...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Saúde / Janeiro Roxo alerta para a conscientização sobre a hanseníase

Janeiro Roxo alerta para a conscientização sobre a hanseníase

Repro­dução: © SMS de Mesquita/RJ

A doença tem cura e o tratamento é gratuito pelo SUS


Pub­li­ca­do em 08/01/2022 — 10:21 Por Mari­eta Cazarre — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

O Dia Mundi­al de Com­bate e Pre­venção da Hanseníase é cel­e­bra­do sem­pre no últi­mo domin­go do mês de janeiro. Neste ano, a data cai no dia 30 e o tema da cam­pan­ha é “Pre­cisamos falar sobre hanseníase”. A data é sím­bo­lo do Janeiro Roxo e visa chamar a atenção das pes­soas para a doença, que tem trata­men­to e cura. O pre­con­ceito ain­da é um dos grandes desafios no com­bate à hanseníase.

A hanseníase é uma doença infec­ciosa cau­sa­da pela bac­téria Mycobac­teri­um Lep­rae, tam­bém con­heci­da como baci­lo de Hansen (em hom­e­nagem à Ger­hard Hansen, o médi­co e bac­te­ri­ol­o­gista norueguês desco­bri­dor da doença, em 1873). O baci­lo se repro­duz lenta­mente e o perío­do médio de incubação e aparec­i­men­to dos sinais da doença é de aprox­i­mada­mente cin­co anos, de acor­do com infor­mações da Orga­ni­za­ção Pan-Amer­i­cana da Saúde (Opas).

Os sin­tomas ini­ci­ais são man­chas na pele, resul­tan­do em lesões e per­da de sen­si­bil­i­dade na área afe­ta­da. Tam­bém pode acon­te­cer fraque­za mus­cu­lar e sen­sação de formiga­men­to nas mãos e nos pés. Quan­do os casos não são trata­dos no iní­cio dos sinais, a doença pode causar seque­las pro­gres­si­vas e per­ma­nentes, incluin­do deformi­dades e muti­lações, redução da mobil­i­dade dos mem­bros e até cegueira.

Para Artur Custó­dio, coor­de­nador Nacional do Movi­men­to de Rein­te­gração das Pes­soas Atingi­das pela Hanseníase (Morhan), os desafios no com­bate à doença são muitos. “A gente tem prob­le­mas de diag­nós­ti­co pre­coce da hanseníase, ou seja, os profis­sion­ais de saúde não estão con­seguin­do iden­ti­ficar a doença no iní­cio. Out­ro prob­le­ma grave, que ocor­reu no ano retrasa­do, foi a fal­ta de medica­men­tos. A gente pre­cisa ter a fab­ri­cação dess­es medica­men­tos no país para não ficar vul­neráv­el a qual­quer prob­le­ma exter­no. Tam­bém pre­cisamos ter pesquisa para novos fár­ma­cos para a hanseníase, assim como para testes novos para o diag­nós­ti­co pre­coce. Tam­bém temos o prob­le­ma das seque­las da doença. Então neces­si­ta­mos de um sis­tema de reabil­i­tação que aceite as pes­soas, que não ten­ha pre­con­ceito, que pos­sa cumprir com o papel de reabil­i­tar aque­les que ficaram com algu­ma sequela da hanseníase. E por últi­mo, temos que enfrentar o estig­ma da doença. O estig­ma é subes­ti­ma­do, ele está aí, ele é estru­tur­al e gera uma série de prob­le­mas, inclu­sive do pon­to de vista insti­tu­cional”.

De acor­do com a Sociedade Brasileira de Der­ma­tolo­gia (SBD), cer­ca de 30 mil novos casos da doença são detec­ta­dos todos os anos no Brasil. No mun­do, cer­ca de 210 mil novos casos são repor­ta­dos anual­mente, dos quais, 15 mil são de cri­anças. Segun­do a Opas, a hanseníase é encon­tra­da em 127 país­es, com 80% dos casos na Índia, Brasil e Indonésia (dados de 2018).

San­dra Durães, coor­de­nado­ra do Depar­ta­men­to de Hanseníase da SBD, a hanseníase está clas­si­fi­ca­da entre as doenças ditas neg­li­gen­ci­adas, que atingem as pop­u­lações com baixo Índice de Desen­volvi­men­to Humano (IDH). “O Brasil, ape­sar de estar entre as grandes econo­mias mundi­ais, apre­sen­ta  grande desigual­dade social. Nas per­ife­rias de suas metrópoles exis­tem grandes bol­sões de pobreza”, expli­ca.

