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Fafá de Belém: “Ouça o nosso povo, ele tem a solução”

Repro­dução: © Divul­gação

Cantora conversou com a reportagem da EBC durante evento no Pará


Pub­li­ca­do em 19/11/2023 — 11:46 Por Gésio Pas­sos — Repórter Rádio Nacional — Belém (PA)

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Cen­tro de Con­venções do Hangar, o maior de Belém, no Pará. O even­to Mer­ca­do das Indús­trias Cria­ti­vas do Brasil (MICBR) ocor­ria, em seu ter­ceiro dia, na sex­ta-feira (10), com as rodadas de negó­cios entre faze­dores da cul­tura que bus­cav­am com­prar ou vender seus pro­du­tos. Enquan­to cen­te­nas de atores, músi­cos, escritores bus­cav­am con­tratos, recur­sos para seus pro­je­tos, sur­preen­den­te­mente, aparece uma das maiores can­toras pop­u­lares do país: Fafá de Belém.

Na cidade que é seu berço, Fafá esta­va com Maíra Car­val­ho, pro­du­to­ra do pro­je­to de sua cinebi­ografia, que já havia con­ver­sa­do com dis­tribuido­ras e pro­du­toras pre­sentes, mas con­ta­va com apoio da can­to­ra na reunião mar­ca­da com o grupo Warn­er Media, um dos maiores do mun­do.

Maíra, que pro­duz­iu recen­te­mente o filme O Homem Cor­dial, do dire­tor Iberê Car­val­ho, expli­ca que a pro­dução ain­da está na fase de cap­tação de recur­sos para final­iza­ção do roteiro que vai con­tar o começo da car­reira de Fafá até as “Dire­tas Já”, quan­do a can­to­ra pas­sou a ser o ros­to e a voz da rede­moc­ra­ti­za­ção do país em 1984. Maíra afir­ma que a con­ver­sa com a Warn­er abriu óti­mas per­spec­ti­vas para o pro­je­to, ain­da em fase de pré-roteiro, na bus­ca por finan­ciadores.

Fafá atra­ia atenção por onde pas­sa­va. Toda de bran­co, com­bi­nan­do com os cabe­los da mes­ma cor e diver­sos colares, o sor­riso e a famosa risa­da da bele­nense de 67 anos tomavam con­ta do cen­tro de con­venções. Mas, mes­mo assim, antes de um almoço agen­da­do, ela abriu espaço para con­ver­sar com uma comi­ti­va de jor­nal­is­tas. Sem­pre com uma paixão con­ta­giante, Fafá falou sobre sua car­reira, pro­je­tos no cin­e­ma, mer­ca­do cul­tur­al e Amazô­nia. “Ouça o Ribeir­in­ho. Ouça o meni­no da flo­res­ta. Ouça, porque eles têm a solução”.

Cinebiografia

“Era um doc­u­men­tário, a princí­pio, e aí virou um filme inspi­ra­do na min­ha história. Ela [Maíra Car­val­ho, pro­du­to­ra] acha que pode falar com mui­ta gente do norte, do sul, que as histórias são as mes­mas. A xeno­fo­bia é o peso, é a medi­da erra­da, é o com­por­ta­men­to, todo mun­do que não per­tence, todo mun­do que não per­tence ao padrão. Então é o assé­dio, é o abu­so que você nem percebe.”

Fafá de Belém concede entrevista durante Mercado das Industrias Criativas do Brasil (MICBR), em Belém.
Repro­dução: Fafá de Belém defende o pro­tag­o­nis­mo do povo amazôni­da — Divul­gação

“Eu saí daqui há 18 anos e tive uma pes­soa muito impor­tante na min­ha vida, que foi o Rober­to San­tana [pro­du­tor musi­cal], foi o cara que me con­venceu a ser can­to­ra. Eu nun­ca pen­sei em ser can­to­ra. Eu sem­pre gostei de can­tar, mas que­ria ser psicólo­ga [risadas]. E ele veio aqui faz­er uma turnê com o Viní­cius e Toquin­ho. A gente se reu­nia de tarde, depois da esco­la, para tocar vio­lão. E ai ele entrou e disse assim: ‘você can­ta muito bem’. Ai falei para ele: eu sei [risadas]. Ele disse: ‘você é abu­sa­da, né’. Eu esta­va can­tan­do ‘Vapor Bara­to’. Eu podia ter sido can­to­ra ou psicólo­ga, mas Fafá de Belém foi ele que for­ma­tou. ‘Isso aqui é sua ver­dade fun­da­men­tal, você vai apren­der a diz­er não’”.

“Enfim, e essa meni­na [Maíra Car­val­ho] soube algu­mas histórias min­has e ago­ra trans­for­maram isso numa ficção basea­da na min­ha vida, mas que con­ta a história de uma meni­na que saiu do Norte e tudo que nós con­tin­u­amos enfrentan­do até hoje. E não muda. Pode ser do Norte, pode ser do Sul, tudo que não faz parte do que se está acos­tu­ma­do a ver”.

