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Pesquisadora descobre floresta fossilizada de 290 milhões de anos

Repro­dução: © Tham­my Mottin/Arquivo pessoal/Divulgação

Achado no Paraná mostra vegetação da era da separação dos continentes


Pub­li­ca­do em 25/06/2022 — 08:45 Por Pedro Peduzzi — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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Uma pesquisa desen­volvi­da pela Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Paraná (UFPR) pos­si­bil­i­tou à ciên­cia abrir uma janela para via­jar no tem­po e estu­dar uma flo­res­ta com­pos­ta por 164 árvores de cer­ca de 290 mil­hões de anos, quan­do o mun­do começa­va a ter os con­ti­nentes divi­di­dos, em uma tran­sição da deri­va con­ti­nen­tal entre os perío­dos do mega­con­ti­nente Pangeia e o anti­go pale­o­con­ti­nente Gond­wana.

A flo­res­ta era for­ma­da por árvores de uma lin­hagem chama­da licó­fi­tas de Ortigueira, plan­tas que medi­am até 18 met­ros e cres­ci­am em áreas fre­quente­mente inun­dadas por água sal­ga­da.

A descober­ta, fei­ta durante uma pesquisa de doutora­do da estu­dante do Pro­gra­ma de Pós-Grad­u­ação em Geolo­gia da UFPR Tham­my Ellin Mot­tin, foi pub­li­ca­da no per­iódi­co Palaeo­geog­ra­phy, Palaeo­cli­ma­tol­ogy, Palaeoe­col­o­gy.

Em nota pub­li­ca­da pela fed­er­al do Paraná, a pesquisado­ra diz que as árvores encon­tradas fos­silizadas “estão preser­vadas den­tro da rocha da exa­ta maneira em que vivi­am”, guardan­do as car­ac­terís­ti­cas de um ecos­sis­tema que exis­tia há cer­ca de 290 mil­hões de anos.

Posição original

Tham­my acres­cen­ta que os fós­seis encon­tra­dos apre­sen­tam plan­tas preser­vadas na posição orig­i­nal (ver­ti­cal), o que é con­sid­er­a­do algo extrema­mente raro, “espe­cial­mente no pale­o­con­ti­nente Gond­wana”.

Segun­do a UFPR, até hoje, só há rela­to de mais dois locais com plan­tas da lin­hagem preser­vadas des­ta for­ma. Um dess­es locais é na Patagô­nia argenti­na e out­ro, no Rio Grande do Sul, “regiões em que o número de licó­fi­tas é bem menor e cujos caules se encon­tram defor­ma­dos ver­ti­cal­mente”.

De acor­do nota divul­ga­da pela uni­ver­si­dade, as licó­fi­tas de Ortigueira recém-descober­tas não estão com­prim­i­das como as de out­ros lugares, o que per­mite “uma recon­strução da plan­ta com mais fidel­i­dade”, pro­por­cio­nan­do noções mais pre­cisas sobre como essas árvores eram dis­tribuí­das no ter­reno, bem como sobre a quan­ti­dade de plan­tas por hectare, a relação delas entre si e sua inter­ação com o ambi­ente, entre out­ros aspec­tos.

Tham­my acres­cen­ta que o sis­tema de raízes das árvores encon­tradas nun­ca havia sido descrito em licó­fi­tas do Gond­wana. “O sis­tema de raízes for­ma lobos que partem da base dos caules, cuja função seria a ancor­agem da plan­ta no sub­stra­to.”

Ela desta­ca que, ao asso­ciar o estu­do com out­ros tra­bal­hos cien­tí­fi­cos, foi pos­sív­el, aos pesquisadores brasileiros, recon­stru­ir o ambi­ente em que a flo­res­ta viveu e a for­ma como as plan­tas mor­reram. A flo­res­ta era ban­ha­da pelo anti­go Oceano Pan­tha­las­sa, em uma região costeira que sofria influên­cia da água doce dos rios e da água sal­ga­da do mar.

Inundação

As plan­tas vivi­am nes­sa tran­sição entre ter­ra e mar, em algo semel­hante ao que seria uma região de manguezal. “Elas ocu­pavam um sub­stra­to fre­quente­mente inun­da­do”, expli­ca a pesquisado­ra. Fortes chu­vas, então, causaram uma inun­dação flu­vial, com o trans­bor­da­men­to da água dos rios, even­to que con­tém, além de água doce, grande quan­ti­dade de sed­i­men­tos, entre partícu­las de areia e argi­la.

“Pre­sume-se que os sed­i­men­tos foram cobrindo as árvores pro­gres­si­va­mente, levan­do à asfix­ia e à com­pressão das raízes. O soter­ra­men­to con­tin­u­ou até o pon­to em que a parte supe­ri­or das licó­fi­tas colap­sou, deixan­do expos­ta parte do caule. A parte inte­ri­or do caule foi sendo removi­da pela ação da água e foi preenchi­da por sed­i­men­tos que ain­da chegavam e que ter­mi­naram por soter­rar com­ple­ta­mente a flo­res­ta”, detal­ha a doutoran­da.

De acor­do com Tham­my, supõe-se que todo esse proces­so ocor­reu rap­i­da­mente no tem­po geológi­co, em questão de dias ou poucos anos, enquan­to um proces­so de fos­siliza­ção em condições nor­mais cos­tu­ma demor­ar mil­hares ou mil­hões de anos.

Piscar de olhos

“No tem­po geológi­co, esse perío­do de dias a poucos anos é com­paráv­el a um pis­car de olhos. Ness­es casos, o que vemos atual­mente nes­sa flo­res­ta é muito fidedig­no ao que era o ecos­sis­tema da época em que vivia”, expli­ca Tham­my.

Ela acres­cen­ta que as infor­mações obti­das por meio de plan­tas fos­silizadas podem rev­e­lar aspec­tos da evolução biológ­i­ca, datação e recon­sti­tu­ição da história geológ­i­ca da Ter­ra, ecos­sis­temas e cli­mas do pas­sa­do; e que muitas dessas infor­mações são difí­ceis de recu­per­ar pois, durante sua vida ou morte, as plan­tas colap­sam e são lev­adas para longe de seu habi­tat, per­den­do suas car­ac­terís­ti­cas orig­i­nais.

Nesse sen­ti­do, a veg­e­tação fos­siliza­da descober­ta no Paraná tor­na-se ain­da mais rel­e­vante “dev­i­do à sua rara fos­siliza­ção instan­tânea”, o que tor­na seus ele­men­tos extrema­mente fiéis. Assim, o acha­do aca­ba por aju­dar a traçar o cli­ma exis­tente na época, “demon­stran­do que uma impor­tante mudança climáti­ca ocor­reu naque­le perío­do, com a pas­sagem de uma forte glaciação para um perío­do de cli­ma mais quente, chama­do pós-glacial.”

Edição: Nádia Fran­co

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