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Centenário é importante para revisar mito da Semana de Arte Moderna

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Especialistas dizem que a ideia de marco foi uma construção histórica


Pub­li­ca­do em 14/02/2022 — 06:32 Por Elaine Patri­cia Cruz* – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Apon­ta­da como mar­co zero do mod­ernismo no Brasil, a Sem­ana de Arte Mod­er­na comem­o­ra seu cen­tenário este mês. Cel­e­bra­da atual­mente em exposições, livros, sem­i­nários, even­tos e reporta­gens, a efeméride é tam­bém uma opor­tu­nidade para se redis­cu­tir a importân­cia históri­ca do even­to – real­iza­do no The­atro Munic­i­pal de São Paulo, entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, por artis­tas e int­elec­tu­ais da elite paulis­tana que defendi­am estar rompen­do com o con­ser­vadoris­mo das artes no Brasil.

“Nesse momen­to, em que a gente está, em 2022, o que está sendo mais bacana de olhar para a sem­ana de 22 é jus­ta­mente ques­tionar o seu mito”, afir­ma Heloisa Espa­da, curado­ra do Insti­tu­to Mor­eira Salles.

“É claro que foi um even­to impor­tante em São Paulo. Reuniu ali alguns artis­tas e lit­er­atos de várias áreas e que se tornaram muito impor­tantes para a história do mod­ernismo, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Ani­ta Mal­fat­ti e Vic­tor Brecheret. Tem nomes que são muito impor­tantes para a nos­sa com­preen­são da arte mod­er­na no Brasil. Mas hoje esta­mos em um momen­to de rev­er isso, de olhar para os out­ros esta­dos, enten­der a tem­po­ral­i­dade dos out­ros esta­dos, o que esta­va acon­te­cen­do nos out­ros lugares e ten­tar ampli­ar a com­preen­são des­ta pro­dução para além do Sud­este”, reforça Heloisa.

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil
A ideia de que a sem­ana foi um mar­co do mod­ernismo brasileiro, na real­i­dade, foi uma con­strução históri­ca, que só veio a sur­gir décadas depois, defen­d­em his­to­ri­adores e espe­cial­is­tas.

“Acho que o que mar­ca essa comem­o­ração de 100 anos é enten­der como a Sem­ana de Arte Mod­er­na se tornou um mar­co. Isso é uma con­strução históri­ca. Mas eles fiz­er­am de tudo para que real­mente ela fos­se polêmi­ca e para se alin­har à ideia de van­guar­da que esta­va sendo dis­cu­ti­da e da qual eles tin­ham notí­cias que vin­ham de out­ros país­es, prin­ci­pal­mente do Hem­is­fério Norte”, disse Heloisa.

Um dos pon­tos que pas­sa por revisão históri­ca é o region­al­is­mo da ini­cia­ti­va, afi­nal a sem­ana não foi com­pos­ta ape­nas por artis­tas e int­elec­tu­ais paulis­tas. “Há pes­soas de Per­nam­bu­co; alemães, como o [Wil­helm] Haar­berg, por exem­p­lo, que esta­va recém-emi­gra­do e par­tic­i­pa. Temos o arquite­to polonês [Georg] Przyrem­bel; o espan­hol Anto­nio Gar­cia Moya, que fez desen­hos de arquite­tu­ra e par­ticipou da sem­ana. Temos mineiros”, desta­cou Luiz Arman­do Bagolin, pro­fes­sor do Insti­tu­to de Estu­dos Brasileiros (IEB) da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP).

Além dis­so, hou­ve ini­cia­ti­vas mod­er­nas em out­ras partes do país, como as revis­tas ilustradas do Rio Grande do Sul; o tra­bal­ho do pin­tor Vicente do Rego Mon­teiro, em Per­nam­bu­co; e o sam­ba, no Rio de Janeiro.

“Tem uma coisa impor­tante não só no Rio, mas em vários lugares tam­bém, que é a músi­ca, o surg­i­men­to do sam­ba nesse momen­to, que é muito próprio do Brasil. Olhar as man­i­fes­tações cul­tur­ais brasileiras e ten­tar enten­der o que é próprio da nos­sa cul­tura, de cada lugar, de cada esta­do e enten­der o quan­to aqui­lo desafi­a­va, o quan­to o sam­ba desafi­a­va con­venções, acho que esse é um jeito de olhar e de pen­sar o mod­ernismo”, disse.

Controvérsias

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

O mod­ernismo brasileiro tam­bém viveu suas ambigu­idades e con­tro­vér­sias. A começar pelo fato de que o movi­men­to, cuja efer­vescên­cia ocor­reu nas cidades, foi ban­ca­do pela elite cafeeira, que vivia no inte­ri­or, em fazen­das. “É a riqueza do cam­po que paga essa ideia da arte mod­er­na”, expli­cou Heloisa.

