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Dia Nacional do Livro: hábito da leitura aumentou na pandemia

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Mercado passa por momento de alta após crise de vendas na pandemia


Pub­li­ca­do em 29/10/2021 — 06:00 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

A pan­demia de covid-19 fez com que a pop­u­lação de todo o mun­do pas­sasse por exper­iên­cias de iso­la­men­to e dis­tan­ci­a­men­to social. Para muitas pes­soas, os grandes com­pan­heiros durante estes momen­tos foram os livros, que são cel­e­bra­dos hoje (29) — Dia Nacional do Livro — em todo o ter­ritório nacional.  

As livrarias, que tiver­am que fechar as por­tas logo no iní­cio da emergên­cia san­itária, foram alta­mente afe­tadas pela impos­si­bil­i­dade de ven­das. Ago­ra, reg­is­tram o retorno grad­ual do públi­co e o aumen­to sig­ni­fica­ti­vo nas ven­das de livros em ger­al.

“As pes­soas com­praram muito mais livros [na pan­demia]. Pas­sa­dos os qua­tro primeiros meses, quan­do hou­ve mui­ta incerteza e muitas difi­cul­dades até mes­mo de logís­ti­ca e de lojas fechadas, as pes­soas começaram a se reconec­tar e as ven­das cresce­r­am, o que obser­va­mos no mun­do inteiro. Aqui no Brasil demor­ou um pouco mais. Começamos a notar isso mais forte a par­tir de agos­to. De setem­bro em diante, o cresci­men­to foi tão grande que prati­ca­mente recu­per­ou todas as per­das do perío­do ini­cial da pan­demia. E esse movi­men­to per­manece em 2021”, disse Mar­cos da Veiga Pereira, pres­i­dente do Sindi­ca­to Nacional dos Edi­tores de Livros (Snel).

Repro­dução: Movi­men­to de leitores na livraria Mar­tins Fontes, em Vila Buar­que. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Segun­do ele, neste ano de 2021, o setor está crescen­do de for­ma robus­ta inclu­sive sobre 2019, perío­do ante­ri­or à pan­demia. “Acho que as pes­soas redesco­bri­ram o praz­er de ler e [isso] recolo­cou o livro nos hábitos diários”, disse Pereira.

Ler é um hábito para a espe­cial­ista em ino­vação Solange Bel­chior, 43 anos. “Sem­pre foi uma das min­has ativi­dades favoritas nas min­has horas vagas”, disse ela, que cos­tu­ma­va ler cer­ca de dez livros por ano. Solange lê muito mais do que a média nacional: a quan­ti­dade média de livros con­sum­i­da pelo brasileiro é de ape­nas 2,5 livros inteiros por ano.

Como ocor­reu com muitas pes­soas, ela não con­seguia ler no iní­cio da pan­demia. “O ano de 2020 foi muito inten­so e eu não con­seguia me con­cen­trar. Li pouquís­si­mo, mas tam­bém não me for­cei a ler. Leitu­ra tem que ser por praz­er, não por obri­gação”, falou. Já neste ano de 2021, ela leu mais do que cos­tu­ma­va: foram 26 livros lidos até ago­ra. “Em 2021 tudo mudou. Foi o ano que mais li. Come­cei a seguir no Insta­gram mais pes­soas lig­adas aos livros e essas pes­soas inspi­ram a gente a quer­er ler mais, saber mais”, expli­cou.

Com menos deslo­ca­men­tos pela cidade e menos ativi­dades pres­en­ci­ais, grande parte das pes­soas tam­bém teve mais tem­po livre durante a pan­demia. “Por con­ta do tra­bal­ho, estu­dos, dis­tân­cia de casa e deslo­ca­men­tos, o úni­co tem­po que tin­ha para ler era no trans­porte públi­co. Por con­ta da pan­demia estou em home office des­de março de 2020, então ten­ho um pouco mais de tem­po livre. Às vezes fecho o note­book e já emen­do um livro para desli­gar a cabeça dessa doideira cor­po­ra­ti­va”, disse Pedro Bal­ci­u­nas, 26 anos, escritor, roteirista e jor­nal­ista.

Nesse tem­po, ele tam­bém criou um per­fil no Insta­gram para pub­licar resen­has sobre livros. “Como sem­pre li muito, as pes­soas nat­u­ral­mente vin­ham me procu­rar para pedir dicas de livros, incen­tivos para ler mais. Então deci­di max­i­mizar isso com a rede social, um lugar que te dá aces­so a mui­ta gente inter­es­sa­da no mes­mo assun­to que você”, con­tou.