Ela ressalta ain­da que a maio­r­ia da pop­u­lação é resistente à hanseníase, mas há um pequeno per­centu­al de pes­soas que são suscetíveis à doença. “Nes­sas pes­soas, a doença varia muito con­forme a resistên­cia que elas apre­sen­tam à doença. Temos dois tipos bási­cos de pacientes, aque­les com uma óti­ma resistên­cia e que apre­sen­tam pou­cas lesões na pele, poucos ner­vos per­iféri­cos acometi­dos e peque­na car­ga bacilar. Por out­ro lado, temos pacientes que apre­sen­tam grande car­ga bacilar, grande número de lesões cutâneas e grande número de ner­vos per­iféri­cos acometi­dos. O trata­men­to dess­es pacientes é difer­ente. Os que apre­sen­tam pou­cas lesões fazem trata­men­to com admin­is­tração de antibióti­cos por seis meses. Os pacientes com grande car­ga bacilar fazem trata­men­to por 12 meses. O trata­men­to é feito no pos­to de saúde onde o paciente, uma vez por mês, toma uma med­icação, e as out­ras med­icações são tomadas em casa”.

Transmissão

A hanseníase é trans­mis­sív­el pelo ar, prin­ci­pal­mente em situ­ações de con­ta­to próx­i­mo. A maio­r­ia da pop­u­lação tem defe­sas nat­u­rais con­tra a bac­téria, mas cer­ca de 10% da pop­u­lação não têm ess­es mecan­is­mos de pro­teção e podem adoe­cer.

Assim que o trata­men­to com antibióti­cos é ini­ci­a­do a doença deixa de ser trans­mis­sív­el, por isso é impor­tante diag­nos­ticá-la logo no iní­cio dos sinais. No entan­to, o trata­men­to com antibióti­cos não reverte danos neu­rais e seque­las cau­sadas pelo diag­nós­ti­co tar­dio. Caso haja um resul­ta­do pos­i­ti­vo, as pes­soas que têm inten­so con­vívio com o infec­ta­do tam­bém devem procu­rar o sis­tema de saúde.

A estraté­gia da Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS), inti­t­u­la­da Rumo à Zero Hanseníase, se con­cen­tra na redução da detecção de novos casos, inca­paci­dades físi­cas (espe­cial­mente entre cri­anças) e estig­ma e dis­crim­i­nação. Até a déca­da de 1970, no Brasil, os por­ta­dores da doença eram excluí­dos do con­vívio social e lev­a­dos para o con­fi­na­men­to em colô­nias.

“No pas­sa­do, a gente tin­ha uma políti­ca de seg­re­gação, higien­ista, de limpeza do Esta­do brasileiro, em que vin­ha a polí­cia san­itária, cap­tura­va a pes­soa e lev­a­va para uma colô­nia de iso­la­men­to. Essa práti­ca, ape­sar da descober­ta da cura na déca­da de 40, per­sis­tiu no Brasil ofi­cial­mente até 1976 e, na práti­ca, tive­mos episó­dios até 1986. A cri­ação da Lei 11.520/2007, que esta­b­ele­ceu ind­eniza­ção, pelo crime de Esta­do, àque­las pes­soas que foram seg­re­gadas. E a gente luta para ter o recon­hec­i­men­to dos fil­hos que foram tira­dos dos pais na época da seg­re­gação. Existe um pro­je­to de lei nesse sen­ti­do, que infe­liz­mente foi tira­do da pau­ta na últi­ma votação do ano. Então é impor­tante que ele volte para a pau­ta na Comis­são de Con­sti­tu­ição, Justiça e Cidada­nia (CCJ) e saia da CCJ da Câmara e vá para o Sena­do”, expli­ca Custó­dio.

Ain­da de acor­do com o coor­de­nador Nacional do Morhan, “o Brasil é um dos país­es que acabou com todas as leis dis­crim­i­natórias na déca­da de 1990, e que avançou para a cri­ação de reparação”.

“O Brasil já ind­eni­zou cer­ca de 10 mil pes­soas até hoje”, acres­cen­tou.

Para San­dra Durães, o esclarec­i­men­to da pop­u­lação é fun­da­men­tal, “para que ela este­ja ciente, con­heça os sinais e sin­tomas da doença, pos­sa procu­rar assistên­cia médi­ca o mais pre­co­ce­mente pos­sív­el e para que o diag­nós­ti­co e o trata­men­to sejam pre­co­ces, evi­tan­do assim o dano neu­rológi­co e a inca­paci­dade do paciente. E, ain­da, con­tribuir para a diminuição do estig­ma que existe em relação à doença, que é infec­ciosa e poten­cial­mente curáv­el”.

Edição: Fer­nan­do Fra­ga

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Saúde pública no RJ registra aumento nos atendimentos ligados ao calor

Dor de cabeça, náusea e tontura estão entre os possíveis sinais Ana Cristi­na Cam­pos — …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d