COP 2025

“Acho mar­avil­hoso esse even­to [MICBR], onde acho mar­avil­hoso o que teve da OTCA [Orga­ni­za­ção do Trata­do de Coop­er­ação Amazôni­ca], e o que eu chamo de fab­u­loso a coisa do olhar sobre nós até chegar na COP [Con­fer­ên­cia das Nações Unidas sobre Mudança do Cli­ma, que em 2025 será em Belém]. Acho que é impor­tante diz­er que há uma expec­ta­ti­va muito grande para no dia seguinte da COP todos os nos­sos prob­le­mas estarem resolvi­dos. Isso não vai acon­te­cer, mas há essa expec­ta­ti­va. Então, eu enten­do que é fun­da­men­tal que ago­ra que estão olhan­do para nós, que olhem nos nos­sos olhos. Ninguém tem que ensi­nar como é que a gente fun­ciona”.

“Então é pre­ciso que nesse momen­to se olhe a sério e que se ouça o nos­so povo. Ouça o Ribeir­in­ho. Ouça o meni­no da flo­res­ta. Ouça, porque eles têm a solução. A solução virá por eles, por essa gente que mane­ja essa região ances­tral­mente, com reflexo muito forte na cap­i­tal.”

Amazônia

Fafá de Belém concede entrevista durante Mercado das Industrias Criativas do Brasil (MICBR), em Belém.
Repro­dução: Can­to­ra cap­ta recur­sos para pro­dução de filme que con­tará sua história — Divul­gação

“A Amazô­nia é muito par­tic­u­lar e ago­ra está na moda, e isso me pre­ocu­pa muito tam­bém. Porque todo mun­do ago­ra na Faria Lima [rua de São Paulo e sím­bo­lo do mer­ca­do finan­ceiro] sabe o que é a Amazô­nia. Um dia dess­es eu vi o Pacto Glob­al [even­to em setem­bro que foi lança­do um movi­men­to para preser­vação da Amazô­nia] e eu fiquei muito esper­ançosa lá na ONU. Mas não tin­ha um pen­sador amazôni­co, não tin­ha um artista amazôni­co, não tin­ha um fotó­grafo amazôni­co, não tin­ha um jor­nal­ista amazôni­co, não tin­ha um int­elec­tu­al amazôni­co. Mas faz­er a fig­u­ração serve. A comu­nidade indí­ge­na é um dos povos amazôni­cos que acred­i­to ser o mais explo­rado, como car­i­catu­ra. Nós temos uma cul­tura, temos uma história, cada risco daque­le tem um sen­ti­do. Cada estam­pa no cor­po tem um sen­ti­do. Então, não dá para banalizar o que nós somos. Nós somos muitos povos. Somos quilom­bo­las, somos extra­tivis­tas, somos ribeir­in­hos, somos mul­heres e home­ns da cidade, home­ns e mul­heres da flo­res­ta. E todo esse povo que gira nes­sa região mág­i­ca, ban­ha­da de águas poderosas que estão secan­do pela sede de quem vem de fora”.

“Nós pre­cisamos de din­heiro, nós pre­cisamos de recur­so, nós pre­cisamos de holo­fote, mas antes de tudo pre­cisamos de respeito. É usar a mar­ca Amazô­nia, que é a mais poderosa do plan­e­ta. Então, a gente tem que estar muito aten­to. Se vocês obser­varem, todas as cam­pan­has que fiz­er­am de preser­vação da Amazô­nia no Sul, nen­hu­ma teve a min­ha cara. Nen­hu­ma. Nen­hu­ma. Porque eu não me ajeito, não faço grupo. Eu ten­ho uma liber­dade, sou muito amazôni­ca”.

Mulheres paraenses

“O cor­po que me veste é esse. Por isso aque­la polêmi­ca toda da foto da Vogue [revista que Fafá fez um ensaio nu no últi­mo mês de out­ubro]. Aí o Bob [Wolfen­son, fotó­grafo] falou: Fafá, você tira a roupa para mim? Eu disse: Para você eu tiro. Ele falou: ‘sai todo mun­do, porque a roupa que te veste é o teu cor­po’. Eu estou ple­na. Porque nós vive­mos assim, tira a roupa entra no igara­pé. Nós temos o praz­er da água na pele, do sol. Isso não quer diz­er que as nos­sas meni­nas têm que ser pros­ti­tuí­das e nem estupradas no Mara­jó. Elas ape­nas são meni­nas em desen­volvi­men­to. Têm que ser respeitadas. Essa região é a região fem­i­ni­na. Somos as amazôni­cas, somos as ama­zonas e somos as encam­in­hadas. Mas foi sendo sub­sti­tuí­dos pelo machis­mo, pelo dono da fazen­da que­ria uma virgem no dia da lua cheia. E essas mul­heres foram se habit­uan­do, como se fos­se cul­tura. Não é cul­tura, é mau hábito. E a gente tem que com­bat­er tudo isso.”

