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Profissionais de saúde superam desafios para salvar vidas yanomami

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Agência Brasil acompanhou atendimentos em polo base do território


Pub­li­ca­do em 13/02/2023 — 07:33 Por Pedro Rafael Vilela — Envi­a­do espe­cial — Boa Vista

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Um movi­men­to inten­so de aviões e helicópteros em um pon­to remo­to no meio da sel­va amazôni­ca tem sido roti­na no Polo Base de Suru­cu­cu, no extremo norte do país, a poucos quilômet­ros (km) da fron­teira entre o esta­do de Roraima e a Venezuela. O aumen­to desse fluxo decorre dos efeitos da ação em cur­so para mit­i­gar a crise human­itária do povo yanoma­mi, que vem chocan­do o país nas últi­mas sem­anas.

A reportagem da Agên­cia Brasil pas­sou um noite na região, entre os últi­mos dias 9 e 10 de fevereiro, para acom­pan­har de per­to o tra­bal­ho incan­sáv­el de profis­sion­ais de saúde no socor­ro aos indí­ge­nas, afe­ta­dos por uma desas­sistên­cia gen­er­al­iza­da e pela pre­sença do garim­po ile­gal na região. A situ­ação é históri­ca, mas se agravou ao lon­go dos últi­mos qua­tros anos, o que mobi­li­zou as autori­dades.

Veículo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) no Hospital de Campanha presta atendimento a indígenas Yanomami em situação de emergência em Boa Vista.
Repro­dução: Veícu­lo da Sec­re­taria Espe­cial de Saúde Indí­ge­na (Sesai), no Hos­pi­tal de Cam­pan­ha, pres­ta atendi­men­to a indí­ge­nas Yanoma­mi — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

O Polo Base de Suru­cu­cu dis­põe de uma pista asfal­ta­da para pousos e deco­la­gens e tam­bém abri­ga o 4º Pelotão de Fron­teira (PEF) do Exérci­to Brasileiro. Por ali, a úni­ca for­ma de aces­so entre diver­sas comu­nidades é por via aérea. O aeró­dro­mo fica a quase 300 km de Boa Vista, em pouco mais de uma hora de voo sobre a flo­res­ta den­sa. Por isso, a unidade bási­ca da Sec­re­taria de Saúde Indí­ge­na (Sesai) do Min­istério da Saúde tem, nesse polo, seu pon­to de refer­ên­cia para pacientes de out­ras regiões do ter­ritório. Um helicóptero fica de pron­tidão no PEF e é aciona­do para diver­sas mis­sões, como bus­car e levar pacientes de out­ras comu­nidades, além de inte­ri­orizar médi­cos e enfer­meiros que vão atu­ar em unidades de saúde menores den­tro do ter­ritório. No perío­do em que a reportagem acom­pan­hou as ativi­dades, a aeron­ave foi uti­liza­da incon­táveis vezes.

“Aqui em Suru­cu­cu a maior parte das aldeias é de difí­cil aces­so. É um desafio imen­so para todos os respon­sáveis pela logís­ti­ca de helicóptero e alguns fun­cionários do Dis­tri­to San­itário Espe­cial Indí­ge­na [DSEI], que incansavel­mente se esforçam para con­seguir realizar o res­gate dos pacientes com os mais diver­sos prob­le­mas, como malária, desnu­trição, desidratação. Essas doenças tiver­am aumen­to sig­ni­fica­ti­vo, dire­ta­mente rela­ciona­do ao aumen­to do número de inva­sores do ter­ritório, além de inci­dentes iner­entes à vida na flo­res­ta, como pic­a­da de cobra, que­da de altura, entre out­ros”, expli­ca a médi­ca Gabriela Mafra, que há qua­tro anos atende os yanoma­mi.

A chega­da de aviões prove­nientes de Boa Vista tam­bém é inten­sa, com o desem­bar­que de medica­men­tos e supri­men­tos diver­sos, além da remoção de pacientes. Somente em janeiro deste ano foram 112 remoções de pacientes graves para a cap­i­tal do esta­do, o que dá uma média maior que três por dia, de acor­do com números do Cen­tro de Oper­ações de Emergên­cia (COE), cri­a­do pelo gov­er­no para enfrentar a crise human­itária. O COE tam­bém infor­mou que, no mes­mo perío­do, fez 111 remoções den­tro do próprio ter­ritório, trans­portan­do pacientes de aldeias para serem aten­di­dos em polos de saúde locais da Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi. A pri­or­i­dade para res­gates e trans­porte de supri­men­tos difi­cul­ta o acom­pan­hamen­to de atenção primária, com vis­i­tas às comu­nidades.

“Em meio a todos os res­gates, devolução de pacientes de alta, tro­cas de equipes e entre­ga de mate­ri­ais, gostaríamos de encaixar vis­i­tas às aldeias. E aí há grande difi­cul­dade que, soma­da ao número de profis­sion­ais — que tem sido insu­fi­ciente para a real­iza­ção das vis­i­tas -, nos prej­u­di­ca nos atendi­men­tos pres­en­ci­ais às aldeias. Hoje perce­bo que pas­samos muito tem­po lidan­do com agravos de patolo­gias que pode­ri­am ser evi­tadas se não estivesse sendo tão desafi­ador realizar as vis­i­tas”, afir­ma Gabriela.

