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Boate Kiss: trauma psicológico persiste entre sobreviventes

Repro­dução: © Hos­pi­tal Uni­ver­sitário de San­ta Maria/ Divul­gação

Aspecto emocional impacta também equipes de saúde, diz fisioterapeuta


Pub­li­ca­do em 27/01/2023 — 19:59 Por Heloisa Cristal­do – Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília
Atu­al­iza­do em 28/01/2023 — 07:33

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Vitima da boate Kiss
Repro­dução: Cris­tiane Clavé esta­va na Boate Kiss na noite do incên­dio — Arqui­vo pes­soal

O sor­riso no ros­to não mostra as mar­cas inter­nas de uma das sobre­viventes do incên­dio na Boate Kiss, em San­ta Maria, há dez anos. A gaúcha Cris­tiane Clavé, de 36 anos, esta­va na casa notur­na para comem­o­rar um aniver­sário e, na dramáti­ca noite, perdeu 15 ami­gos. Sem cica­trizes visíveis, Cris­tiane não pre­cisou ser inter­na­da, mas uma tosse per­sis­tente a fez procu­rar atendi­men­to médi­co dois dias depois da tragé­dia.

“Fiz exam­es porque min­ha tosse não pas­sa­va e, com isso, ficou con­stata­da uma queimadu­ra inter­na, no pul­mão. Foi assim que come­cei o trata­men­to no Cen­tro Inte­gra­do de Atendi­men­to às Víti­mas de Aci­dentes (Cia­va) e até hoje faço acom­pan­hamen­to com o pneu­mol­o­gista. Fiz fisioter­apia até o final do ano pas­sa­do, ago­ra estou con­seguin­do faz­er natação e out­ras ativi­dades físi­cas”, con­ta Cris­tiane. “O trata­men­to será para o resto da vida. A cada três meses, volto ao cen­tro para uma série de exam­es.”

O Cia­va é um núcleo do Hos­pi­tal Uni­ver­sitário de San­ta Maria (HUSM), cri­a­do após a tragé­dia na casa notur­na. O hos­pi­tal foi o primeiro pon­to de atendi­men­to e enten­deu que pre­cis­aria reunir diver­sos profis­sion­ais para que o trata­men­to fos­se ade­qua­do às víti­mas. O cen­tro aten­deu 602 víti­mas do incên­dio em um con­jun­to mul­ti­dis­ci­pli­nar com pneu­mol­o­gis­tas, psiquia­tras, fisioter­apeu­tas, fonoaudiól­o­gos, assis­tentes soci­ais, psicól­o­gos, enfer­meiros e out­ros. Atual­mente, 25 pacientes que estavam na boate na noite do incên­dio são acom­pan­hados pelo cen­tro.

Segun­do Cris­tiane, os profis­sion­ais do Cia­va prestam um atendi­men­to cuida­doso e fra­ter­nal com os pacientes. Na avali­ação de Cris­tiane, muitos médi­cos foram apren­den­do a lidar com situ­ação das víti­mas e aju­s­tan­do o trata­men­to às neces­si­dades indi­vid­u­ais.

“Os primeiros profis­sion­ais que me aten­der­am me tratavam como fil­ha. Uma das médi­cas expli­ca­va tudo o que esta­va acon­te­cen­do comi­go, quais pro­ced­i­men­tos estavam sendo feitos. Eles me falavam que o que acon­te­cia era algo com­pli­ca­do tam­bém  para eles porque, até então, ninguém havia pas­sa­do por situ­ação semel­hante. Até a med­icação foi sendo adap­ta­da ao lon­go do tem­po, pois fazíamos testes, muitos exam­es, raios x – tudo para avaliar se havia neces­si­dade de alter­ar a dose de algu­ma med­icação”, lem­bra Cris­tiane.

Vitima da boate Kiss
Repro­dução: Movi­men­to próx­i­mo à Boate Kiss, após o incên­dio, com pes­soas sendo aten­di­das — Arqui­vo pes­soal de Cris­tiane Clavé

Drama

Ela con­ta que esta­va em frente ao pal­co onde a ban­da toca­va e, pouco antes do iní­cio do incên­dio, saiu para ir ao ban­heiro com uma ami­ga. Ao voltar, viu fumaça e o que imag­i­na­va ser uma con­fusão. Quan­do enten­deu a gravi­dade da situ­ação, ten­tou sair da casa notur­na tam­pan­do olhos, boca e nar­iz, mas a fumaça tóx­i­ca atingiu seu pul­mão.

