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Flup revisita e atualiza obra de Lima Barreto com livro de contos

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Obra do romancista negro foi revisitada por 22 escritores


Pub­li­ca­do em 13/05/2023 — 18:49 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Para revis­i­tar e atu­alizar a obra do romancista negro Lima Bar­reto foram con­vi­da­dos 22 escritores. O resul­ta­do foi o livro Quilom­bo do Lima, cujo lança­men­to se tornou um dos destaques da pro­gra­mação da 12ª edição da Fes­ta Literária da Per­ife­ria (Flup), real­iza­da neste sába­do (13), no Rio de Janeiro.

A escrito­ra Daiana de Souza con­ta como surgiu a ideia. “Veio do orga­ni­zador da Flup, Júlio Ludemir. Ele sug­eriu um livro que pudesse repen­sar um pouco os con­tos do Lima Bar­reto para uma plateia que é dos nos­sos tem­pos. Recriá-los, pen­sá-los de out­ra for­ma, para de cer­ta for­ma até traz­er Lima Bar­reto para novos leitores. Os con­tos foram escritos por pes­soas que já pas­saram pela Flup em vários out­ros proces­sos ao lon­go dess­es anos. Durante três ou qua­tro meses, dis­cu­ti­mos e escol­he­mos os con­tos que a gente mais gosta­va. E a par­tir daí, cada um escreveu o seu tex­to”.

A Flup foi real­iza­da pela primeira vez em 2012 e, des­de então, acon­tece todos os anos, ten­do tido algu­mas edições que recor­reram à pro­gra­mação online dev­i­do à pan­demia de covid-19. O even­to, que já lid­er­ou a pub­li­cação de mais de 20 livros de autores das per­ife­rias do Rio de Janeiro, é real­iza­do em ter­ritórios tradi­cional­mente excluí­dos dos pro­gra­mas literários. Já pas­sou, por exem­p­lo, pelo Mor­ro dos Praz­eres e por Vigário Ger­al. A edição deste ano acon­tece na Are­na Samol, na Ladeira do Livra­men­to, no cen­tro da cap­i­tal flu­mi­nense.

A pro­gra­mação inclui um corte­jo, a apre­sen­tação do Blo­co Pra­ta Pre­ta, a lavagem das escadarias da Are­na Samol, o bail­in­ho dos crespin­hos, apre­sen­tações artís­ti­cas e per­for­mances inspi­radas em tra­bal­hos literários. Tam­bém está pre­vista a par­tic­i­pação do com­pos­i­tor Gilber­to Gil e do sam­bista Harol­do Cos­ta. O lança­men­to de Quilom­bo do Lima foi um dos destaques durante o iní­cio da tarde.

Autor do céle­bre romance Triste Fim de Poli­car­po Quares­ma, Lima Bar­reto pro­duz­iu inúmeros con­tos, sáti­ras e crôni­cas. Foi tam­bém um críti­co da Primeira Repúbli­ca Brasileira, con­te­s­tando o nacional­is­mo ufanista e a manutenção dos priv­ilé­gios de famílias aris­tocráti­cas e dos mil­itares. Sua pro­dução literária se vol­ta para a dis­cussão de temas lig­a­dos às desigual­dades soci­ais e à hipocrisia nas relações humanas na sociedade do iní­cio do sécu­lo 20. Ele tam­bém deu vis­i­bil­i­dade para a vida no sub­úr­bio car­i­o­ca e aprox­i­mou a lin­guagem colo­quial do romance brasileiro.

“Ele tem muitos con­tos. Então, a gente teve muito mate­r­i­al para estu­dar e para escol­her, poden­do abor­dar temas vari­a­dos. Ele fala­va bas­tante sobre a sociedade car­i­o­ca, dis­cu­tia temas políti­cos, mas fala­va tam­bém do sub­úr­bio, de famílias negras e como que essas pes­soas con­seguiam achar seus lugares. Eu escol­hi um con­to que me per­mi­tiu dis­cu­tir um pouco como que nós, as pes­soas negras, somos múlti­plas humanas e podemos errar, mas é impor­tante que ten­hamos para onde voltar. E como é impor­tante tam­bém defend­er a nos­sa memória, as nos­sas histórias e as lutas dos que vier­am antes de nós”, con­ta Daiana.

