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Milhões de brasileiros têm dificuldades de pagar suas dívidas

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Quase 64% dos inadimplentes devem aos bancos


Pub­li­ca­do em 27/05/2023 — 07:15 Por Vitor Abdala — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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A mer­cado­ria que garante o gan­ha-pão de Guil­herme Nogueira fica todos os dias, de segun­da a sex­ta-feira, espal­ha­da pelo chão de uma calça­da na rua Urugua­iana, no cen­tro da cidade do Rio de Janeiro. O jovem, de 28 anos, tin­ha um emprego for­mal, com carteira assi­na­da até 2020. 

Com a chega­da da pan­demia de covid-19, ele foi demi­ti­do e, des­de então, tem que se virar como pode, para garan­tir o seu sus­ten­to e o de seu fil­ho. Atual­mente, vende mochi­las que ficam expostas em uma lona para pes­soas que tran­si­tam pela movi­men­ta­da rua car­i­o­ca.

“Tem dia que vende, tem dia que não vende. Tem dia que vende cin­co, oito mochi­las. Em out­ros, vende duas. É difí­cil, os guardas [munic­i­pais] querem pegar [apreen­der] as mochi­las”, lamen­ta Guil­herme.

A per­da do emprego tam­bém o envolveu em uma situ­ação que atinge hoje 66 mil­hões de brasileiros, segun­do dados da Con­fed­er­ação Nacional de Diri­gentes Lojis­tas (CNDL): o jovem não con­segue pagar suas con­tas.

Sem uma fonte de ren­da estáv­el, Guil­herme não con­segue sal­dar suas dívi­das com o cartão de crédi­to. “Eu não tin­ha condições de pagar o ban­co. Fiz um cartão de crédi­to e não tin­ha din­heiro na hora pra pagar. Ten­ho dívi­das com cartão de dois ban­cos”, con­ta. “Não ten­ho nen­hum plano para con­seguir pagar isso. Está difí­cil”.

A inadim­plên­cia, ou seja, as con­tas ou dívi­das em atra­so, atinge, segun­do o CNDL, qua­tro entre dez brasileiros adul­tos.

O número de dívi­das em atra­so no Brasil, em abril deste ano, cresceu 18,42% em relação ao mes­mo perío­do do ano pas­sa­do. A dívi­da com os ban­cos é, segun­do o CNDL, o prin­ci­pal moti­vo da inadim­plên­cia: 63,8% do total.

E, assim como Guil­herme, em média os brasileiros inadim­plentes devem a duas empre­sas. Quase metade dos brasileiros na faixa etária a qual per­tence o vende­dor ambu­lante (25 a 29 anos) estão na inadim­plên­cia.

Rio de Janeiro (RJ), 23/05/2023 – O engraxate José Raimundo em seu ponto de trabalho, na Rua Uruguaiana, no centro da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 23/05/2023 – O engrax­ate José Raimun­do em seu pon­to de tra­bal­ho, na Rua Urugua­iana, no cen­tro da cap­i­tal flu­mi­nense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Mas não são ape­nas os jovens que enfrentam o prob­le­ma, nem os ban­cos são a úni­ca fonte das dívi­das difí­ceis de pagar. Seu José Raimun­do, de 67 anos, tam­bém é autônomo. Tra­bal­ha há anos como engrax­ate, a poucos met­ros de onde Guil­herme vende suas mochi­las.

E assim como o cole­ga vende­dor, foi muito impacta­do pela pan­demia. Ain­da sem con­seguir con­tar com uma aposen­ta­do­ria – ele deu entra­da no Bene­fí­cio Assis­ten­cial ao Idoso, mas ain­da não rece­beu o aval da Pre­v­idên­cia Social para rece­ber o din­heiro – ele perdeu grande parte da clien­tela que usa­va seus serviços antes da covid-19.

