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Semana de Arte Moderna é considerada marco, mas não iniciou movimento

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Evento realizado no Theatro Municipal de São Paulo completa um século


Pub­li­ca­do em 13/02/2022 — 08:02 Por Elaine Patri­cia Cruz* – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Há exatos 100 anos, o The­atro Munic­i­pal em São Paulo abria suas por­tas para uma exposição de pin­tu­ra e escul­tura, saraus e apre­sen­tações musi­cais do com­pos­i­tor Vil­la-Lobos e da pianista Guiomar Novaes. Esse even­to, que ocor­reu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, veio a ficar con­heci­do como a Sem­ana de Arte Mod­er­na, con­sid­er­a­do um mar­co ofi­cial do movi­men­to mod­ernista no Brasil.

Os prin­ci­pais nomes do even­to foram os escritores Mário de Andrade, Menot­ti del Pic­chia e Oswald de Andrade e os artis­tas Ani­ta Mal­fat­ti e Di Cav­al­can­ti. A ideia era provo­car a impren­sa, faz­er muito barul­ho, para apre­sen­tar ideias de van­guar­da.

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

“Com certeza os agentes da sem­ana, os artis­tas que fiz­er­am esse fes­ti­val, tin­ham em mente essa ideia de ter impacto na mídia, de faz­er barul­ho, de se alin­har a uma ideia de van­guar­da, de desafio das tradições”, disse Heloísa Espa­da, curado­ra do Insti­tu­to Mor­eira Salles (IMS), orga­ni­za­ção que, no ano pas­sa­do, real­i­zou um ciclo de palestras [disponíveis no site da insti­tu­ição] para dis­cu­tir o even­to jun­to com o Museu de Arte Con­tem­porânea (MAC) e a Pina­cote­ca do Esta­do.

A sem­ana foi real­iza­da pouco tem­po depois do fim da Primeira Guer­ra Mundi­al e da pan­demia de gripe espan­ho­la e no ano em que o Brasil cel­e­bra­va o cen­tenário de sua inde­pendên­cia.

São Paulo ini­ci­a­va o seu proces­so de indus­tri­al­iza­ção, com a econo­mia ain­da basea­da no café. O Brasil se mod­ern­iza­va e alguns int­elec­tu­ais e artis­tas da época, influ­en­ci­a­dos pelas van­guardas europeias, tam­bém prop­un­ham um novo olhar sobre a arte brasileira.

“A ideia de arte mod­er­na aca­ba ten­do relação com a ideia de cidade, com a cri­ação de espaços urbanos. Esse momen­to, de iní­cio de sécu­lo, é um momen­to de urban­iza­ção, de trans­for­mação das cidades, de mod­ern­iza­ção”, disse a curado­ra do IMS.

“São Paulo pas­sa a se desen­volver com o comér­cio do café na segun­da metade do sécu­lo 19. E quem ban­ca a sem­ana, quem põe din­heiro para a sem­ana exi­s­tir, é uma elite cafeeira que gan­ha din­heiro no inte­ri­or, nas fazen­das, mas que não quer mais viv­er nas fazen­das; que tem pos­si­bil­i­dade de via­jar para fora do país e quer viv­er em uma cidade que tem os bene­fí­cios da mod­ernidade. É a riqueza do cam­po que paga essa ideia da arte mod­er­na. Essa urban­iza­ção, esse desen­volvi­men­to, é fomen­ta­da por essa riqueza que vin­ha, prin­ci­pal­mente, das lavouras de café”, expli­cou.

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil
A semente da Sem­ana de Arte Mod­er­na foi plan­ta­da em 1921, em uma reunião no Grande Hotel da Rotis­serie Sports­man, onde hoje é a prefeitu­ra paulis­tana. Lá, int­elec­tu­ais e artis­tas se encon­traram com o escritor e diplo­ma­ta Graça Aran­ha.

“Nes­sa ocasião, ele [Graça Aran­ha] teve con­ta­to com esse pequeno grupo for­ma­do pelo Di Cav­al­can­ti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guil­herme de Almei­da e muitos out­ros. A Ani­ta Mal­fat­ti é con­vi­da­da a par­tic­i­par desse encon­tro. Ela vai acom­pan­ha­da de uma moça, uma ami­ga, porque não fica­va bem ela ir soz­in­ha, já que era solteira e mul­her. Surge a ideia de se faz­er um grande even­to, reunin­do artes como pin­tu­ra, poe­sia e músi­ca, além de comi­da”, con­tou Luiz Arman­do Bagolin, pro­fes­sor do Insti­tu­to de Estu­dos Brasileiros (IEB) da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP).

É de Graça Aran­ha a ideia de que o grupo pro­cure Paulo Pra­do, um grande expor­ta­dor de café de São Paulo. “Eles então se encon­tram com Paulo Pra­do, em sua casa no bair­ro de Higien­ópo­lis, e ali surge a ideia da sem­ana. Foi Paulo Pra­do quem sug­eriu o nome [do even­to] e o finan­ciou”, desta­cou o pro­fes­sor da USP.

Exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução Exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil
Meses depois da reunião, o The­atro Munic­i­pal rece­beu uma exposição de artes em seu saguão e três noites de sessões literárias e musi­cais. O even­to foi inau­gu­ra­do com uma palestra do escritor e diplo­ma­ta Graça Aran­ha, no dia 13 de fevereiro de 1922.