Bal­ci­u­nas tem o hábito de ler des­de cri­ança. E assim como Solange, pas­sou a ler mais durante a pan­demia. “Em 2019, li 12 livros; em 2020 foram 14 livros. Até o momen­to, em 2021, já foram 24”, falou.

Aumento de Vendas

O Painel do Vare­jo de Livros no Brasil, divul­ga­do pelo Sindi­ca­to Nacional dos Edi­tores de Livros (Snel) a par­tir de pesquisa fei­ta pela Nielsen BookScan, demon­strou que, entre janeiro e setem­bro deste ano foram ven­di­dos 36,1 mil­hões de exem­plares de livros, aumen­to de 39% em com­para­ção ao mes­mo perío­do de 2020.

Ape­sar da base de com­para­ção ser baixa, já que em 2020 o setor ain­da enfrenta­va muitos prob­le­mas rela­ciona­dos à pan­demia, esse aumen­to já é robus­to em relação a 2019 tam­bém. “A gente está crescen­do em 2021 em relação a 2019. A gente cresceu muito em relação a 2020, ano da pan­demia. Mas se com­parar com 2019, é um cresci­men­to robus­to tam­bém”, afir­mou Mar­cos da Veiga Pereira, pres­i­dente do Snel.

Compras online

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, Vitor Tavares, pres­i­dente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), disse que a pan­demia foi um momen­to muito difí­cil para o setor. Prin­ci­pal­mente nos primeiros meses após a chega­da do novo coro­n­avírus ao Brasil, quan­do os gov­er­nos deter­mi­naram o fechamen­to do comér­cio não essen­cial — caso das livrarias. “A pan­demia afe­tou muito, não só o setor edi­to­r­i­al, mas a econo­mia como um todo. No começo da pan­demia, ficamos muito pre­ocu­pa­dos porque as livrarias e as edi­toras, no mês de março, pararam. Ficamos prati­ca­mente 90 dias com o afas­ta­men­to social. As livrarias físi­cas estavam fechadas, sem fat­u­rar nada. Todo mun­do ficou muito pre­ocu­pa­do”, disse Tavares.

“Depois, em um segun­do momen­to, a gente perce­beu que a pan­demia não ia ter­mi­nar assim tão rápi­do e começamos a nos rein­ven­tar. Os edi­tores, por exem­p­lo, se tin­ham plane­ja­men­to de faz­er uma cer­ta quan­ti­dade de livros, dimin­uíram pela metade. As livrarias tradi­cionais, que já tra­bal­havam com ven­das pela inter­net, tiver­am um aumen­to muito bom, até dobraram o fat­u­ra­men­to das ven­das de livros pela inter­net. Foi o que de fato ala­van­cou as ven­das no ano de 2020”, falou Tavares.

Solange foi uma das pes­soas que com­prou livros pela inter­net durante a pan­demia. “Com­prei muito mais livros na pan­demia. E o con­sumo foi muito maior pelo e‑commerce. Mas com a vol­ta da aber­tu­ra do comér­cio, estou indo tam­bém em livrarias de rua pra com­prá-los”, disse Solange.

Ficção

O gênero literário mais procu­ra­do durante a pan­demia pelos brasileiros foi ficção. “Em 2020, as pes­soas con­sumi­ram muitos clás­si­cos. O autor mais ven­di­do durante a pan­demia foi George Orwell, com A Rev­olução dos Bichos”, disse o pres­i­dente do Snel.

“Achei um livro sim­ples e atem­po­ral, que dialo­ga com questões atu­ais, como pós-ver­dade, explo­ração, cor­rupção, líderes insanos e escol­has de inimi­gos para ger­ar crises”, descreveu Bal­ci­u­nas, um dos brasileiros que con­heceu a obra do escritor indi­ano rad­i­ca­do em Lon­dres.

Out­ro livro que tam­bém apare­ceu entre os mais ven­di­dos nesse perío­do foi a ficção dis­tópi­ca 1984, tam­bém de Orwell. “Todo brasileiro dev­e­ria ler este livro”, acres­cen­tou Solange.

Segun­do o Snel e a CBL, out­ros gêneros literários com alta deman­da foram guias de culinária e gas­trono­mia, livros infan­tis e pub­li­cações sobre negó­cios.

Novas perspectivas

Com o avanço da vaci­nação e a con­se­quente diminuição dos casos de covid-19, as livrarias brasileiras pud­er­am reabrir. Isso pos­si­bil­i­tou tam­bém que novos livros fos­sem lança­dos no mer­ca­do. “Na pan­demia, foi muito difí­cil lançar livros novos. As livrarias fechadas impedi­ram que a gente pudesse apre­sen­tar novi­dades. E isso tem acon­te­ci­do ago­ra em 2021. Vamos perce­ber um cresci­men­to muito forte no número de novos pro­du­tos lança­dos”, disse Pereira.

