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“Agir salva vidas” é tema de campanha para reduzir índices de suicídio

Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Setembro Amarelo é iniciativa da ABP e do Conselho Federal de Medicina


Pub­li­ca­do em 01/09/2021 — 08:00 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Pelo oita­vo ano con­sec­u­ti­vo, a Asso­ci­ação Brasileira de Psiquia­tria (ABP) pro­move, em parce­ria com o Con­sel­ho Fed­er­al de Med­i­c­i­na (CFM), a cam­pan­ha Setem­bro Amare­lo, cujo tema este ano é “Agir sal­va vidas”. A ação foi ini­ci­a­da no Brasil em 2014 e visa a reduzir os índices de suicí­dio. A ini­cia­ti­va se estende por todo o mês de setem­bro, ten­do como data prin­ci­pal o dia 10 deste mês, quan­do se comem­o­ra o Dia Mundi­al de Pre­venção ao Suicí­dio.

O pres­i­dente da ABP, Anto­nio Ger­al­do da Sil­va, disse à Agên­cia Brasil que o tema foi escol­hi­do porque tra­ta de for­ma dire­ta a questão mais impor­tante da cam­pan­ha, que é agir pode sal­var vidas. “Ao aju­dar com ação efe­ti­va de bus­car assistên­cia médi­ca, você pode faz­er a difer­ença na vida de quem está sofren­do com ideação sui­ci­da”, afir­mou o espe­cial­ista. Segun­do ele, o suicí­dio é um tema que sofre com o pre­con­ceito. “Ain­da existe muito tabu e só com infor­mação cor­re­ta con­seguimos con­sci­en­ti­zar as pes­soas de que o suicí­dio pode ser evi­ta­do. Pre­cisamos infor­mar a todos como aju­dar, porque agir sal­va vidas”, reit­er­ou.

O relatório Sui­cide World­wide in 2019, pub­li­ca­do pela Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS) em 2019, rev­el­ou que naque­le ano mais de 700 mil pes­soas mor­reram por suicí­dio, o que rep­re­sen­ta uma a cada 100 mortes. No Brasil, são aprox­i­mada­mente 13 mil pes­soas por ano. Anto­nio Ger­al­do da Sil­va disse que, em ger­al, no mun­do, o número de mortes por suicí­dio caiu mas, nas Améri­c­as, a taxa subiu 17%. Por isso, cam­pan­has como o Setem­bro Amare­lo são tão impor­tantes.

De acor­do com a ABP, a maio­r­ia dos suicí­dios está rela­ciona­da a dis­túr­bios men­tais. “Nós sabe­mos que cer­ca de 98% dos casos de suicí­dio estão rela­ciona­dos a transtornos men­tais. Em primeiro lugar está a depressão, segui­da do transtorno bipo­lar e abu­so de sub­stân­cias.”

Prevenção

O pres­i­dente da ABP afir­mou que é pos­sív­el pre­venir o suicí­dio. Exis­tem muitos sinais que aler­tam para a pos­si­bil­i­dade de ten­ta­ti­va de suicí­dio por parte de uma pes­soa como, por exem­p­lo, ficar mais reclu­so, falar muito sobre sumir, não ter mais esper­ança, mudar o com­por­ta­men­to repenti­na­mente.

“O mais impor­tante é diz­er às pes­soas que não duvi­dem de quem ameaça come­ter suicí­dio. Cos­tu­mo diz­er que, nesse caso, o cão que ladra, morde. Não podemos arriscar; a pes­soa está sofren­do, por isso dize­mos que agir sal­va vidas, no sen­ti­do de encam­in­har para um serviço de saúde, um médi­co psiquia­tra, mar­car a con­sul­ta e ir jun­to, não deixar a pes­soa soz­in­ha, faz­er com que ela sin­ta que você está ao lado dela”. O médi­co desta­cou tam­bém que se deve ter em mente que a doença men­tal é como o dia­betes, a hiperten­são. Ela tem trata­men­to, tem con­t­role, e a pes­soa pode voltar a ter qual­i­dade de vida. Ess­es são os cam­in­hos para evi­tar o suicí­dio, afir­mou.

Segun­do o pres­i­dente da ABP, ain­da não há dados que mostrem se a pan­demia de covid-19 aumen­tou o número de suicí­dios. Ele lem­brou, entre­tan­to, que des­de março de 2020 vem aler­tan­do as autori­dades sobre a quar­ta onda da covid, que é a das doenças men­tais. A esse respeito, a ABP tra­bal­ha com três cenários, que incluem o desen­volvi­men­to de doença men­tal em quem nun­ca apre­sen­tou sin­toma, retorno dos pacientes aos atendi­men­tos psiquiátri­cos após recidi­va de sin­tomas que já estavam em remis­são e agrava­men­to dos quadros psiquiátri­cos de quem ain­da esta­va em trata­men­to.