“Eu acho que o com­po­nente fun­da­men­tal da vida é a lev­eza, sabe. E ter Dona Onete, começan­do uma car­reira com 70 anos. Então, em que out­ro lugar isso vai exi­s­tir na vida? Clementi­na [de Jesus] explodiu aos 60, mas já rala­va des­de o 16. Dona Onete resolve can­tar aos 70 anos, explode para o mun­do com 75. Nós somos um povo difer­ente. Você vê a Dira [Paes, atriz paraense], Dira con­tin­ua com 16 anos! [risadas]. Uma mul­her fab­u­losa. E aí vem todos, né? Vem Gabi [Ama­ran­tos], vem Joel­ma, que é um fenô­meno. Vem Aíla, Almirz­in­ho [Gabriel], Trio Man­ari, Nil­son Chaves. Tem mui­ta coisa. Nós temos uma coisa trans­ver­sal, de muitas coisas que vier­am para cá”.

O mercado musical

“A inter­net democ­ra­ti­zou a chega­da ao públi­co, mas tem as rádios feitas em São Paulo que mas­si­fi­cam os suces­sos. Ou seja, o vel­ho jabá nun­ca saiu de cena. Só que num lugar de um liq­uid­i­fi­cador, que o cara lev­a­va no final da sem­ana, hoje são prêmios nego­ci­a­dos para dar vis­i­bil­i­dade e faz­er suces­sos reais, porque as pes­soas gostam, porque elas só ouvem aqui­lo. Mas a inter­net abriu uma pos­si­bil­i­dade muito inter­es­sante, que eu digo que é de inteligên­cia. O jovem brasileiro hoje tem pos­si­bil­i­dade de achar coisas que ele não tem aces­so. Não só o jovem, todos.

“O que eu criti­co muito nas platafor­mas é que você não sabe quem é o arran­jador, não sabe quem são os músi­cos, não sabe que estú­dio foi feito. E acabaram com uma coisa chama­da dire­ito conexo. Para mim, essa é a pior pos­si­bil­i­dade que acon­te­ceu na músi­ca. Porque se você gravasse uma músi­ca e vendesse um mil­hão de cópias e eu gravasse a mes­ma músi­ca e vendesse 5 mil cópias, toda a equipe pro­du­to­ra, todo mun­do que fez aque­le suces­so, gan­ha­va o equiv­a­lente per­centu­al de um mil­hão de cópias ou de 5 mil cópias, pelo públi­co que a atingiu. Então, o téc­ni­co do estú­dio, o pro­du­tor, o assis­tente de estú­dio, os músi­cos. E hoje você não sabe nem quem toca”.

Projetos

“Eu ten­ho ago­ra um pro­je­to na min­ha cabeça, que vou faz­er, que é um pro­je­to de sam­ba-canção, que eu amo a ger­ação de sam­ba-canção. Já ten­ho tra­bal­ha­do muito, mas ain­da pre­ciso de patrocínio. Mas vamos faz­er. Quero can­tar Dolores Duran, Nora Ney, tudo, tudo. Aque­le livro, ‘A Noite do Meu Bem’, do Ruy [Cas­tro], que é mar­avil­hoso. Porque eu era cri­ança, can­ta­va aqui­lo. ‘Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baude­laire’ [autoparó­dia de Anto­nio Maria para ‘Ninguém me Ama’].

“Dia 25/11, ago­ra, eu estreio em Por­to Ale­gre um show chama­do ‘A Fil­ha do Brasil’, com temas de nov­ela e grandes suces­sos. Mais temas de nov­ela, eu não nasci numa nov­ela, nasci com o ‘O Fil­ho da Bahia’ [tema da nov­ela Gabriela, de 1975]. Nasci em uma nov­ela e ten­ho mais de 60 temas de nov­ela. Temas de nov­ela que eu adoro, sou nov­el­eira. A gente estreia ago­ra, a gente faz [show em] São Paulo, dia 16 de dezem­bro, faz Rio dia 2 de fevereiro. Aí tem car­naval e a gente estru­tu­ra a turnê para o resto do ano que vem”.

“E sou sam­ba-enre­do da esco­la de sam­ba da São Paulo, da Império da Casa Verde [Fafá é a hom­e­nagea­da, com o tema ‘Fafá, a cablo­ca mís­ti­ca em rit­u­ais da flo­res­ta’]. É lin­do, lin­do. Mas eu me per­co toda. Espero que se fale muito de Belém, se faça muito. E fale das nos­sas lendas, como nós somos leves”.

*O repórter via­jou ao MICBR a con­vite do Min­istério da Cul­tura

Edição: Marce­lo Brandão

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