Na pro­gra­mação, con­sta­va ain­da a leitu­ra da poe­sia de Manuel Ban­deira, chama­da Os Sapos, uma críti­ca ao par­nasian­is­mo — movi­men­to literário que se pre­ocu­pa­va com o faz­er poéti­co: a arte pela arte. Pela obsessão com a pre­cisão, os par­nasianos foram crit­i­ca­dos pelos mod­ernistas que pre­gavam a liber­dade estéti­ca. A leitu­ra fei­ta por Ban­deira foi muito vaia­da pelo públi­co pre­sente. Aliás, vaias e críti­cas foram a tôni­ca de toda a sem­ana. E foi isso que a tornou um suces­so, na visão dos artis­tas respon­sáveis pelo even­to.

“A leitu­ra que eles [os mod­ernistas] fiz­er­am, ter­mi­na­da a sem­ana, foi que eles con­seguiram provo­car os araras. Quem são os araras? Os jor­nal­is­tas. O Mário [de Andrade] diz assim: ‘os araras morder­am a isca. Os araras foram provo­ca­dos e aí tive­mos êxi­to’. A sem­ana, no momen­to em que acon­te­ceu, foi um even­to muito bem suce­di­do do pon­to de vista da pro­pa­gan­da, por uma estraté­gia de pro­pa­gan­da”, descreveu Luiz Arman­do Bagolin.

“Ao con­trário de todas as ini­cia­ti­vas indi­vid­u­ais e cole­ti­vas que tin­ham acon­te­ci­do antes, foi a primeira vez que isso atraiu a fúria dos araras. No tem­po deles, a sem­ana teve importân­cia não tan­to pelas obras que foram apre­sen­tadas — e muitas delas nem era mod­er­nas. Mas como essa estraté­gia de pro­pa­gan­da ger­ou uma reação em cadeia na impren­sa”, acres­cen­tou o pro­fes­sor do IEB e curador da exposição Era uma Vez o Mod­er­no, em car­taz na Fed­er­ação das Indus­trias do Esta­do de São Paulo (Fiesp).

Construção histórica

Exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução: Exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Antes da sem­ana, out­ras ini­cia­ti­vas cul­tur­ais mod­er­nas já tin­ham sido real­izadas no país, tais como as duas exposições indi­vid­u­ais de Ani­ta Mal­fat­ti, em 1914 e 1917.

“É pre­ciso sub­lin­har uma questão que me parece de fun­da­men­tal importân­cia: o mod­ernismo no Brasil não começa com a sem­ana. Essa ideia de que a sem­ana vem, apre­sen­ta obras que mar­cam uma rup­tura em relação ao que esta­va sendo feito, é uma ideia fal­sa. Hou­ve muitas ini­cia­ti­vas antes da sem­ana e depois da sem­ana e, ao con­jun­to de todas essas ini­cia­ti­vas, algu­mas indi­vid­u­ais, out­ras cole­ti­vas, a gente dá o nome de mod­ernismo brasileiro”, expli­cou Bagolin.

A Sem­ana de Arte Mod­er­na só se tornou um mar­co muitos anos após ter sido real­iza­da, num proces­so de con­strução históri­ca.

“Sabe­mos hoje que, por exem­p­lo, ime­di­ata­mente à sem­ana, nos anos 30, ninguém fala­va da sem­ana. Essa ideia da Sem­ana de Arte Mod­er­na é uma coisa que tam­bém foi con­struí­da pela his­to­ri­ografia. E só lá nos final dos anos 40, nos anos 50, quan­do se for­mam os museus de arte mod­er­na no Brasil e tam­bém quan­do foi lança­da a primeira Bien­al, em 1951, hou­ve todo um tra­bal­ho de res­gaste e de recon­hec­i­men­to públi­co dess­es nomes, prin­ci­pal­mente da Ani­ta Mal­fat­ti e da Tar­si­la do Ama­r­al, que não par­ticipou da sem­ana, mas logo se uniu ao grupo”, disse Heloisa Espa­da, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

“É pre­ciso falar que hou­ve uma con­strução históri­ca da nar­ra­ti­va da Sem­ana de Arte Mod­er­na como um even­to fun­dador do nos­so mod­ernismo. Isso foi con­struí­do, prin­ci­pal­mente, com aju­da da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), a par­tir do iní­cio dos anos 70, sobre­tu­do quan­do a uni­ver­si­dade com­prou o acer­vo da família do Mário de Andrade e esse acer­vo foi para o IEB. Começa-se então a ver uma série de pesquisas, que se trans­for­mam em teses de mestra­do e doutora­do, em duas áreas sobre­tu­do: a área de teo­ria literária e a área de ciên­cias soci­ais”, expli­cou Luiz Arman­do Bagolin.

Exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução Exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Além dis­so, o livro Artes Plás­ti­cas na Sem­ana de 22, escrito por Ara­cy Ama­r­al, his­to­ri­ado­ra de arte, lança­do na déca­da de 70, aju­dou a con­stru­ir a importân­cia da Sem­ana. “Esse tra­bal­ho mar­cou a his­to­ri­ografia”, desta­cou Heloisa.

Tudo isso foi con­tribuin­do para que o even­to pas­sasse a ter um caráter pos­i­ti­vo, de enal­tec­i­men­to. “A gente vai ven­do o quan­to, na ver­dade, o assun­to da sem­ana vai surgin­do ao lon­go da história de acor­do tam­bém com as con­veniên­cias de cada época. Acho que falar da Sem­ana de Arte Mod­er­na de 1922, cem anos depois, é lem­brar de como os assun­tos vão sendo con­struí­dos e de quais são os inter­ess­es em falar sobre ess­es assun­tos”, disse.

Esta é a primeira matéria de uma série que a Agên­cia Brasil pub­li­ca ao lon­go dos próx­i­mos dias sobre o cen­tenário da Sem­ana de Arte Mod­er­na.

 

 

*Colaborou Eliane Gonçalves, repórter da Rádio Nacional

Edição: Lílian Beral­do

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