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Vale prevê mais 13 anos para eliminar barragens como Brumadinho

Repro­dução: © Cor­po de Bombeiros/Divulgação

Ainda este ano, 40% das estruturas estarão eliminadas


Pub­li­ca­do em 19/08/2022 — 07:32 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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O pro­gra­ma da Vale para elim­i­nar todas as suas bar­ra­gens con­struí­das pelo méto­do de altea­men­to a mon­tante pre­vê a con­clusão do proces­so até 2035. Há alguns meses, a min­er­ado­ra fir­mou acor­do com o Min­istério Públi­co de Minas Gerais (MPMG), con­cor­dan­do em pagar ind­eniza­ção de R$ 236 mil­hões por não cumprir os pra­zos definidos na Lei Estad­ual 23.291/2019, con­heci­da como Lei Mar de Lama Nun­ca Mais. O atu­al crono­gra­ma, apre­sen­ta­do à Agên­cia Brasil nes­ta sem­ana, indi­ca que 40% das estru­turas estarão elim­i­nadas ain­da este ano, mas, em alguns casos, os proces­sos deman­darão mais tem­po.

O méto­do de altea­men­to a mon­tante era uti­liza­do na bar­ragem da Vale que se rompeu em Bru­mad­in­ho (MG) em janeiro de 2019, cau­san­do 270 mortes e provo­can­do dev­as­tação ambi­en­tal. Anos antes, em 2015, out­ro desas­tre sim­i­lar já havia ocor­ri­do. Dezen­ove pes­soas mor­reram e dezenas­de  municí­pios mineiros e capix­abas ao lon­go da bacia do Rio Doce foram afe­ta­dos pela lama, que escoou após a rup­tura de uma bar­ragem con­struí­da com a mes­ma tec­nolo­gia pela min­er­ado­ra Samar­co, que tem como acionistas a própria Vale e a anglo-aus­traliana BHP Bil­li­ton.

Ao todo, o pro­gra­ma de descar­ac­ter­i­za­ção, cri­a­do em 2019 após a tragé­dia de Bru­mad­in­ho, englo­ba 30 estru­turas, das quais nove já foram elim­i­nadas: seis local­izadas em Minas Gerais e três no Pará. As 21 restantes estão todas em cidades mineiras, sendo que em três delas o proces­so dev­erá ser con­cluí­do ain­da este ano. A Vale ale­ga que cada estru­tu­ra é úni­ca e tem pecu­liari­dades que devem ser lev­adas em con­ta. Por isso, em alguns casos, o proces­so exige mais tem­po. No caso das bar­ra­gens que se encon­tram em nív­el críti­co, há um desafio adi­cional: tra­bal­har com equipa­men­tos não trip­u­la­dos, reti­ran­do tra­bal­hadores da área de risco.

Segun­do Frank Pereira, ger­ente exec­u­ti­vo do Pro­gra­ma de Descar­ac­ter­i­za­ção da Vale, há um esforço inédi­to de desen­volvi­men­to tec­nológi­co. “É algo que acon­te­ceu no pas­sa­do com as bar­ra­gens de ger­ação de ener­gia. O Brasil virou uma refer­ên­cia no mun­do. Pode ter certeza que, após Bru­mad­in­ho, tam­bém ser­e­mos refer­ên­cia em bar­ragem de min­er­ação. Isso vai acon­te­cer por causa do escrutínio, do jul­ga­men­to da engen­haria, da crit­i­ci­dade que esta­mos colo­can­do em cima dis­so. Não só a Vale, mas a indús­tria de min­er­ação como um todo”, disse.

Agên­cia Brasil vis­i­tou o Cen­tro de Oper­ações Remo­tas, em Belo Hor­i­zonte, e a bar­ragem B3/B4 da Mina Mar Azul, em Nova Lima (MG), onde a tec­nolo­gia já está em uso. Tra­ta-se de uma das três estru­turas do país que se encon­tram no nív­el de emergên­cia 3, que sig­nifi­ca risco imi­nente de rup­tura. Atual­mente, ape­nas a Vale tem bar­ra­gens nes­sa situ­ação. As out­ras duas são a Sul Supe­ri­or, em Barão de Cocais (MG), e a Forquil­ha III, em Ouro Pre­to (MG), onde os tra­bal­hos de descar­ac­ter­i­za­ção tam­bém envolverão oper­ações remo­tas. Segun­do Frank Pereira, ain­da fal­ta con­cluir a lig­ação de fibra óti­ca entre o cen­tro de oper­ações e as duas estru­turas.