“Só por causa da pan­demia, fiquei quase dois anos em casa. Depois fiquei doente, sem poder faz­er nada. Fiquei três anos e pouco sem tra­bal­har. E aí foi atrasan­do tudo. Min­ha mul­her soz­in­ha pagan­do tudo: água, luz, tele­fone. O que eu mais atra­sei foi a con­ta de água. Na hora que sair o bene­fí­cio [da Pre­v­idên­cia], eu vou con­ver­sar com a con­ces­sionária e parce­lar. Não quero ficar deven­do nada a ninguém. Não ten­ho essa índole de mau pagador”, con­ta o engrax­ate que reto­mou recen­te­mente seu ofí­cio.

Três em qua­tro idosos com 65 a 84 anos estão com dívi­das em atra­so no país. Água e luz respon­dem por 11,1% das inadim­plên­cias, per­centu­al pare­ci­do com o do comér­cio, que rep­re­sen­ta 11,6% das dívi­das não pagas.

E a inadim­plên­cia não poupa nem quem tem emprego for­mal. Alessan­dro Gonçalves tem 30 anos e tra­bal­ha como porteiro em um pré­dio com­er­cial no cen­tro da cidade do Rio.

Todo mês, ele pre­cisa faz­er mal­abaris­mos para garan­tir que seu din­heiro supra suas neces­si­dades diárias. E isso envolve atrasar o paga­men­to de algu­mas con­tas. “É aque­la difi­cul­dade rotineira. Você tem uma con­ta pra pagar e não con­segue. Chega no final do mês, pega o din­heiro pra pagar a con­ta e não con­segue. O salário nos­so, a gente faz uma con­ta e, quan­do chega no final do mês, não dá pra pagar. E aí a gente tem que atrasar as con­tas”.

Máquina de cartão crédito e débito
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 23/05/2023 – O engrax­ate José Raimun­do em seu pon­to de tra­bal­ho, na Rua Urugua­iana, no cen­tro da cap­i­tal flu­mi­nense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Renda

Segun­do Meru­la Borges, espe­cial­ista em finanças da CNDL, a per­da de ren­da é um dos motivos que lev­am as pes­soas à inadim­plên­cia.

“Na pesquisa, quan­do as pes­soas foram per­gun­tadas sobre o moti­vo de elas terem entra­do na inadim­plên­cia, elas dis­ser­am que tiver­am per­da de ren­da ou de si próprios, ou de alguém da família”, afir­ma Meru­la. “Isso é nat­ur­al já que, quan­do a ren­da é menor, o espaço que os itens bási­cos ocu­pam no orça­men­to famil­iar é maior e as pes­soas têm menos pos­si­bil­i­dade de lidar com algum impre­vis­to que acon­teça”.

Segun­do a espe­cial­ista, quem tem ren­da menor tam­bém pre­cisa de mais dis­ci­plina finan­ceira para evi­tar a inadim­plên­cia.

“Existe, sim, uma pos­si­bil­i­dade de as pes­soas se man­terem adim­plentes, ape­sar da ren­da mais baixa, mas é muito mais difí­cil. Então, o foco daque­le que tem uma ren­da menor pre­cisa ser em mel­ho­rar a qual­i­fi­cação, procu­rar cur­sos gra­tu­itos, pos­si­bil­i­dades de mel­ho­rar a própria ren­da para entrar em uma situ­ação um pouco mais con­fortáv­el”.

Meru­la diz que são necessárias políti­cas públi­cas que aju­dem os brasileiros a saírem dessa situ­ação de inadim­plên­cia. O gov­er­no fed­er­al prepara um pro­gra­ma, chama­do Desen­ro­la, que pre­tende rene­go­ciar até R$ 50 bil­hões em dívi­das de 37 mil­hões de pes­soas físi­cas.

A políti­ca está sendo prepara­da pelo Min­istério da Fazen­da, que, em respos­ta à Agên­cia Brasil, afir­mou que “não se man­i­fes­ta sobre medi­das em elab­o­ração”.

Edição: Kel­ly Oliveira

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