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Filme sobre desaparecimentos na Baixada vence festival internacional

Repro­dução: © Quiprocó Filmes/Divulgaçāo

Curta Desova foi exibido em festival de cinema político da Argentina


Pub­li­ca­do em 03/06/2023 — 11:41 Por Ake­mi Nita­hara – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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O filme cur­ta-metragem Des­o­va, que fala sobre desa­parec­i­men­tos força­dos na Baix­a­da Flu­mi­nense, venceu, nes­ta sem­ana, o 12º Fes­ti­val Inter­na­cional de Cine Políti­co (Ficip), em Buenos Aires, na cat­e­go­ria Mel­hor Cur­ta. Final­iza­do em 2022, foi a primeira exibição públi­ca da pro­dução, que tem 25 min­u­tos de duração.

Dirigi­do e rote­i­riza­do por Laís Dan­tas e pro­duzi­do pela Quiprocó Filmes, Des­o­va retra­ta as con­se­quên­cias na vida de mães que perder­am seus fil­hos nes­sa situ­ação, ain­da recor­rente na região. A pro­dução foi apre­sen­ta­da pelo Fórum Gri­ta Baix­a­da e via­bi­liza­da por uma emen­da par­la­men­tar de 2020, do então dep­uta­do fed­er­al Marce­lo Freixo.

O tra­bal­ho tam­bém incluiu a pesquisa Mapea­men­to Explo­ratório sobre Desa­pare­ci­dos e Desa­parec­i­men­tos Força­dos em Municí­pios da Baix­a­da Flu­mi­nense, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Rur­al do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Aos 28 anos, Laís é cria de Duque de Cax­i­as, na Baix­a­da, e já assi­nou a direção de pro­je­tos no Canal Brasil, Insta­gram, Por­ta dos Fun­dos, Que­bran­do o Tabu e Insti­tu­to Marielle Fran­co. Entre eles, a direção de fotografia do cur­ta A Mul­her do Fim do Mun­do, dirigi­do por Geo Abreu; do mini-doc Respei­ta Nos­so Sagra­do, dirigi­do por Fer­nan­do Sousa e Gabriel Bar­bosa; e do lon­ga Rio, Negro.

Em con­ver­sa com a Agên­cia Brasil, a jovem cineas­ta expli­ca que Des­o­va bus­ca com­preen­der as dinâmi­cas do desa­parec­i­men­to força­do de pes­soas, que incluem téc­ni­cas do Esta­do de desa­pare­cer com cor­pos, bem como a ten­ta­ti­va de mães e famil­iares das víti­mas em lidar com esse trau­ma, por meio da cri­ação de gru­pos e cole­tivos de apoio.

Rio de Janeiro (RJ) - ‘Desova’: Curta sobre o desaparecimento forçado na Baixada Fluminense vence como Melhor Curta no 12º Festival Internacional de Cine Político - FICIP, em Buenos Aires. Foto: Quiprocó Filmes/Divulgaçāo
Repro­dução: A dire­to­ra Laís Dan­tas, durante as fil­ma­gens do filme Des­o­va, vence­dor como Mel­hor Cur­ta no 12º Fes­ti­val Inter­na­cional de Cine Políti­co, em Buenos Aires Filmes/Divulgaçāo

Agên­cia Brasil: Como tratar um tema tão difí­cil em uma pro­dução artís­ti­ca audio­vi­su­al?
Laís Dan­tas: O Des­o­va é um filme sobre desa­parec­i­men­tos força­dos, mas ele é total­mente cen­tra­do nas mães que perder­am os fil­hos. O Fórum Gri­ta Baix­a­da fez umas ações com arte ter­apia com essas mães e a gente acom­pan­hou essas sessões, né? A gente ten­tou cri­ar um filme todo basea­do na visão das mães, é um filme mais del­i­ca­do. A gente vai traz­er um pouco da religião tam­bém, de como essas mães lidam com o seu luto. O que fica depois que acon­tece essa tragé­dia. A gente traz um pouco como elas lidam com isso, depois da per­da.

Agên­cia Brasil: Uma das questões mais duras no desa­parec­i­men­to força­do é que se tra­ta de uma dor que não tem encer­ra­men­to, em função da ausên­cia do cor­po.
Laís Dan­tas: O maior desafio de faz­er esse filme é a ausên­cia do cor­po. Muitas vezes, ali durante o roteiro, eu me vi sem chão, como traz­er para o filme de uma for­ma menos dura, que não deixa de ser duro, mas tem uma poe­sia ali na nar­ra­ti­va que eu criei.

Agên­cia Brasil: Como nasceu a ideia do filme?
Laís Dan­tas: Esse filme chega a con­vite da Quiprocó, que já tem uma parce­ria com o Fórum Gri­ta Baix­a­da. Eu já tra­bal­ho com a Quiprocó como dire­to­ra de fotografia e sou cria da Baix­a­da Flu­mi­nense, cria de Duque Cax­i­as. Então eu começo a pro­duzir ima­gens a par­tir do meu ter­ritório e as pes­soas sem­pre falaram que eu ten­ho um olhar muito sen­sív­el. Eles estavam atrás de uma dire­to­ra sen­sív­el, com out­ra per­spec­ti­va para con­tar essa história de uma for­ma menos dura.