Na bar­ragem B3/B4, cam­in­hões, escav­adeiras e tra­tores são usa­dos diari­a­mente nos tra­bal­hos de reti­ra­da dos rejeitos. Ele são guia­dos de for­ma remo­ta pelos mes­mos fun­cionários que oper­avam essas máquinas. Os tra­bal­hadores par­tic­i­param de treina­men­tos teóri­cos e práti­cos e, atual­mente, movi­men­tam ao todo 20 equipa­men­tos. Segun­do Mar­cel Pacheco, ger­ente respon­sáv­el pela descar­ac­ter­i­za­ção da bar­ragem B3/B4, um dos desafios é a per­da de sen­si­bil­i­dade, já que no tra­bal­ho remo­to o oper­ador não sente as vibrações do veícu­lo.

Trabalhadores na obra do muro de contenção construído para eventual rompimento da Barragem B3/B4 em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte.
Repro­dução: Tra­bal­hadores na obra do muro de con­tenção con­struí­do para even­tu­al rompi­men­to da Bar­ragem B3/B4 em Nova Lima, região met­ro­pol­i­tana de Belo Hor­i­zonte. — Tomaz Silva/Agência Brasil

“Não há aque­la per­cepção de que vai ato­lar. Quan­do ele percebe, já atolou. Então pre­cisamos faz­er diver­sas adap­tações porque remover o veícu­lo dá tra­bal­ho. Já cri­amos dis­pos­i­tivos para isso, para atre­lar out­ro cam­in­hão não trip­u­la­do ao que está ato­la­do. Mas é uma oper­ação com­plexa que pode estra­gar o equipa­men­to. Então temos que ser mais con­ser­vadores. Para que eles não que­brem, a manutenção é con­stante. Eu não pos­so, por exem­p­lo, cor­rer o risco de um pneu furar. Ess­es pneus são preenchi­dos com um tipo de bor­racha que os deix­am mais maciços. São mel­ho­rias que fomos fazen­do a par­tir da exper­iên­cia que acu­mu­lam­os”, expli­ca.

Os oper­adores usam joy­sticks e grandes mon­i­tores cur­vos. Um pro­tótipo, sim­u­lan­do uma cab­ine de cam­in­hão com volante, chegou a ser desen­volvi­do e tes­ta­do, mas não foi bem avali­a­do. A ideia não está aban­don­a­da, e novos mod­e­los serão pro­duzi­dos. Atual­mente, a Vale con­sid­era que as oper­ações remo­tas alcançam 60% da pro­du­tivi­dade das oper­ações pres­en­ci­ais. A min­er­ado­ra tra­bal­ha para chegar aos 100%, mas um dos desafios é o vol­ume de trans­mis­são de dados. Isso porque qual­quer atra­so de cin­co segun­dos pode resul­tar na col­isão entre cam­in­hões e escav­adeiras. Existe a expec­ta­ti­va de que as condições mel­horem com a con­clusão da implan­tação do 5G no Brasil.

Quan­do necessário, anális­es e sonda­gens do solo ou da estru­tu­ra tam­bém são real­iza­dos com equipa­men­tos oper­a­dos de for­ma remo­ta. “Cri­amos estru­turas para entrar com segu­rança quan­do é necessário. Por exem­p­lo, recen­te­mente um eletricista entrou para insta­lar uma bom­ba de água. Opera com cabos. Já usamos helicóptero”, diz Mar­cel.

A promes­sa da Vale é de que a tec­nolo­gia em desen­volvi­men­to já é um prenún­cio da min­er­ação do futuro, mais segu­ra. “É um tra­bal­ho pio­neiro no mun­do. E não servirá ape­nas para descar­ac­ter­i­za­ção de bar­ra­gens. Poder­e­mos usar essa tec­nolo­gia para out­ras ativi­dades da min­er­ação, afa­s­tan­do diver­sos riscos”, acres­cen­ta.

A con­clusão da descar­ac­ter­i­za­ção da bar­ragem B3/B4 está pre­vista para 2025. Segun­do a min­er­ado­ra, a esti­ma­ti­va leva em con­ta o tem­po necessário para o desen­volvi­men­to de nova tec­nolo­gia. Frank Pereira admite que o maior inves­ti­men­to em ino­vação e o aumen­to de sonda­gens e anális­es são con­se­quên­cias da tragé­dia de Bru­mad­in­ho. “A indús­tria da min­er­ação teve que ser mais cri­te­riosa. Tam­bém pas­sou a ser mais fis­cal­iza­da”, afir­mou.

