...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Efemérides, Meios de comunicação / “Mesmo com vice negra, somos oprimidas”, diz escritora colombiana

“Mesmo com vice negra, somos oprimidas”, diz escritora colombiana

Repro­dução: © Djamel Kadi/ Divul­gação

Jornalista Edna Liliana Valencia lança o livro O Racismo e Eu


Pub­li­ca­do em 11/07/2023 — 07:21 Por Luiz Cláu­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

ouvir:

A escrito­ra e jor­nal­ista colom­biana Edna Lil­iana Valen­cia, de 37 anos de idade, apre­sen­tou, no últi­mo fim de sem­ana, no Fes­ti­val Latinidades, em Brasília, o seu recém-lança­do livro El Racis­mo Y Yo (O Racis­mo e Eu). 

Além de escrito­ra, Edna atua como respon­sáv­el pelo setor de impren­sa da vice-presidên­cia da Colôm­bia. Inclu­sive, a vice-pres­i­dente é uma mul­her negra, Fran­cia Márquez.

“Temos uma vice-pres­i­dente rur­al, negra e mul­her (…). Mes­mo estando no poder ou ten­do nele uma rep­re­sen­tação históri­ca, con­tin­u­amos sendo vio­len­tadas, oprim­i­das, dis­crim­i­nadas, excluí­das, mar­gin­al­izadas e assas­si­nadas impune­mente”, denun­cia.

Vivências

O “eu” do títu­lo do livro de Edna tem relação com o fato que ela mer­gul­hou em vivên­cias dis­crim­i­natórias que enfren­tou ao lon­go da vida, mas tam­bém bus­ca esmi­uçar impactos do racis­mo (que é diário) na vida  de out­ras mul­heres negras. Edna foi recon­heci­da na Colôm­bia como ânco­ra do canal France 24.

Em relação a sua vivên­cia, a escrito­ra expli­ca que des­de cri­ança ver­i­fi­cou que seria necessário descon­stru­ir padrões estéti­cos que rece­bia em que o con­ceito de beleza seria asso­ci­a­do à imagem de pes­soas bran­cas que os colom­bianos rece­bi­am da Europa.

Depois, como jor­nal­ista, enten­deu que sua mis­são dev­e­ria ser de con­sci­en­ti­zar cole­gas, pes­soas entre­vis­tadas e tam­bém o públi­co sobre vio­lên­cias explíc­i­tas e sutis. “O racis­mo aca­ba se man­i­fe­s­tando por meio até de sutil con­de­scendên­cia, sub­or­di­nação, estereóti­pos e fal­ta de empa­tia”, afir­ma em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Legislação evoluiu, mas…

A escritora colombiana Edna Liliana Valencia Murillo. Foto:Divulgação
Repro­dução: A escrito­ra colom­biana Edna Lil­iana Valen­cia Muril­lo — Divul­gação

A jor­nal­ista con­sid­era que a leg­is­lação na Colôm­bia e no restante da Améri­ca Lati­na tem evoluí­do para reduzir a vul­ner­a­bil­i­dade de mul­heres negras, mas que ain­da não tem sido o sufi­ciente.

“Da mes­ma for­ma, exis­tem fer­ra­men­tas insti­tu­cionais e orga­ni­za­cionais que con­tribuem para a luta, mas ain­da esta­mos longe de garan­tir dire­itos para a maio­r­ia de nós”, enfa­ti­za.

Ela diz que o racis­mo no ambi­ente jor­nalís­ti­co é tão comum como em qual­quer out­ro espaço profis­sion­al. um retra­to do racis­mo estru­tur­al mar­cante das Améri­c­as.

A escrito­ra entende que o sis­tema racista é dom­i­nante nas sociedades atu­ais. “Os sis­temas racista e patri­ar­cal são globais”, assi­nala.

Para ela, o papel da mídia é o de denun­ciar e edu­car diari­a­mente e ser efe­ti­va­mente antir­racista. “A mídia deve nos ensi­nar a desapren­der os par­a­dig­mas de dis­crim­i­nação que apren­demos com a edu­cação tradi­cional”, garante.

Entrevista

Con­fi­ra abaixo tre­chos da entre­vista que a escrito­ra con­cedeu à Agên­cia Brasil.

Agên­cia Brasil — Gostaria de saber o quão auto­bi­ográ­fi­co e jor­nalís­ti­co é o seu livro. Ess­es ele­men­tos são mis­tu­ra­dos?
Edna Lil­iana Valen­cia — De fato, meu livro Racis­mo e Eu traz uma mis­tu­ra entre ele­men­tos auto­bi­ográ­fi­cos, per­iódi­cos, nar­ra­tivos e poéti­cos. Devo diz­er que não é uma biografia pro­pri­a­mente dita porque não se tra­ta de con­tar detal­h­es da min­ha vida.

Ao con­trário, tra­ta-se de relatar episó­dios especí­fi­cos da min­ha vida com o obje­ti­vo de lançar luz sobre os impactos do racis­mo na vida das mul­heres negras sob difer­entes pon­tos de vista.

Quan­to à parte jor­nalís­ti­ca, inclui arti­gos, entre­vis­tas e refer­ên­cias históri­c­as que sus­ten­tam a nar­ra­ti­va e apor­tam difer­entes vozes ao tex­to. E os poe­mas que se inter­calam com os difer­entes capí­tu­los são o toque artís­ti­co deste livro que é muito infor­ma­ti­vo e muito fácil de ler.