Substâncias químicas

O pro­fes­sor de pós-grad­u­ação em psiquia­tria da Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca do Rio de Janeiro (PUC Rio) Jorge Anto­nio Jaber Fil­ho disse que um quar­to dos suicí­dios acon­tece em usuários de sub­stân­cias quími­cas. “O sim­ples fato de uma pes­soa faz­er uso de dro­gas já a colo­ca no grupo de risco”, adver­tiu. Isso sig­nifi­ca que de cada qua­tro pes­soas que usam dro­gas, uma con­seguirá se matar. “A estatís­ti­ca mostra que de cada 100 pes­soas, 17 já pen­saram em suicí­dio, três ten­taram e uma aca­ba numa emergên­cia hos­pi­ta­lar. É um fato que deve ser lev­a­do em con­sid­er­ação: que as sub­stân­cias quími­cas, álcool inclu­sive, macon­ha, cocaí­na, ecsta­sy’, LSD, anab­o­lizantes e cafeíni­cos (bebidas com alto teor de cafeí­na) estão rela­ciona­dos entre as dro­gas que causam  maior pos­si­bil­i­dade de uma pes­soa se sui­ci­dar”.

Jaber Fil­ho afir­mou que o fator que mais pre­dis­põe ao suicí­dio é a depressão. Cer­ca de um terço dos suicí­dios no Brasil ocorre em pes­soas que sofrem de depressão e um quar­to das pes­soas que ten­ta o suicí­dio usou dro­gas. Tra­bal­ho real­iza­do den­tro de um serviço psiquiátri­co em 2019 mostrou que um quar­to dos pacientes inter­na­dos havia ten­ta­do o suicí­dio e foi trans­feri­do de hos­pi­tais de emergên­cia médi­ca, geral­mente da rede públi­ca.

Alterações

O psiquia­tra expli­cou que o fato de uma pes­soa usar sub­stân­cias quími­cas provo­ca, com fre­quên­cia, alter­ações nos seus sen­ti­men­tos, geran­do ansiedade e mui­ta tris­teza, geral­mente após a ces­sação do efeito das dro­gas. “Essas pes­soas tam­bém têm alter­ações do pen­sa­men­to. Ou seja, a pes­soa que usa dro­gas tem um pen­sa­men­to às vezes muito eufóri­co, acred­i­ta que tudo vai dar cer­to. Mas, pas­sa­do o efeito, tem um pen­sa­men­to muito lig­a­do à ruí­na pes­soal, à per­cepção de que sua vida não está indo bem, de que nada dá cer­to com ela. Geral­mente, as pes­soas atribuem esse pen­sa­men­to de ruí­na às condições exter­nas políti­cas, econômi­cas e soci­ais que, real­mente, têm algu­ma importân­cia, mas que são deter­mi­nantes para ten­ta­ti­vas de suicí­dio em pacientes que usam dro­gas”. Quem não usa dro­gas tem menos chance de procu­rar o suicí­dio em condições soci­ais adver­sas, argu­men­tou.

Para Jorge Jaber Fil­ho, usuários de dro­gas têm maior tendên­cia de abusar dess­es pro­du­tos em momen­tos difí­ceis da vida”. Mas se aban­donarem o uso das dro­gas, sairão desse grupo. Já os depen­dentes quími­cos, em ger­al, não têm cura, mas têm aces­so a trata­men­tos médi­cos e a gru­pos de mútua aju­da que revertem essa pos­si­bil­i­dade, aju­dan­do-os a ficarem em abstinên­cia. “É pos­sív­el, sim, haver recu­per­ação”. Expli­cou que o depen­dente quími­co é um usuário de sub­stân­cia quími­ca que perdeu o con­t­role de sua vida sob o efeito da dro­ga. Já o usuário pode não ter qual­quer prob­le­ma com o uso da dro­ga, mas em algum momen­to — a per­da de um grande amor, de uma pes­soa queri­da — pre­dis­põe ao abu­so da sub­stân­cia naque­le perío­do. E se a pes­soa con­tin­uar com um sofri­men­to muito grande, pode ten­tar o suicí­dio tam­bém.