Trabalhadores na obra do muro de contenção construído para eventual rompimento da Barragem B3/B4 em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte.
Repro­dução: Tra­bal­hadores na obra do muro de con­tenção con­struí­do para even­tu­al rompi­men­to da Bar­ragem B3/B4 em Nova Lima, região met­ro­pol­i­tana de Belo Hor­i­zonte. — Tomaz Silva/Agência Brasil
Operação da planta de filtragem de rejeitos do Complexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais
Repro­dução: Oper­ação da plan­ta de fil­tragem de rejeitos do Com­plexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais — Tomaz Silva/Agência Brasil

A lista de bar­ra­gens em situ­ação de emergên­cia cresceu após pente-fino impul­sion­a­do pela Agên­cia Nacional de Min­er­ação (ANM) e out­ros órgãos de con­t­role. Diver­sas bar­ra­gens perder­am suas declar­ações de esta­bil­i­dade, o que exige a par­al­isação e o aciona­men­to automáti­co do nív­el 1 de emergên­cia. Nos casos clas­si­fi­ca­dos como nív­el 2 ou 3, as min­er­ado­ras foram obri­gadas a orga­ni­zar a evac­uação de todo o perímetro que seria ala­ga­do em even­tu­al tragé­dia e reparar a pop­u­lação. Em muitos locais, moradores atingi­dos ain­da brigam judi­cial­mente por reparação.

Das 31 bar­ra­gens em situ­ação de emergên­cia no esta­do de Minas Gerais, uma per­tence à Arcelor­Mit­tal e uma à Com­pan­hia Siderúr­gi­ca Nacional (CSN). As out­ras 29 são de respon­s­abil­i­dade da Vale, incluin­do as três que se encon­tram atual­mente no nív­el 3. Com o avanço dos tra­bal­hos, a promes­sa da min­er­ado­ra é de que elas deixarão a mais alta clas­si­fi­cação de emergên­cia até 2025.

Acordos

Após a tragé­dia de Bru­mad­in­ho, a ANM edi­tou res­olução esta­b­ele­cen­do datas para a elim­i­nação de todas as bar­ra­gens erguidas pelo méto­do de altea­men­to a mon­tante: agos­to de 2021 para estru­turas ina­ti­vas e agos­to de 2023 para aque­las que ain­da estavam em oper­ação. As regras valiam para a min­er­ação em todo o país. Mas em Minas Gerais, o assun­to gan­hou trata­men­to especí­fi­co pela Lei Mar de Lama Nun­ca Mais. Aprova­da pela Assem­bleia Leg­isla­ti­va de Minas Gerais (ALMG), a leg­is­lação exi­gia a con­clusão de todo o proces­so em três anos.

O pra­zo se encer­rou em fevereiro, quan­do ape­nas sete das 54 bar­ra­gens desse tipo exis­tentes em Minas Gerais estavam com­ple­ta­mente descar­ac­ter­i­zadas. Diante do cenário, o MPMG procurou diver­sas min­er­ado­ras para esta­b­ele­cer novos com­pro­mis­sos, entre eles, o paga­men­to de ind­eniza­ções. Ape­nas três rejeitaram o acor­do e viraram alvo de ação judi­cial. Uma dessas min­er­ado­ras, a Ser­ra da For­t­aleza Min­er­ação e Met­alur­gia, já teve inclu­sive dec­re­ta­do o blo­queio de R$ 100 mil­hões de suas con­tas. A decisão foi toma­da para garan­tir recur­sos necessários à descar­ac­ter­i­za­ção da bar­ragem Dique 2, situ­a­da em For­t­aleza de Minas (MG).

O MPMG tam­bém tem cobra­do das min­er­ado­ras a adesão ao Padrão Glob­al da Indús­tria de Gestão de Rejeitos (GISTM, na sigla em inglês). Na sem­ana pas­sa­da, um ter­mo de com­pro­mis­so com esse obje­ti­vo foi assi­na­do com a Vale. Cri­a­do em 2020, o GISTM fixa 77 req­ui­si­tos com foco na segu­rança das pes­soas e do meio ambi­ente. Segun­do a Vale, até 2025 todas as suas estru­turas estarão em con­formi­dade com o GISTM.