Agên­cia Brasil: O desa­parec­i­men­to força­do é uma questão vio­len­ta muito pre­sente na Baix­a­da Flu­mi­nense?
Laís Dan­tas: Acho que a gente, no filme, traz um pouco dos relatos da Améri­ca Lati­na, mas falan­do da Baix­a­da, é uma real­i­dade da Baix­a­da Flu­mi­nense, e falan­do a par­tir do meu con­hec­i­men­to. A gente cresce ali, meio que den­tro dessa real­i­dade, meio que sem saber o que está acon­te­cen­do. A par­tir do filme, eu começo a enten­der quais são ess­es fatores, porque a gente vai ter o Esta­do e a gente vai ter o trá­fi­co ao mes­mo tem­po. É uma real­i­dade que está ali e que não tem políti­ca públi­ca para isso. Fica muito assim: acon­te­ceu. Quem resolve? Quem olha por essas mães? Como se lida com isso tudo, sabe?

Agên­cia Brasil: E como esse filme pode impactar a comu­nidade na Baix­a­da para mel­ho­rar a vida dessas pes­soas que sofrem com esse prob­le­ma?
Laís Dan­tas: É muito louco, porque quan­do a gente começa a fil­mar, as mães olham para a gente com um olhar muito de “caram­ba, mais um filme, vai resolver meus prob­le­mas”. Eu espero que esse filme abra muitas por­tas para o diál­o­go sobre a importân­cia de se cri­ar políti­ca públi­ca para esse enfrenta­men­to, para a dinâmi­ca do desa­parec­i­men­to. Que as pes­soas enten­dam o que é, que tudo muda quan­do alguém desa­parece. Um desa­pare­ci­do desa­pare­ceu, mas o que é isso? O que isso causa? Espero que abra mais por­tas para esse diál­o­go.

Rio de Janeiro (RJ) - ‘Desova’: Curta sobre o desaparecimento forçado na Baixada Fluminense vence como Melhor Curta no 12º Festival Internacional de Cine Político - FICIP, em Buenos Aires. Foto: Quiprocó Filmes/Divulgaçāo
Repro­dução: Laís Dan­tas em Bueno Aires com o prêmio de melhro cur­ta em mãos — Quiprocó Filmes/Divulgaçāo

Agên­cia BrasilDes­o­va estre­ou no 12º Fes­ti­val Inter­na­cional de Cine Políti­co e já foi pre­mi­a­do. Como foi essa exper­iên­cia?
Laís Dan­tas: Foi um fes­ti­val incrív­el, foi a primeira vez que eu saí do Brasil, inclu­sive. Primeiro fes­ti­val como dire­to­ra. A gente par­ticipou da cat­e­go­ria de cur­tas-metra­gens inter­na­cional, con­cor­re­mos com filmes de vários país­es, como Paquistão, Méx­i­co, Bolívia. Foi incrív­el, fiquei muito emo­ciona­da, não esper­a­va gan­har. Porque, ape­sar de ser um filme que ficou pron­to no ano pas­sa­do, foi um proces­so muito louco, meio trun­ca­do. Se inscr­ev­er em fes­ti­val, primeiro fes­ti­val, gan­har fora do país. O tema é tão duro, eu não sabia nem se eu fica­va feliz ou se eu fica­va triste, foi um mis­to de emoções, sabe? Mui­ta emoção de gan­har, feliz com tan­ta história, com tan­ta coisa, meu Deus. Mas foi incrív­el e o fes­ti­val é de cin­e­ma políti­co, então tin­ha muitos filmes com essa temáti­ca tam­bém, então ir lá assi­s­tir e apren­der tam­bém foi muito incrív­el.

Agên­cia Brasil: O prêmio dá mais vis­i­bil­i­dade para o tema. Você tem algum com­par­a­ti­vo sobre a situ­ação dos desa­parec­i­men­tos força­dos em out­ros lugares?
Laís Dan­tas: A gente tem reg­istros na Améri­ca Lati­na, na Argenti­na isso acon­tece, tam­bém no Méx­i­co. A gente con­segue ter um panora­ma sobre o que as pes­soas estão crian­do a par­tir dos seus ter­ritórios. Nem todos os filmes foram sobre desa­parec­i­men­tos força­dos, mas é um tema caro para eles, é algo que acon­tece. Veio até uma sen­ho­ra me per­gun­tar, “ah, mas não é uma téc­ni­ca da ditadu­ra e tal?” As pes­soas veem muito os desa­parec­i­men­tos que acon­te­cem aqui no Brasil como uma téc­ni­ca só da ditadu­ra, parece que isso só acon­te­ceu lá e não acon­te­ceu no gov­er­no Lula, não acon­te­ceu no gov­er­no Bol­sonaro.

Agên­cia Brasil: Podemos citar, por exem­p­lo, o caso Amar­il­do, de 2013, os três meni­nos de Belford Roxo, de 2021, os 43 estu­dantes do Méx­i­co de 2014…
Laís Dan­tas: Sim, não é uma práti­ca exclu­si­va de um perío­do políti­co. Baix­a­da Flu­mi­nense, per­ife­ria. As pes­soas ques­tion­am, mas con­tin­ua acon­te­cen­do.

 

Edição: Denise Griesinger

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