“As livrarias começaram a reabrir e a gente viu que o públi­co leitor começou a voltar a com­prar livros. O brasileiro, na pan­demia, não deixou de ler. Assim como os autores não deixaram de escr­ev­er. Tive­mos aumen­to muito inter­es­sante de novos livros, novos lança­men­tos”, falou Tavares, citan­do que as inscrições para o Prêmio Jabu­ti, que é orga­ni­za­do pela Câmara, tiver­am um grande aumen­to neste ano. Out­ro fenô­meno ocor­ren­do com o avanço da vaci­nação é a aber­tu­ra de novas livrarias físi­cas, prin­ci­pal­mente na cidade de São Paulo.

Para incre­men­tar as ven­das, o setor tam­bém apos­ta em out­ras estraté­gias para se aprox­i­mar do leitor. “Sem­pre fomos muito pas­sivos em relação ao con­sum­i­dor. Mas isso pas­sou a ser mais ati­vo na pan­demia, na medi­da em que a comu­ni­cação pas­sou a ser online, todos os depar­ta­men­tos de mar­ket­ing das prin­ci­pais edi­toras pas­saram a cen­trar ativi­dades e esforços, em con­stru­ir uma base de rela­ciona­men­to dire­to com seus leitores. O livro pas­sa a ser muito mais pre­sente em sua vida”, disse o pres­i­dente do sindi­ca­to.

Repro­dução: Estante de livros da livraria Mar­tins Fontes, na Vila Buar­que. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Out­ra estraté­gia cita­da por Tavares foi que as livrarias, prin­ci­pal­mente as menores, pas­saram tam­bém a vender pela inter­net, uti­lizan­do suas redes soci­ais. “As livrarias de bair­ro, as menores, foram as que mais sofr­eram na pan­demia. Elas não têm um cap­i­tal para ficar fechadas por um perío­do muito lon­go. A gente viu que muitas delas tiver­am que fechar ou ser ven­di­das. Mas tam­bém percebe­mos que muitas começaram a adquirir, cor­rer atrás e vender livros pela inter­net, What­spp, por rede social, fazen­do lives”.

Depois desse perío­do mais difí­cil da pan­demia, o setor ago­ra se ani­ma tam­bém com a vol­ta dos even­tos pres­en­ci­ais ded­i­ca­dos ao livro, como a Bien­al do Livro de São Paulo. Em jul­ho de 2022, ela vol­ta a ser pres­en­cial e vai prestar uma hom­e­nagem a Por­tu­gal, como parte das cel­e­brações pelos 200 anos da Inde­pendên­cia do Brasil.

Ape­sar dessas per­spec­ti­vas pos­i­ti­vas, o setor ain­da batal­ha para impedir que a tax­ação sobre os livros seja aprova­da. Des­de 1946, os livros são isen­tos de impos­tos, mas uma pro­pos­ta de refor­ma trib­utária do gov­er­no pre­vê o fim dessa isenção. “Temos com­bat­i­do, luta­do muito, para que o livro não seja trib­u­ta­do e para que ele seja acessív­el cada vez mais para a pop­u­lação como um todo”, disse Tavares.

Dia do Livro

Em cel­e­bração ao Dia Nacional do Livro, Solange reforça a importân­cia da leitu­ra como instru­men­to de trans­for­mação. “Acho que é uma tro­ca muito inten­sa de con­hec­i­men­to entre o escritor e o leitor. Além claro, de que quan­to mais se lê, mais a gente entende as questões políti­cas e soci­ais que envolvem nos­so dia a dia. Com isso, começamos a pen­sar e agir de for­ma difer­ente para que o cenário mude”, refletiu.

Repro­dução:  Estante de livros da livraria Mar­tins Fontes, na Vila Buar­que. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

“Dica? Desligue do celu­lar e vá ler um livro”, acres­cen­tou. “Nada con­tra TV, séries, nov­e­las, eu mes­mo adoro tudo isso, mas leitu­ra é uma for­ma muito mais potente e dinâmi­ca de estim­u­lar o nos­so cére­bro, isso é cien­tí­fi­co. Ela te colo­ca em con­ta­to con­si­go mes­mo de uma maneira muito sutil e que ati­va capaci­dades cog­ni­ti­vas de atenção, foco e con­cen­tração que nen­hum out­ro meio pos­si­bili­ta.”

Edição: Pedro Ivo de Oliveira

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