito forte, porque apro­fun­da a difi­cul­dade de finan­cia­men­to, e o aumen­to dos empre­gos precários difi­cul­tam muito a nos­sa situ­ação, não só como Bre­jeiras, mas como pop­u­lação. E a pan­demia foi um momen­to de luto nacional e inter­na­cional, lidan­do com o iso­la­men­to tam­bém. Não con­seguimos faz­er a Bre­jeiras nesse momen­to”, lem­bra ela.

Com as mudanças na políti­ca nacional e a mel­ho­ra do cenário epi­demi­ológi­co, o grupo prepara a vol­ta da revista impres­sa. O pro­je­to con­tin­u­ou de for­ma inin­ter­rup­ta na inter­net des­de a sua fun­dação, e voltará ao impres­so com uma edição que con­tará com a par­tic­i­pação das leitoras, rela­tan­do sua sobre­vivên­cia à pan­demia de covid-19. A revista pre­tende dis­putar o sig­nifi­ca­do de “sap­atão pre­ta” como pos­i­ti­vo, enfrentan­do dis­cur­sos de fetichiza­ção e crim­i­nal­iza­ção dessas mul­heres.

“Na Bre­jeiras, a gente tem uma políti­ca fem­i­nista e antir­racista que a gente bota em práti­ca com a maio­r­ia de mul­heres negras sendo entre­vis­tadas, com suas ima­gens impres­sas. Nas revis­tas, a gente sem­pre vê nas fotos uma maio­r­ia de mul­heres bran­cas, com aque­le padrão de cor­po magro. Então, a gente traz out­ros for­matos de estéti­ca e de éti­ca”, defende. “A gente con­tribui para dis­putar um dis­cur­so de pen­sar que, se a coisa tá pre­ta, é porque ela tá boa. E pen­sar que a estéti­ca negra tem beleza, é boni­ta, tem vida, que não está só asso­ci­a­da a morte, desem­prego, servidão, escrav­iza­ção e col­o­niza­ção pelos quais pas­samos. O dis­cur­so antir­racista é para ultra­pas­sar esse dis­cur­so colo­nial, racista e vio­len­to pelo qual mul­heres negras pas­sam todos os dias, tan­to nas ruas quan­to nos meios de comu­ni­cação”.

Fomento à comunicação

A própria história sobre o fim da escravidão, ressalta Cami­la, é obje­to de dis­pu­ta da comu­ni­cação antir­racista neste momen­to, para o res­gate da luta da pop­u­lação negra con­tra o sis­tema escrav­ista e por liber­dade, con­tra um sen­so comum de que ela veio “das mãos da prince­sa Isabel”, que assi­nou a Lei Áurea. Nesse con­tex­to, ela defende o for­t­alec­i­men­to e a garan­tia de orça­men­to para o ensi­no da história afro-brasileira nas esco­las, a reser­va de faixas de pro­gra­mação nos veícu­los de comu­ni­cação para pau­tas negras e a cri­ação de edi­tais de fomen­to para impul­sion­ar comu­ni­cadores negros e comu­nitários.

“A gente pre­cisa de uma lei de fomen­to à comu­ni­cação negra no Brasil, que garan­ta faixas de con­teú­do da pau­ta negra na comu­ni­cação públi­ca, pri­va­da e nas redes soci­ais. A gente pre­cisa impul­sion­ar e fomen­tar cada vez mais para que ess­es comu­ni­cadores cheguem a mais pes­soas. Eles estão espal­han­do infor­mação e letra­men­to racial na inter­net e fazen­do um tra­bal­ho muito impor­tante de dis­pu­ta de nar­ra­ti­vas, mas não dá para a gente roman­ti­zar a pre­cariedade e a fal­ta de finan­cia­men­to. A gente pre­cisa de fomen­to do Esta­do”.

Com a trans­for­mação pro­pos­ta pelos comu­ni­cadores negros já em cir­cu­lação na inter­net, Cami­la Marins con­vi­da mais jovens negros, e prin­ci­pal­mente mul­heres negras, a pro­duzirem con­teú­do sobre suas real­i­dades, a falarem de todos os temas e a demar­carem seu lugar como maio­r­ia da pop­u­lação.

“Comu­ni­cação é um dire­ito humano, por­tan­to se apro­priem da comu­ni­cação pop­u­lar, alter­na­ti­va, e se apro­priem para faz­er mui­ta comu­ni­cação a par­tir da sua visão de mun­do, daqui­lo que está ali no seu ter­ritório, no seu local de tra­bal­ho, na sua casa, no que está acon­te­cen­do ao seu redor. Fala do bura­co da rua. Fala do postin­ho que tá sem médi­co. Fala da sua casa, fala da fal­ta de comi­da, fala sobre amor. A gente tam­bém pode falar de beleza. A gente pode falar de estéti­ca, a gente pode falar de tan­ta coisa boni­ta. Façam comu­ni­cação, a comu­ni­cação é instru­men­to poderoso de trans­for­mação da sociedade, de trans­for­mação desse pro­je­to de Brasil que a gente quer, jus­to, solidário e para todas as pes­soas, pen­san­do prin­ci­pal­mente a maio­r­ia dessa pop­u­lação, as mul­heres negras”.

Edição: Kel­ly Oliveira

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