Quilombo de Lima

No final do ano pas­sa­do, um even­to orga­ni­za­do em preparação para a Flup já havia sido bati­za­do de Quilom­bo do Lima. O primeiro dos dois dias da pro­gra­mação foi mar­ca­do para 31 de out­ubro, dia do aniver­sário de Lima Bar­reto. Na ocasião, o escritor foi hom­e­nagea­do e relem­bra­do em mesas de debate com romancis­tas negros no Museu da História e da Cul­tura Afro-Brasileira (MUHCAB), no cen­tro do Rio de Janeiro. Tam­bém foi exibido o filme Lima Bar­reto, Ao Ter­ceiro Dia, dirigi­do por Luiz Anto­nio Pilar e lança­do em 2018.

Assi­nan­do um dos con­tos em Quilom­bo do Lima, Sue­ca crê que o lança­men­to do livro val­oriza a riqueza do tra­bal­ho de Lima Bar­reto e, ao mes­mo tem­po, dá sua con­tribuição para uma reparação história. Alguns dos tra­bal­hos mais expres­sivos do escritor foram pub­li­ca­dos ape­nas após sua morte. Sue­ca obser­va que o escritor foi despreza­do e invis­i­bi­liza­do pelas elites int­elec­tu­ais mod­ernistas.

“Prin­ci­pal­mente por essa hier­ar­quiza­ção dos mod­os de escri­ta. Então pre­cisamos refle­tir: quem escreve, o que escreve, da onde escreve? E Lima Bar­reto mostra que a lin­guagem que chega, por exem­p­lo, pela oral­i­dade tam­bém é tão legí­ti­ma quan­to essa for­ma mate­ri­al­iza­da da escri­ta”, avalia.

Para Cami­la de Araújo, que tam­bém é auto­ra de um dos con­tos, o lança­men­to do livro no 13 de maio, dia da assi­natu­ra da Lei Áurea, é sim­bóli­co. Ela desta­ca ain­da que a releitu­ra dos con­tos de Lima Bar­reto é facil­i­ta­da pela atu­al­i­dade dos temas que ele abor­da. “Ele é um per­cur­sor da lit­er­atu­ra negra e as questões que ele tra­ta são com­ple­ta­mente atem­po­rais. Elas dialogam com­ple­ta­mente com as questões estru­tu­rais que o Brasil está começan­do a enx­er­gar sobre a negri­tude, o racis­mo, o pre­con­ceito, o racis­mo reli­gioso”.

Duas homenagens

A escol­ha do local para real­iza­ção da Flup em 2023 teve um moti­vo espe­cial. Um dos hom­e­nagea­d­os dessa edição é Macha­do de Assis, que nasceu em um dos imóveis situ­a­dos na Ladeira do Livra­men­to. O even­to propõe um novo olhar sobre a obra do escritor que viveu entre 1839 e 1908 e é um dos fun­dadores da Acad­e­mia Brasileira de Letras (ABL).

“Macha­do de Assis. Aque­le que te obri­garam a ler antes mes­mo de você se inter­es­sar por lit­er­atu­ra. Aque­le que escreve difí­cil e que cai na pro­va, cuja obra se resume a se Capitu traiu ou não Bentin­ho. Macha­do não é um int­elec­tu­al her­méti­co da zona sul. Nun­ca pisou em uma uni­ver­si­dade. O Macha­do que te apre­sen­taram na esco­la não existe. A esco­la não quer inci­tar a rev­olução e Macha­do é rev­olu­cionário. Pre­to, nasci­do no coração do Mor­ro da Providên­cia, cria da Ladeira do Livra­men­to, fil­ho de Maria e Fran­cis­co. Joaquim Maria Macha­do de Assis está mais próx­i­mo da nos­sa real­i­dade do que nos fiz­er­am imag­i­nar. Esse é o Macha­do que eles não que­ri­am que você con­hecesse”, reg­istro o tex­to de hom­e­nagem.

​A out­ra hom­e­nagea­da da edição é a escrito­ra, artesã e sac­er­do­ti­sa Mãe Bea­ta de Ieman­já, fale­ci­da em 2017, que desen­volveu tra­bal­hos rela­ciona­dos à defe­sa e preser­vação do meio ambi­ente, aos dire­itos humanos, à edu­cação, saúde, com­bate ao sex­is­mo e ao racis­mo. “Mostrou com sua história de vida e sabedo­ria os fru­tos da diás­po­ra baiana na cul­tura car­i­o­ca e brasileira, for­t­ale­cen­do que oral­i­dade é escri­ta ances­tral, per­pet­ua saberes literários, soci­ais e políti­cos”, desta­ca a Flup.

Edição: Kel­ly Oliveira

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