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Saúde mental requer visibilidade trans além da transfobia

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Neste domingo é o Dia da Visibilidade Trans


Pub­li­ca­do em 29/01/2023 — 09:24 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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“De que tipo de vis­i­bil­i­dade esta­mos falan­do?”, ques­tiona a psicólo­ga Jaque­line Gomes de Jesus, uma mul­her trans negra, assim que é per­gun­ta­da sobre o tema em entre­vista à Agên­cia Brasil. Neste domin­go (29), Dia da Vis­i­bil­i­dade Trans, a pesquisado­ra da Esco­la Nacional de Saúde Públi­ca Sér­gio Arou­ca, da Fun­dação Oswal­do Cruz (ENSP/Fiocruz), aler­ta que a trans­fo­bia e a vio­lên­cia são uma real­i­dade que pre­cisa ser expos­ta, mas que a pro­moção da saúde men­tal requer que a visão da sociedade e da pop­u­lação trans sobre si mes­ma seja estim­u­la­da a ir além da denún­cia de que há um risco imi­nente de sofr­er vio­lên­cia, da fal­ta de aces­so ao mer­ca­do de tra­bal­ho e da baixa expec­ta­ti­va de vida.

Psicológa Jaqueline Gomes de Jesus coordena estudo internacional sobre saúde mental LGBTQIA+
Repro­dução: Psi­coló­ga Jaque­line Gomes de Jesus coor­de­na estu­do inter­na­cional sobre saúde men­tal LGBTQIA+ — Acer­vo pes­soal

“No Brasil, a vis­i­bil­i­dade trans tem sido muito pau­ta­da a par­tir de dados de vio­lên­cia letal. As pes­soas muitas vezes con­hecem a real­i­dade da pop­u­lação trans somente por essa lente do ‘somos do país que mais mata pes­soas trans no mun­do’, em ter­mos abso­lu­tos. Essa é a imagem que fica”, afir­ma a pesquisado­ra, que avalia que isso impacta a políti­ca públi­ca e a pro­dução de con­hec­i­men­to sobre a pop­u­lação trans.

“Geral­mente, as políti­cas públi­cas e como se pen­sa a pop­u­lação trans se reduzem a dados como ess­es, ou dados sobre a pre­cariedade lab­o­ral. Eles são fatos. Mas o que sig­nifi­ca só repro­duzir ess­es fatos?”

A pesquisado­ra coor­de­na no Brasil o estu­do glob­al SMILE (Saúde Men­tal de Mino­rias Sex­u­ais e de Gênero), que inves­ti­ga a saúde da pop­u­lação LGBTQIA+ em país­es de ren­da baixa e média e se debruça sobre dados do Brasil, Quê­nia e Viet­nã. Além dis­so, Jaque­line pre­side a Associação Brasileira de Estu­dos da Trans-Homo­cul­tura e tam­bém é pro­fes­so­ra de psi­colo­gia no Insti­tu­to Fed­er­al do Rio de Janeiro (IFRJ). Ela aler­ta que a visão úni­ca sobre a pop­u­lação trans como víti­ma da vio­lên­cia e exclusão tem um impacto severo sobre a saúde men­tal.

“Essas notí­cias con­stantes de vio­lên­cia e de assas­si­na­to e da lim­i­tação da expec­ta­ti­va de vida das pes­soas trans, prin­ci­pal­mente entre os jovens, isso tem um impacto dire­to na sui­cid­abil­i­dade, na exposição ao risco, e tam­bém em out­ros fatores como ansiedade”, expli­ca. “É impor­tante que criemos condições para que a pop­u­lação trans seja vista e tam­bém se veja de for­ma mais pos­i­ti­va, com expec­ta­ti­va de sair dessa condição de exposição ao risco de vio­lên­cia e de trans­fo­bia. E não ape­nas que seja visív­el nes­sa condição”, defende.

Jaque­line Gomes de Jesus reforça que essa mudança de foco não sig­nifi­ca escon­der a grave real­i­dade de vio­lên­cia da qual as pes­soas trans são víti­mas, mas sim recon­hecer a pop­u­lação trans na sua plu­ral­i­dade e na sua potên­cia, crian­do condições para que ela seja visív­el de out­ras maneiras.

“É ter a real­i­dade como um dado, mas cri­ar condições de vis­i­bil­i­dade para que as pes­soas trans pos­sam se ver em lugares potentes, trans­for­madores, e pos­sam ocu­par ess­es lugares e ser vis­tas na sociedade ness­es lugares. É isso que vai cri­ar saúde men­tal para a pop­u­lação trans na nos­sa cul­tura.”

Essa vira­da requer condições efe­ti­vas de aces­so da pop­u­lação trans aos espaços de comu­ni­cação, Justiça, saúde e out­ros não ape­nas como usuárias, mas como profis­sion­ais e pro­du­toras dess­es saberes, diz a psicólo­ga. Ela defende que haja ações afir­ma­ti­vas para a con­tratação de pes­soas trans no setor públi­co e pri­va­do, e tam­bém para aces­so aos espaços de for­mação e pro­dução de con­hec­i­men­to.

“Quan­tas pes­soas trans temos na impren­sa e nos meios de comu­ni­cação de for­ma ger­al pro­duzin­do con­teú­do enquan­to jor­nal­ista? Enquan­to comu­ni­cadores? Esta­mos crian­do ações afir­ma­ti­vas para ter­mos mais pesquisadores e pesquisado­ras trans? Nos­sos juízes, advo­ga­dos e médi­cos são pes­soas trans tam­bém? É pre­ciso um salto além.”

