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Dossiê Acessibilidade é lançado em São Paulo pelo Itaú Cultural

Material visa fruição artística a pessoas com defiência

Lety­cia Bond — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 29/10/2025 — 08:55
São Paulo
Jovens com deficiência
Repro­dução: © Wil­son Dias/Agência Brasil

Para ten­tar garan­tir efe­ti­va par­tic­i­pação das pes­soas com defi­ciên­cia nas cor­rentes de pro­dução e cri­ação artís­ti­cas, o Itaú Cul­tur­al (IC) lançou, nes­ta terça-feira (28), o Dos­siê Aces­si­bil­i­dade, em São Paulo. Além de traz­er dados sobre mar­cos legais e estatís­ti­cos, o mate­r­i­al fornece a tra­bal­hadores da cul­tura infor­mações sobre como preparar espaços e tam­bém obras de modo que essa parcela pop­u­la­cional ten­ha seu dire­ito à fruição artís­ti­ca ple­na­mente respeita­do.

Um dos prin­ci­pais princí­pios que norteiam a defe­sa dos dire­itos das pes­soas com defi­ciên­cia é a autono­mia. Con­tu­do, para os mais de 18 mil­hões de brasileiros que com­põem esse grupo, não somente isso é nega­do no nív­el mais bási­co do cotid­i­ano, mas tam­bém quan­do ten­tam perce­ber a lit­er­atu­ra, fotos de uma exposição ou uma escul­tura exibi­da em um museu, aler­taram espe­cial­is­tas no even­to.

Orga­ni­za­ções e artis­tas às vezes ten­tam con­vencer de que se pre­ocu­pam com esse aspec­to ao colo­car sua arte no mun­do, quan­do, na real­i­dade, ape­nas se esforçam para pro­por­cionar um ou dois dos recur­sos às pes­soas com defi­ciên­cia, como insta­lar uma ram­pa ou con­tratar um profis­sion­al que dom­i­nar a Lín­gua Brasileira de Sinais (Libras). Isso não atende a todo o públi­co, pois igno­ram out­ras sin­gu­lar­i­dades. Essa foi uma das críti­cas feitas pelo con­sul­tor de aces­si­bil­i­dade, pro­du­tor cul­tur­al, ilustrador e gestor Clau­dio Rubi­no durante o even­to de lança­men­to do dos­siê.

Con­forme com­ple­men­tou a pesquisado­ra Mar­i­ana Oliveira Arantes, “nem sem­pre os recur­sos são real­mente con­vida­tivos e disponíveis”, já que, exem­pli­fi­cou, pode ter sido insta­l­a­do um piso tátil para pes­soas cegas e com baixa visão, mas ele acabar con­duzin­do a uma parede, como ocorre com fre­quên­cia. Out­ro pon­to salien­ta­do por ela é a neces­si­dade de se com­preen­der a aces­si­bil­i­dade não como uma questão mera­mente téc­ni­ca, e sim estéti­ca, simul­tane­a­mente, moti­vo pelo qual está em expan­são o con­tin­gente de artis­tas e ativis­tas da cul­tura def.

O dos­siê do IC expli­ca que a cul­tura def é uma expressão cun­ha­da por eles e que visa val­orizar as exper­iên­cias e a diver­si­dade de cor­pos e capaci­dades das pes­soas com defi­ciên­cia, trans­for­man­do-as em insumo, no âmbito da cul­tura. O relatório ain­da atu­al­iza ter­mos como “inclusão”. Rubi­no esclarece que, ao se usar a palavra “inclusão”, pres­supõe-se que alguém é incluí­do e que out­ro alguém inclui, o que gera uma hier­ar­quiza­ção, algo opos­to ao que a cul­tura def propõe. A aspi­ração é à pro­moção da igual­dade tam­bém na esfera decisória, lutar para que elas ocu­pem não ape­nas pos­tos opera­cionais e de menor com­plex­i­dade, como comu­mente acon­tece, inclu­sive, na ini­cia­ti­va pri­va­da.