“Não imag­inei que fos­se fogo, pare­cia uma briga. Logo em segui­da, vi o pal­co pegan­do fogo e um rapaz ten­tan­do apagá-lo com um extin­tor. Enquan­to eu ia até a por­ta, a fumaça entrou pelo sis­tema de ar condi­ciona­do e chegou até a por­ta antes de nós. Então, quan­do cheg­amos à por­ta de saí­da, a fumaça já esta­va lá. Era uma fumaça pre­ta e quente, e foi isso que atingiu meu pul­mão, porque não tin­ha fogo [por onde pas­sei]”, lem­bra. “Fiquei pouco tem­po [envolvi­da] na fumaça, ape­nas no tra­je­to entre o pal­co e a por­ta de saí­da, mes­mo assim o dano foi grave.”

Para a gaúcha, o trau­ma psi­cológi­co é um dos maiores pesos da noite do incên­dio. A tragé­dia provo­cou a morte de 242 pes­soas e até hoje nen­hum réu foi respon­s­abi­liza­do.

“Ao meu lado estavam cin­co meni­nas, chamadas de cin­dere­las. Todas mor­reram. Eu faço trata­men­to com psicól­o­go e psiquia­tra, mas não con­si­go esque­cer. Não tem um dia que eu não lem­bre o que pas­sei. Ago­ra, por exem­p­lo, mes­mo que eu não olhe para o cal­endário, meu cor­po parece saber que está chegan­do [a data]. Há três sem­anas, eu ten­ho acor­da­do todos os dias no mes­mo horário, sem des­per­ta­dor. É no horário que o incên­dio esta­va acon­te­cen­do”, descreveu. “Eu per­di muito a memória, o que me atra­pal­ha no dia a dia, mas, daque­le dia, eu lem­bro de tudo, de cada pas­so que eu dei”, acres­cen­tou.

Cris­tiane diz que man­tém a lem­brança do que acon­te­ceu em hom­e­nagem aos ami­gos que perder­am a vida e que fala sobre o assun­to para aler­tar as autori­dades a não per­mi­tirem out­ro aci­dente dessa for­ma.

“Hoje eu falo para dar voz a quem não pode mais falar. Eu ten­ho um pul­mão e um coração machu­ca­dos. Muitas vezes, eu mal con­si­go cam­in­har porque me dá fal­ta de ar, mas o pior é o sen­ti­men­to. A tris­teza de ter per­di­do pes­soas e a sen­sação de não ter con­segui­do voltar e sal­var um ami­go que foi herói, ele já tin­ha saí­do e voltou para aju­dar out­ras pes­soas. Foi difí­cil, mas as pes­soas têm que apren­der para que isso não se repi­ta.”

Ciava

A fisioter­apeu­ta Anna Ourique chegou a San­ta Maria três meses após a tragé­dia para aju­dar no atendi­men­to das víti­mas do incên­dio e, dez anos depois, con­tin­ua tra­bal­han­do no cen­tro.

“[Naque­la ocasião], o hos­pi­tal começou a rece­ber os pacientes que voltavam da inter­nação em Por­to Ale­gre, prin­ci­pal­mente os queima­dos, já que aqui na cidade não havia cen­tro de atendi­men­to de víti­mas de queimaduras. Ess­es pacientes pre­cisavam con­tin­uar a reabil­i­tação, muitos tin­ham prob­le­mas por ter inal­a­do fumaça e questões res­pi­ratórias graves. Além dis­so, tín­hamos aque­les com seque­las de queimaduras e, sabe­mos que, quan­do não tratadas, aderem à pele e impe­dem os movi­men­tos das pes­soas tiran­do toda fun­cional­i­dade”, expli­cou.

O vol­ume de tra­bal­ho e a quan­ti­dade de pacientes eram desafi­adores para os profis­sion­ais da lin­ha de frente no atendi­men­to. A deman­da fez com que a equipe bus­casse meios de aten­der a situ­ação críti­ca.