A data escol­hi­da para cel­e­brar o Dia da Vis­i­bil­i­dade Trans, 29 de janeiro, faz refer­ên­cia à mobi­liza­ção ocor­ri­da em 2004 na Câmara dos Dep­uta­dos, para a cam­pan­ha “Trav­es­ti e Respeito”, que lev­ou a um inédi­to ato de pes­soas trans no Con­gres­so Nacional. A pau­ta cen­tral, na época, era jus­ta­mente a pro­moção da saúde.

Depressão e ansiedade

A pesquisa com pop­u­lações LGBTQIA+ de difer­entes país­es per­mite a Jaque­line Gomes de Jesus enx­er­gar a trans­fo­bia como um fator que con­tribui de for­ma con­stante para casos de estresse pós-traumáti­co, depressão, ansiedade e suicí­dio. Mas cada país apre­sen­ta uma real­i­dade difer­ente, em que transtornos men­tais que já são mais preva­lentes na pop­u­lação em ger­al ou em gru­pos especí­fi­cos são reforça­dos no caso dos tran­sex­u­ais.

“Na pop­u­lação trans, a gente vê altas taxas de sui­cid­abil­i­dade, com ide­al­iza­ção, plane­ja­men­to e até exe­cução de casos de suicí­dio prin­ci­pal­mente entre home­ns trans, e, par­tic­u­lar­mente, negros. E isso con­verge que no Brasil tam­bém são os home­ns negros os que mais ten­tam se matar. Há con­vergên­cias em ter­mos de gênero e de con­tex­tos cul­tur­ais.”

O estu­do con­duzi­do há cin­co anos pelo grupo do qual a psicólo­ga brasileira faz parte bus­ca pro­duzir evidên­cias para trata­men­tos foca­dos na pop­u­lação LGBTQIA+. O tra­bal­ho é recon­hecer quadros de saúde men­tal especí­fi­cos dessa pop­u­lação e pro­por novas abor­da­gens.

“Fal­ta muito trata­men­to em saúde men­tal basea­do nos dados de cada cul­tura para questões como depressão, tris­teza, ansiedade, alcoolis­mo e várias questões que afe­tam a pop­u­lação LGBT. E aí a gente tira os dados para poder pen­sar em cada grupo por­menoriza­do.”

Fortalecimento

A pan­demia de covid-19 foi um perío­do de agrava­men­to de questões de saúde men­tal em muitos gru­pos pop­u­la­cionais, e a psicólo­ga Mar­celle Esteves, con­sel­heira e coor­de­nado­ra de saúde do Grupo Arco-Íris, viu de per­to que a pop­u­lação trans pas­sou por dores especí­fi­cas. A orga­ni­za­ção não gov­er­na­men­tal prestou assistên­cia psi­cológ­i­ca a 2.530 pes­soas durante a pan­demia, e, entre elas, 884 pes­soas trans.

“Foram momen­tos em que só quem esta­va olhan­do de frente e pôde ouvir sabe a dor de muitas pes­soas trans que inclu­sive pre­cis­aram voltar para os espaços de onde já tin­ham saí­do, voltar às suas famílias. E muitas pes­soas pre­cis­aram se descon­tru­ir enquan­to trans para poder per­manecer ness­es espaços e ter comi­da e onde morar. Foi um perío­do vio­len­to.”

A psicólo­ga, uma mul­her negra e cis­gênero, descreve o “novo nor­mal” a que a sociedade voltou depois dos perío­dos mais agu­dos da pan­demia como um “vel­ho anor­mal”. “Não sei para quem é novo. Para a pop­u­lação LGBT, pra pop­u­lação pre­ta, não tem nada de novo. Nada do que essas pop­u­lações pas­saram na pan­demia foi novo para eles. Eles já pas­savam isso, mas viven­cia­ram num grau hard”, diz ela. “A gente ain­da vê e vai ver durante um tem­po as seque­las desse perío­do em que muitas pes­soas viven­cia­ram a solidão.”

Mar­celle Esteves vê uma total con­vergên­cia entre a vis­i­bil­i­dade trans e a pro­moção da saúde men­tal, espe­cial­mente após a pan­demia. A psicólo­ga afir­ma que a a vis­i­bil­i­dade é tam­bém uma for­ma de for­t­alec­i­men­to men­tal para uma pop­u­lação que muitas vezes não tem acol­hi­men­to famil­iar e sofre dis­crim­i­nação em espaços como o edu­ca­cional. “Dar vis­i­bil­i­dade inter­sec­cional à pop­u­lação trans é tam­bém dar garan­tia de um proces­so de saúde como um todo e de cidada­nia ple­na para essa pop­u­lação”, diz. “Se eu não me vejo, eu não me recon­heço. Seu proces­so de iden­ti­fi­cação e recon­hec­i­men­to é parte de como você se olha no mun­do, de como você se percebe e percebe que tem out­ras pes­soas iguais a você. Se eu não me vejo e não me recon­heço, eu não exis­to, eu não estou. Ain­da fal­ta vis­i­bil­i­dade no sen­ti­do do per­tenci­men­to.”

Edição: Juliana Andrade

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