Para Rubi­no, que se con­soli­dou sua exper­tise tam­bém a par­tir de seu tra­bal­ho no Insti­tu­to Tomie Ohtake, os profis­sion­ais com defi­ciên­cia devem ter con­sciên­cia de que não podem batal­har soz­in­hos em suas orga­ni­za­ções para que isso se con­cretize.

“É um proces­so colab­o­ra­ti­vo e con­tín­uo, em que a gente assume riscos, que podem ser orga­ni­za­dos de uma for­ma que parece muito sim­ples, fácil, mas tem muito empen­ho, estru­tu­ra e orga­ni­za­ção”, disse, referindo-se à com­plex­i­dade e às nego­ci­ações que per­me­iam ini­cia­ti­vas como o dos­siê do IC.

Após con­hecer quase 200 equipa­men­tos cul­tur­ais da Grande São Paulo, Mar­i­ana Oliveira Arantes con­sta­tou que há tra­bal­ho a ser feito, em relação a mel­ho­ras no vocab­ulário e no repertório dos agentes cul­tur­ais. Um dos prob­le­mas que obser­vou foi a uti­liza­ção, por oficineiros, de nomen­clat­uras inad­e­quadas e ultra­pas­sadas, o caso de “alunos espe­ci­ais” ou “alunos com neces­si­dades espe­ci­ais”.

A his­to­ri­ado­ra, que reg­is­tra suas per­cepções e avali­ações sobre aces­si­bil­i­dade no site Mun­do em Con­ta, diz, ain­da, que os profis­sion­ais da cul­tura andam ansiosos com a mudança com que têm tido que lidar, de ven­tos mais favoráveis às pes­soas com defi­ciên­cia, uma vez que edi­tais de fomen­to estão tor­nan­do com­pul­sórias ações especí­fi­cas para elas ou, pelo menos, algo que vale pon­tu­ação nas seleções. “As pes­soas, os artis­tas, estão deses­per­a­dos, sem saber o que faz­er”, rela­ta ela, reprovan­do os que deix­am para pen­sar nis­so na últi­ma fase de seus pro­je­tos, car­ac­ter­i­zan­do uma “aces­si­bi­liza­ção um tan­to faju­ta”.

Ao par­tic­i­par do 1ª Con­gres­so Inter­na­cional sobre Defi­ciên­cia da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), real­iza­do na sem­ana pas­sa­da, Arantes con­fir­mou, pela fala de um docente da Esco­la Politéc­ni­ca da insti­tu­ição (Poli-USP), que em boa parte do tem­po as cir­cun­stân­cias adver­sas podem estar rela­cionadas à fal­ta de dis­posição e ao desin­ter­esse de quem não tem defi­ciên­cia, o que leva ao fra­cas­so de empre­itadas. Segun­do ela, o acadêmi­co con­tou que já se deparou com um armário lota­do de pro­je­tos empoeira­dos, o que cor­re­sponde à real­i­dade evi­den­ci­a­da em um estu­do que rev­el­ou que a maio­r­ia daque­les pen­sa­dos para pes­soas com defi­ciên­cia é inter­rompi­do no seu primeiro pro­tótipo, ou seja, em sua primeira fase de teste, não sendo, por­tan­to, final­iza­do.

Olho

“Aces­si­bil­i­dade depende muito mais de mudança de com­por­ta­men­to do que de ver­ba, estru­tu­ra”, opina a edu­cado­ra.

Ex-cole­ga de Clau­dio Rubi­no e ain­da fun­cionária do Insti­tu­to Tomie Ohtake, a espe­cial­ista em edi­toração Div­ina Pra­do comen­ta um pro­je­to desen­volvi­do pelos dois, dez anos atrás, que foi como uma lanter­na no cam­in­ho que foram pavi­men­tan­do des­de então. No desen­volvi­men­to do Bol­sa de Artista Tomie Ohtake, procu­raram pro­duzir um mate­r­i­al educa­ti­vo, acol­her e tratar com a mes­ma dig­nidade cri­anças com e sem defi­ciên­cia. Foi con­ce­bido um jogo que con­vo­ca­va à ação cole­ti­va e à indi­vid­ual, com toda uma parafer­nália bas­tante essen­cial para a pro­pos­ta, de cader­no, livro ilustra­do sobre a história da artista, audiode­scrição, papel, tin­ta, tela e pincéis. O princí­pio de tudo isso foi a exposição Tomie Ohtake 100 101, que ficou em car­taz no insti­tu­to que leva seu nome, de abril a jun­ho de 2015.