“A ideia de mod­ernidade era um peixe que o regime repub­li­cano que­ria vender. Essa ideia de mod­ernidade, de abrir grandes avenidas e cri­ar cidades mais mod­er­nas e que fos­sem mais salu­bres, destru­iu um pas­sa­do impe­r­i­al e colo­nial ou colo­cou de lado todo um pas­sa­do que era con­ve­niente politi­ca­mente esque­cer naque­le momen­to”, desta­cou Heloisa.

“Para algu­mas pes­soas, a mod­ernidade seria um pro­je­to de bran­quea­men­to do país no iní­cio do sécu­lo. Mod­ernidade tam­bém é isso, tam­bém tem um lado nefas­to. Há quem diga que é mais nefas­to que mod­er­no.”

A espe­cial­ista ques­tiona o moti­vo de nomes como o do escritor e políti­co Plínio Sal­ga­do, que fez parte da sem­ana, terem sido “apa­ga­dos” pela história. “Temos ali a par­tic­i­pação do Menot­ti del Pic­chia [escritor] e do Plínio Sal­ga­do, fig­uras que depois se tornaram con­tro­ver­sas politi­ca­mente, lig­adas ao movi­men­to do verde-amarelis­mo [que se opun­ha ao movi­men­to pau-brasil de Oswald de Andrade e pre­ga­va um ufanis­mo exac­er­ba­do]. Depois o Plínio Sal­ga­do é expoente do Inte­gral­is­mo [que tin­ha grande afinidade com o fas­cis­mo ital­iano]”, disse Heloisa.

Nes­sa análise políti­ca, tam­bém é impor­tante enten­der como o movi­men­to mod­ernista foi uti­liza­do pelo Esta­do Novo, de Getulio Var­gas. “O Gus­ta­vo Capane­ma [min­istro forte do gov­er­no Getúlio Var­gas] era o homem, dig­amos, por detrás dessa estraté­gia de assumir o mod­ernismo como uma polit­i­ca cul­tur­al estatal”, disse Bagolin, expli­can­do que a bus­ca por uma arte brasileira, com iden­ti­dade nacional, “serviu como uma luva para o pro­je­to do Esta­do Novo”.

“O Esta­do Novo bus­ca­va demon­strar que o povo brasileiro, ape­sar de ser com­pos­to por uma mis­ci­ge­nação de etnias e cul­turas, ele dev­e­ria se apre­sen­tar como um povo, no sin­gu­lar; como uma cul­tura, no sin­gu­lar; uma arte brasileira, no sin­gu­lar. Até hoje falam­os isso. Não falam­os ‘as artes brasileiras’, que seria o mais cor­re­to porque são difer­entes e somos difer­entes”, disse o pro­fes­sor da USP.

Quan­do a ideia do mod­ernismo surge em ter­ritório brasileiro, há a utopia, por parte dos artis­tas, de que essa arte nacional seria uti­liza­da para mod­i­ficar o país. Mas quan­do essa ideia pas­sa a ser apro­pri­a­da pelo Esta­do, Mário de Andrade se des­en­can­ta com o movi­men­to.

“Para o Mário de Andrade e para out­ros, quan­do o Mod­ernismo é coop­ta­do, se trans­for­ma no estab­lish­ment ou na arte estatal, na arte defen­di­da pelo Esta­do — e por um Esta­do ain­da muito con­ser­vador — o mod­ernismo morre. Todas aque­las ini­cia­ti­vas, todas as suas exper­iên­cias, tudo o que eles fiz­er­am, foi em vão”, desta­cou o pro­fes­sor do IEB.

Problematização

Exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução: Exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

O prin­ci­pal obje­ti­vo da Sem­ana de Arte Mod­er­na de 1922 foi repen­sar de maneira críti­ca o tradi­cional­is­mo cul­tur­al, muito asso­ci­a­do às cor­rentes literárias e artís­ti­cas europeias, ao par­nasian­is­mo e ao aca­d­e­mi­cis­mo for­mal.

Esse movi­men­to foi lid­er­a­do e pro­tag­on­i­za­do pela elite paulis­tana, ban­ca­do pela cafe­i­cul­tura e ocor­ri­do ape­nas 34 anos após a abolição da escra­vatu­ra.

Temas como o colo­nial­is­mo, a escravidão, a opressão indí­ge­na e a vio­lên­cia não entraram na agen­da dos mod­ernistas brasileiros e essa é uma das prin­ci­pais prob­lema­ti­za­ções acer­ca da Sem­ana, sob o pon­to de vista críti­co do sécu­lo 21.

“O Brasil  tin­ha acaba­do de sair da escravidão. O Brasil tin­ha acaba­do de sair da monar­quia e era uma jovem repúbli­ca. E em 1922, o grande acon­tec­i­men­to daque­le ano não foi a sem­ana de arte mod­er­na. Foi a comem­o­ração do primeiro cen­tenário da nos­sa inde­pendên­cia”, disse Bagolin.