“Em um primeiro momen­to após a tragé­dia, eu já sabia que teria um tra­bal­ho muito desafi­ador porque eram muitos pacientes para aten­der. Em hos­pi­tais, recebe­mos muitos pacientes, mas nun­ca ao mes­mo tem­po, mas, naque­la situ­ação, cada vez rece­bíamos mais pacientes e ten­do que aten­der todos eles ao mes­mo tem­po. Foi uma exper­iên­cia tan­to profis­sion­al quan­to pes­soal que nos trouxe bas­tante cresci­men­to. Tive­mos que estu­dar muito”, ressaltou.

Segun­do a fisioter­apeu­ta, o aspec­to emo­cional tam­bém é impac­tante para os profis­sion­ais de saúde. “Os pacientes vier­am com uma car­ga psi­cológ­i­ca bem inten­sa. Hou­ve víti­mas que foram com ami­gos para a boate e todos estes mor­reram. Out­ros perder­am irmãos. O fisioter­apeu­ta é o profis­sion­al mais próx­i­mo, porque atende o paciente mais vezes. Muitas vezes, aque­la víti­ma con­ver­sa mais conosco do que com out­ros profis­sion­ais da equipe. Então, foi um desafio porque tín­hamos que man­ter a firmeza para dar o suporte para ess­es pacientes, todos muito jovens”, disse Anna.

Legado

Na avali­ação do super­in­ten­dente do Hos­pi­tal Uni­ver­sitário de San­ta Maria, Hum­ber­to Pal­ma, o Cia­va é um lega­do do dra­ma viven­ci­a­do pela pop­u­lação de San­ta Maria. O cen­tro aju­dou no atendi­men­to das víti­mas do ataque à creche Gente Inocente, em Janaú­ba, em Minas Gerais, e de incên­dios em Por­tu­gal.

“Não tem como apa­gar a dor”, lamen­ta o super­in­ten­dente do Hos­pi­tal Uni­ver­sitário, Hum­ber­to Pal­ma — HUSM Divul­gação

“Não tem como apa­gar a dor. Não tem como apa­gar o sen­ti­men­to. Mes­mo que a gente não ten­ha um vín­cu­lo dire­to, um par­ente, sente essa dor. Porém, a par­tir dis­so, con­seguimos cri­ar algo que pudesse aju­dar as pes­soas, e o Cia­va faz essa função, e esse foi o grande méri­to que o hos­pi­tal con­seguiu: ter a força de colab­o­rar com a sociedade”, enfa­ti­za Pal­ma.

Hospital Universitário de Santa Maria virou referência.
Repro­dução: A fisioter­apeu­ta Anna Ourique chegou a San­ta Maria três meses após a tragé­dia. — HUSM/Divulgação

Com dois livros pub­li­ca­dos, o cen­tro divul­ga os pro­to­co­los ado­ta­dos com os pacientes para out­ros esta­dos e real­iza treina­men­tos online e pres­en­ci­ais. Segun­do Pal­ma, a per­spec­ti­va é que o con­hec­i­men­to adquiri­do pelo cen­tro seja repas­sa­do para out­ros hos­pi­tais uni­ver­sitários admin­istra­dos pela Empre­sa Brasileira de Serviços Hos­pi­ta­lares (Ebserh), do qual o Hos­pi­tal Uni­ver­sitário faz parte.

“A ideia é que o Hos­pi­tal Uni­ver­sitário de San­ta Maria trans­fi­ra o con­hec­i­men­to para que out­ros hos­pi­tais uni­ver­sitários pos­sam ter equipes com know-how sufi­ciente para não ter que cor­rer atrás naque­le momen­to [pós-aci­dente], para que este­jam prepara­dos e em condições – tan­to téc­ni­cas quan­to emo­cionais, além de recur­sos físi­cos – para dar o suporte necessário. Aci­dentes, infe­liz­mente, tragi­ca­mente, acon­te­cem, e nós, den­tro da função do atendi­men­to em saúde, temos que estar prepara­dos”, afir­ma.

Matéria atu­al­iza­da para às 0733 do dia 28/01/2023 para alter­ações nas leg­en­das das fotos.

Edição: Nádia Fran­co

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