Alternativas

Um movi­men­to que vem ocor­ren­do no Brasil é a adoção de méto­dos do empil­hamen­to a seco, con­heci­do tam­bém pela expressão em inglês dry stack­ing: a água fil­tra­da é reuti­liza­da no proces­so pro­du­ti­vo enquan­to o rejeito é dis­pos­to em pil­has, dis­pen­san­do assim o uso das bar­ra­gens. Essa alter­na­ti­va, emb­o­ra seja mais onerosa, tem se tor­na­do atraente em meio às mudanças na leg­is­lação ambi­en­tal brasileira. Muitas das grandes min­er­ado­ras que atu­am no país têm cam­in­hado nes­sa direção.

Uma das primeiras exper­iên­cias da Vale, de empil­hamen­to a seco, ocorre na Mina do Pico, no Com­plexo de Vargem Grande, em Itabir­i­to (MG). A estru­tu­ração da plan­ta de fil­tragem teve iní­cio em 2019 e foi con­cluí­da no ano pas­sa­do. O rejeito decor­rente da ativi­dade min­er­ado­ra é sep­a­ra­do: 70% são arenosos e encam­in­hados para a dis­posição em pil­has e os out­ros 30%, com­pos­tos por sed­i­men­tos ultra­fi­nos, são encam­in­hados para bar­ragem. “Temos todos os con­troles dessa pil­ha para todas as intem­péries pos­síveis”, afir­ma Haline Pai­va, ger­ente da usi­na de fil­tragem.

Operação da planta de filtragem de rejeitos do Complexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais
Repro­dução: Oper­ação da plan­ta de fil­tragem de rejeitos do Com­plexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais — Tomaz Silva/Agência Brasil

Em janeiro deste ano, no entan­to, um episó­dio na mina de Pau Bran­co, onde a min­er­ado­ra Val­lourec usa o sis­tema de dis­posição a seco, levan­tou um aler­ta. Após grande vol­ume de chu­vas, hou­ve trans­bor­da­men­to do dique que cap­ta a água que pas­sa pela pil­ha de rejeitos. O nív­el da água se elevou porque parte do mate­r­i­al empil­ha­do escor­re­gou para o reser­vatório.

“São coisas para se estu­dar. Essas pil­has estão começan­do a ser con­struí­das e vão atin­gir alturas con­sid­eráveis. Mas deve demor­ar algu­mas décadas para chegar­mos a esse cenário”, disse à Agên­cia Brasil na época o engen­heiro Mar­cos Mas­sao Futai, pro­fes­sor da Esco­la Politéc­ni­ca da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP). Segun­do ele, é pre­ciso apro­fun­dar os con­hec­i­men­tos.

“Inde­pen­den­te­mente do méto­do de dis­posição, ele pre­cisa ser bem pro­je­ta­do, bem con­struí­do, bem mon­i­tora­do e ser prepara­do para um dia fechar. Chega um momen­to em que é impos­sív­el colo­car mate­r­i­al. E aí podemos devolver para a sociedade, de for­ma que sejam áreas reuti­lizáveis. É pos­sív­el pre­v­er, por exem­p­lo que, depois do empil­hamen­to, seja con­struí­do um par­que com reveg­e­tação. Envolve um esforço amp­lo, não só da engen­haria”.

Operação da Fábrica de Blocos na Mina do Pico, produzidos a partir de rejeitos da mineração, no Complexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais.
Repro­dução: Oper­ação da Fábri­ca de Blo­cos na Mina do Pico, pro­duzi­dos a par­tir de rejeitos da min­er­ação, no Com­plexo Vargem Grande da Vale, em Minas Gerais. — Tomaz Silva/Agência Brasil

Out­ra apos­ta da Vale, que vem sendo desen­volvi­da em pro­je­to pilo­to na Mina do Pico, é a fab­ri­cação de blo­quetes que podem ser usa­dos em calça­men­to ou pavi­men­tação. Atual­mente são pro­duzi­das 4,3 mil peças por dia. Cada uma tem cer­ca de 37% de rejeito em sua com­posição, que leva ain­da areia e cimen­to. O tra­bal­ho é feito por seis mul­heres. Ape­sar de con­sid­er­ar inter­es­santes as ini­cia­ti­vas que reaproveitam o rejeito na con­strução civ­il, Futai avalia que elas só con­seguem dar des­ti­nação a um vol­ume pequeno do mate­r­i­al pro­duzi­do na min­er­ação.

Edição: Graça Adju­to

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