“Diz­er que o negro e o indí­ge­na não estavam rep­re­sen­ta­dos na sem­ana é um anacro­nis­mo. A par­tic­i­pação de indí­ge­nas ou de afrode­scen­dentes, o lugar de fala das pes­soas, as suas expressões próprias, essas questões são deman­das da nos­sa época. Elas são jus­tas e devem ser defen­di­das, deve­mos brigar por elas. Mas não eram questões que se apre­sen­tavam nos anos 20 do sécu­lo pas­sa­do”, expli­cou o pro­fes­sor do IEB, que tam­bém é curador da exposição Era Uma Vez o Mod­er­no, que está em car­taz no Cen­tro Cul­tur­al da Fed­er­ação das Indús­trias do Esta­do de São Paulo (Fiesp).

Exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução: Exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

O que os mod­ernistas fiz­er­am naque­la época foi a apro­pri­ação de out­ras artes, como a indí­ge­na, com as quais tiver­am con­ta­to por meio de via­gens e expe­dições que fiz­er­am pelo inte­ri­or do Brasil.

“Numa per­spec­ti­va hoje de decolo­nial­i­dade, essas ini­cia­ti­vas são vis­tas com reser­va. Às vezes, mais do que vis­tas com reser­va, elas são crit­i­cadas, cen­suradas, porque, de novo, é o bran­co europeu, explo­rador, que vem e se apro­pria de parte de uma cul­tura que não é dele. Depois a expõe, vende, rev­olu­ciona o cam­po da arte e da cul­tura mod­er­na com uma coisa que foi apro­pri­a­da de um povo, de um out­ro povo, que está sendo esque­ci­do, vilipen­di­a­do, rou­ba­do, tru­ci­da­do. Então, numa per­spec­ti­va de decolo­nial­i­dade, acho que é muito per­ti­nente essa críti­ca”, disse Bagolin.

Atual­mente, int­elec­tu­ais e artis­tas indí­ge­nas têm se pro­nun­ci­a­do sobre o mod­ernismo, olhan­do para essa tradição. “Antes tín­hamos ess­es int­elec­tu­ais, cri­a­dos e for­ma­dos nos cen­tros urbanos, olhan­do para out­ras cul­turas brasileiras e para as cul­tur­ais orig­i­nais. Hoje temos a pos­si­bil­i­dade de ouvir indí­ge­nas revisan­do Macu­naí­ma [livro escrito por Mário de Andrade] e se posi­cio­nan­do sobre isso. Isso tam­bém é coisa do nos­so tem­po e acho que pre­cisamos, nesse momen­to, ouvir muito. É a hora que temos para apren­der muito sobre esse pon­to de vista, que até ago­ra não esteve no cen­tro dos debates”, desta­cou Heloisa.

Modernismo além de 22

Cem anos depois, espe­cial­is­tas como Heloisa defen­d­em a importân­cia da Sem­ana de Arte Mod­er­na, mas tam­bém enfa­ti­zam que o movi­men­to e a con­strução do mod­ernismo no Brasil con­taram com out­ros ele­men­tos.

“O grande apren­diza­do é esse: a gente ten­tar enten­der a potên­cia e os lim­ites do que foi a Sem­ana de 22 porque acho que o que não dá mais hoje é, nas esco­las, con­tin­uar falan­do da arte mod­er­na e só da Sem­ana de 22. Porque mui­ta coisa acon­te­ceu, mui­ta coisa além. As exper­iên­cias do mod­ernismo no Brasil vão muito além da Sem­ana de 22”, frisou Heloisa.

Na avali­ação de Luiz Arman­do Bagolin, ser mode­no hoje impli­ca apren­der com as diver­si­dades brasileiras. “Eu acho que ser mod­er­no hoje é encar­ar as difer­enças. Nós somos difer­entes. O Brasil é muito vas­to, tem coisas que os brasileiros não con­hecem. Não somos iguais e nós temos que nos enten­der nas difer­enças. A gente não pode resolver essa história, for­mu­lan­do, a títu­lo de um pro­je­to políti­co ou ide­ológi­co, um Brasil no sin­gu­lar, um brasileiro no sin­gu­lar, todo mun­do com a mes­ma nação”, desta­cou.

“Ser mod­er­no hoje impli­ca faz­er a revisão de toda a norssa história e de toda a nos­sa cul­tura numa per­spec­ti­va decolo­nial, de decolo­nial­i­dade. Isso é um dado recente. Aliás, é um con­ceito soci­ológi­co que data do final dos anos 90. Então é impor­tante não perder esse instru­men­to soci­ológi­co porque ele nos for­mu­la muitos desafios”, acres­cen­tou.

Con­fi­ra todas as matérias da série que a Agên­cia Brasil tem pub­li­ca­do sobre o cen­tenário da Sem­ana de Arte Mod­er­na.

 

*Colaborou Eliane Gonçalves, repórter da Rádio Nacional

Edição: Lílian Beral­do

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