Agên­cia Brasil — Como jor­nal­ista, você já enfren­tou racis­mo em sua car­reira? Com cole­gas ou com fontes?
Edna Lil­iana Valen­cia - Diari­a­mente. O racis­mo está pre­sente no exer­cí­cio jor­nalís­ti­co tan­to quan­to em qual­quer out­ra área do con­hec­i­men­to. Meus cole­gas jor­nal­is­tas muitas vezes, con­sciente ou incon­scien­te­mente, deix­am escapar expressões racis­tas. Inclu­sive, repro­duzem essas expressões nas reporta­gens que colo­cam no ar ou nas redações. Ain­da mais quan­do nor­mal­mente ten­ho sido a úni­ca ou uma das pou­cas jor­nal­is­tas afro nas mídias em que atuei, o que tam­bém demon­stra um racis­mo estru­tur­al ain­da mais den­so do que o racis­mo cotid­i­ano. O mes­mo vale para fontes e audiên­cias. Mes­mo na atribuição de tópi­cos e funções. O racis­mo aca­ba se man­i­fe­s­tando por meio até de sutil con­de­scendên­cia, sub­or­di­nação, estereóti­pos e fal­ta de empa­tia.

Agên­cia Brasil - Qual é a situ­ação atu­al das mul­heres negras em Bogotá e na Colôm­bia em ger­al? Elas são mais vul­neráveis ​​do que as mul­heres bran­cas?
Edna Lil­iana Valen­cia — Claro, as mul­heres afro-colom­bianas con­tin­u­am vul­neráveis ​​em com­para­ção com as mul­heres bran­cas e qual­quer out­ro sujeito sociopolíti­co. É uma real­i­dade impos­sív­el de mudar hoje onde nos­sas vidas con­tin­u­am sendo impactadas por um sis­tema racista que dom­i­na tudo. Temos hoje uma vice-pres­i­dente rur­al, negra e mul­her e vários min­istros afro-colom­bianos e out­ras irmãs no con­gres­so da Repúbli­ca, o país está demon­stran­do com força o quão racista e vio­len­to pode ser. Mes­mo estando no poder ou ten­do nele uma rep­re­sen­tação históri­ca, con­tin­u­amos sendo vio­len­ta­dos, oprim­i­dos, dis­crim­i­na­dos, excluí­dos, mar­gin­al­iza­dos e assas­si­na­dos impune­mente.

Agên­cia Brasil -. A leg­is­lação na Colôm­bia evoluiu para pro­te­ger as mul­heres negras?
Edna Lil­iana Valen­cia — Não podemos negar que, hoje, temos fer­ra­men­tas que antes não tín­hamos. Existe a lei antidis­crim­i­nação (número 1482 do ano de 2011) que dev­e­ria nos pro­te­ger tan­to pelo fator racial quan­to pelo fator patri­ar­cal. Exis­tem tam­bém out­ras leis con­tra fem­i­nicí­dio e maus-tratos. Da mes­ma for­ma, exis­tem fer­ra­men­tas insti­tu­cionais e orga­ni­za­cionais que con­tribuem para a luta, mas ain­da esta­mos longe de garan­tir dire­itos para a maio­r­ia de nós.

Agên­cia Brasil —  Como foi o proces­so de escri­ta do seu livro? Quan­to tem­po lev­ou?
Edna Lil­iana Valen­cia — Foi um proces­so muito ecléti­co, acon­te­ceu em partes às vezes e como um todo em out­ras. A primeira coisa que ficou pronta e reg­istra­da do livro foram os poe­mas. No entan­to, eles não são todos da mes­ma época. Algu­mas poe­sias foram escritas há muitos anos, quan­do tin­ha 14 anos ou out­ras quan­do tin­ha 25. Out­ras escrevi especi­fi­ca­mente para o livro e até hou­ve algu­mas que ficaram de fora e isso me deixa muito triste. Espero pub­licá-los em livros futur­os.

Agên­cia Brasil - Você entende que os desafios das mul­heres negras na Colôm­bia, no Brasil e na Améri­ca Lati­na são semel­hantes?
Edna Lil­iana Valen­cia — Sem dúvi­da são semel­hantes, mes­mo em difer­entes país­es africanos e em con­tex­tos diaspóri­cos do norte glob­al, as mul­heres inter­sec­cionais viven­ci­am real­i­dades muito semel­hantes. E é óbvio porque o sis­tema racista e o sis­tema patri­ar­cal são globais. No entan­to, tam­bém exis­tem condições par­tic­u­lares em cada país e em cada região. Tam­pouco seria saudáv­el homo­geneizar e perder de vista as histórias nacionais pas­sadas e pre­sentes (de cada país).

Agên­cia Brasil — Qual é o papel dos jor­nal­is­tas e da mídia na luta con­tra o racis­mo?
Edna Lil­iana Valen­cia — Tornar visív­el, rep­re­sen­tar, denun­ciar, edu­car, rela­cionar. Ser a memória viva do movi­men­to antir­racista inter­sec­cional afro­fem­i­nista. Nos­so papel é essen­cial para o desen­volvi­men­to dessa trans­for­mação tão necessária da sociedade glob­al. A mídia deve nos ensi­nar a desapren­der os par­a­dig­mas de dis­crim­i­nação que apren­demos com a edu­cação tradi­cional. No entan­to, devo diz­er que esta­mos longe dessa real­i­dade. Emb­o­ra exis­tam cada vez mais meios de comu­ni­cação fem­i­nistas, a mídia tradi­cional ain­da é mais nos­sa inimi­ga do que nos­sa ami­ga. Eles ain­da não têm con­sciên­cia (dire­tores e fun­cionários) do impor­tante papel que têm nesse momen­to históri­co, por isso, con­sci­en­ti­zar tam­bém faz parte da nos­sa mis­são.

Edição: Kle­ber Sam­paio

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d