Lesões

Não só o suicí­dio, mas os casos de lesões auto­provo­cadas têm sido uma pre­ocu­pação con­stante na Sec­re­taria Nacional dos Dire­itos da Cri­ança e do Ado­les­cente, do Min­istério da Mul­her, da Família e dos Dire­itos Humanos (MMFDH). O secretário Mau­rí­cio Cun­ha disse, em áudio, à Agên­cia Brasil que o órgão acom­pan­ha com atenção os dados do Min­istério da Saúde sobre essas questões des­de 2010, por meio do Sis­tema de infor­mação de Agravos de Noti­fi­cação (Sinan).

Lem­brou que, em 2019, foi aprova­da a Lei 13.819/2019, que insti­tu­iu a Políti­ca Nacional de Pre­venção da Auto­mu­ti­lação e do Suicí­dio. Os casos que envolvem cri­anças e ado­les­centes pas­saram a ser de noti­fi­cação com­pul­sória, inclu­sive ao Con­sel­ho Tute­lar. “A gente sabe que o suicí­dio, em qual­quer faixa etária, é moti­vo de grande alarme. Mas é bem mais pre­ocu­pante obser­var essa tendên­cia de aumen­to em cri­anças e ado­les­centes. E é com o obje­ti­vo de pre­venir e reduzir ess­es números que a cam­pan­ha Setem­bro Amare­lo vai mobi­lizar o Brasil inteiro”.

Mau­rí­cio Cun­ha lem­brou que, este ano, há uma nova cir­cun­stân­cia desafi­ado­ra que é o con­tex­to da pan­demia. O iso­la­men­to social lev­ou um ele­va­do número de pes­soas a desen­volver prob­le­mas emo­cionais, incluin­do aí depressão, colo­can­do cri­anças e ado­les­centes mais suscetíveis para esse tipo de vio­lên­cia auto­provo­ca­da. “Inclu­sive, em muitos casos, ela aca­ba fican­do à mer­cê de abu­sadores e vio­ladores de dire­itos nas suas próprias casas”. Por isso, o secretário avaliou ser pos­sív­el que haja aumen­to grande do número de casos de auto­mu­ti­lação, de ten­ta­ti­vas de suicí­dio e até da con­sumação do suicí­dio, “infe­liz­mente”, durante a pan­demia.

Para pre­venir e evi­tar esse quadro, ele defend­eu a neces­si­dade de que toda a sociedade, esco­las, unidades de saúde, este­jam aler­tas e preparadas para recon­hecer sinais e tomar as dev­i­das providên­cias com rapi­dez e segu­rança. O secretário comen­tou que a iden­ti­fi­cação de transtornos men­tais e seu trata­men­to são matérias de com­petên­cia do Min­istério da Saúde, mas a Políti­ca de Atendi­men­to à Cri­ança e Ado­les­cente é inter­dis­ci­pli­nar e mul­ti­s­se­to­r­i­al, envol­ven­do vários órgãos: a sociedade civ­il que, jun­to com o gov­er­no, desen­volve ações de acol­hi­men­to, escu­ta e apoio a cri­anças, ado­les­centes e suas famílias no que diz respeito a lesões auto­provo­cadas e ideação sui­ci­da.

A sec­re­taria tem apoia­do a cam­pan­ha Acol­ha a Vida e a Sem­ana de Val­oriza­ção da Vida, pre­vista para a últi­ma sem­ana de setem­bro. Serão real­izadas trans­mis­sões ao vivo pela inter­net e feitas cam­pan­has de mobi­liza­ção “para que, de fato, a gente pos­sa traz­er o tema à tona e levar a sociedade à reflexão acer­ca de toda essa impor­tante questão que envolve a saúde e a vida das nos­sas cri­anças e ado­les­centes”, obser­vou Cun­ha.

OMS

Dados da OMS esti­mam que a cada 40 segun­dos uma pes­soa morre por suicí­dio no mun­do. No que se ref­ere às ten­ta­ti­vas, uma pes­soa aten­ta con­tra a própria vida a cada três segun­dos. Em ter­mos numéri­cos, cal­cu­la-se que em torno de 1 mil­hão de casos de mortes por suicí­dio são reg­istra­dos por ano em todo o mun­do. No Brasil, os casos pas­sam de 13 mil por ano, poden­do ser bem maiores em decor­rên­cia das sub­no­ti­fi­cações.

Maiores infor­mações sobre a cam­pan­ha Setem­bro Amare­lo® 2021 podem ser aces­sadas no endereço eletrôni­co www.setembroamarelo.com.

Edição: Graça Adju­to

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