Na unidade de saúde do DSEI em Suru­cu­cu, a maior parte dos pacientes é for­ma­da por cri­anças e pes­soas idosas. A casa prin­ci­pal tem uma espé­cie de enfer­maria, onde os pacientes ficam deita­dos em redes. Muitas cri­anças choram de dor, seja por sin­tomas de malária, diar­reia ou desnu­trição. Há ain­da uma sala para o atendi­men­to de casos mais graves, com maca e alguns equipa­men­tos. Uma casa ao lado serve de suporte, com coz­in­ha, depósi­to de medica­men­tos e supri­men­tos.

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Homens yanomami em Surucucu, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Suru­cu­cu (RR), 09/02/2023 — Home­ns yanoma­mi em Suru­cu­cu, na Ter­ra Indí­ge­na. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

UPA indígena

Out­ro desafio que virou prati­ca­mente con­sen­so entre os profis­sion­ais de saúde é a neces­si­dade de expandir os atendi­men­tos no imen­so Ter­ritório Yanoma­mi além da atenção primária em saúde.

“Acred­i­to num novo for­ma­to de atendi­men­to que aten­da às deman­das de vaci­na, puer­i­cul­tura, pré-natal, saúde do idoso, entre out­ras, mas que tam­bém nos ajude a estar prepara­dos para lidar com situ­ações mais del­i­cadas e graves, como a esta­bi­liza­ção de um paciente com pneu­mo­nia grave, ou com um fer­i­men­to por flecha ou arma de fogo. Quem sabe até equipar o polo com apar­el­hos de exam­es sim­ples como hemogra­ma, por exem­p­lo. Isso reduziria sig­ni­fica­ti­va­mente o número de remoções para Boa Vista e o número de óbitos”, pre­vê a médi­ca.

“O caso yanoma­mi está per­mitin­do um debate impor­tante de super­ar a bar­reira de ficar­mos com a com­petên­cia ape­nas da atenção bási­ca. Por que já não começamos a dis­cu­tir sobre uma unidade de pron­to atendi­men­to indí­ge­na?”, desta­ca Weibe Tape­ba, secretário espe­cial de Saúde Indí­ge­na do Min­istério da Saúde. Ele vis­i­tou a unidade do DSEI Yanoma­mi no Polo de Suru­cu­cu, na últi­ma quin­ta-feira (9), e con­ver­sou com médi­cos, enfer­meiros e pacientes. A ideia do gov­er­no é insta­lar ao menos dois hos­pi­tais de cam­pan­ha de média com­plex­i­dade den­tro da ter­ra indí­ge­na.

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Pedro e Natanael, homens yanomami caminham com suprimentos em trilha no Surucucu, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Suru­cu­cu (RR), 09/02/2023 — Pedro e Natanael, home­ns yanoma­mi cam­in­ham com supri­men­tos em tril­ha no Suru­cu­cu, na Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

“Nós enten­demos que, no Ter­ritório Yanoma­mi, pelo menos dois hos­pi­tais de cam­pan­ha, além do que foi insta­l­a­do em Boa Vista, são necessários para evi­tar ess­es deslo­ca­men­tos”. Ape­sar dis­so, aler­ta o secretário, a reestru­tu­ração ple­na do serviço de saúde no ter­ritório só será pos­sív­el com a desin­trusão dos inva­sores.

“Temos condição de ampli­ar nos­sa capaci­dade de assistên­cia den­tro do ter­ritório, de apre­sen­tar um plano mín­i­mo de fun­ciona­men­to das nos­sas estru­turas, mas isso só é pos­sív­el se tiv­er segu­rança”, acres­cen­tou.

Cuidados

Enfer­meiro com mais de 33 anos de profis­são, Mar­cos Fon­se­ca é inte­grante da Força Nacional do Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS) que está reforçan­do os atendi­men­tos na Ter­ra Indí­ge­na. Acos­tu­ma­do com mis­sões human­itárias, Fon­se­ca já atu­ou no atendi­men­to de desabri­ga­dos após enchentes ocor­ri­das no Acre, em 2011, e tam­bém no acol­hi­men­to de imi­grantes haitianos, no mes­mo esta­do, em 2012. Ape­sar dis­so, a mis­são com os indí­ge­nas yanoma­mi é a mais desafi­ado­ra.

“Não pen­sei duas vezes em vir pra cá. É uma ale­gria saber que pos­so con­tribuir para diminuir o sofri­men­to deles”, afir­ma. Mas a ale­gria se mis­tu­ra com um sen­ti­men­to de impotên­cia. “Porque a gente vai sair e eles vão con­tin­uar. Eu ten­ho família e não pos­so ficar muito tem­po”, emo­ciona-se.

Para o enfer­meiro, que pas­sou boa parte da vida cuidan­do das pes­soas, são os yanoma­mi têm muito a ensi­nar sobre cuida­do. “Que a gente passe a cuidar deles como eles cuidam da Mãe Ter­ra”.

Edição: Graça Adju­to

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