Pelo pro­je­to, pilo­to e com grande número de cri­anças com defi­ciên­cia visu­al, ambos apren­der­am, de cer­ta for­ma, um méto­do, con­stan­te­mente ren­o­va­do a cada meta que se pre­tende atin­gir. A pos­tu­ra ant­i­ca­paci­tista, pon­tua Pra­do, admite a com­bi­nação de ele­men­tos como a inserção de tex­turas, a descrição de ambi­entes que não são famil­iares para todos que estão em con­ta­to com as obras e a con­strução de pais­agens sono­ras.

No caso da Bol­sa de Artista, atribuíram a mes­ma relevân­cia ao CD com a pais­agem sono­ra e à ser­ragem para mis­tu­rar na tin­ta.

“Na época, usa­va-se o CD. Isso tam­bém é uma dis­cussão desse cam­po. A gente tem que estar acom­pan­han­do as tec­nolo­gias. Hoje a gente usa o QR Code. Daqui a um tem­po, isso vai estar obso­le­to”, reflete Pra­do, que, naque­le momen­to, havia acaba­do de chegar ao insti­tu­to, para atu­ar na equipe respon­sáv­el pela função educa­ti­va. “Pouco tem­po depois eu come­cei a con­stru­ir os mate­ri­ais educa­tivos e o primeiro deles já foi feito com a par­tic­i­pação de pes­soas con­vi­dadas, pro­fes­sores, edu­cadores, estu­dantes.”

A espe­cial­ista men­ciona dois destaques do insti­tu­to nes­sa área, deste ano. O primeiro deles é Cader­no-ensaio 3: Povo, para o qual os profis­sion­ais pararam para enten­der que sons reme­tem à ideia de povo. “É algo que jun­ta cri­ança brin­can­do, gente pisan­do no chão, água fer­ven­do, algo que é povo qual­quer lugar do mun­do”, diz ela.

O out­ro moti­vo de orgul­ho de Pra­do, idên­ti­ca fer­ra­men­ta de aces­si­bil­i­dade, é o Palavra, vence­dor da cat­e­go­ria Pro­je­to Grá­fi­co, no Eixo Pro­dução Edi­to­r­i­al do Prêmio Jabu­ti. Nesse caso, optaram por instru­men­tos de cor­da, “um pouco de voz, um pouco de can­to guarani”.

“Existe um proces­so de cir­cu­lar­i­dade, que é uma ten­ta­ti­va de faz­er com que isso fique mais agradáv­el para a pes­soa ouvir, para a pes­soa com defi­ciên­cia visu­al, para a pes­soa não alfa­bet­i­za­da, para a pes­soa que está atrav­es­san­do a cidade num trem lota­do e não quer car­regar o livro, mas vai poder ir escu­tan­do isso. O livro tem tam­bém audiode­scrição de todas as ima­gens e que pen­sa numa sen­si­bil­i­dade estéti­ca e con­sid­era tam­bém out­ros ele­men­tos que estão ali, enten­den­do que isso é uma fer­ra­men­ta de medi­ação edi­to­r­i­al. É para todas as pes­soas.”

Tra­ta-se de “con­vi­dar cada pes­soa a ler do seu jeito”. “Você pode ouvir, ler, ler ouvin­do, ouvir só a pais­agem sono­ra. São muitas entradas pos­síveis. Isso é um dese­jo de pen­sar tam­bém num, dig­amos, hábito con­tem­porâ­neo de leitu­ra”, final­iza Pra­do.

O Dos­siê Aces­si­bil­i­dade ficará disponív­el no site do IC.

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