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Restauração florestal da Ilha de Trindade busca salvar fragatas raras

Repro­dução: © Divul­gação Reter-Trindade

Trindade é coberta por gramíneas e vegetação de pequeno porte


Pub­li­ca­do em 04/06/2022 — 09:13 Por Vitor Abdala — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Duas pop­u­lações de fra­gatas criti­ca­mente ameaçadas de extinção vivem hoje no longín­quo arquipéla­go de Trindade e Mar­tin Vaz, local­iza­do no meio do Oceano Atlân­ti­co, a 1.100 quilômet­ros de dis­tân­cia da cos­ta con­ti­nen­tal brasileira. Para sal­var essas aves, um pro­je­to de restau­ração veg­e­tal vem sendo desen­volvi­do na ilha prin­ci­pal (Trindade) des­de 2018.

Essa parte dis­tante do ter­ritório brasileiro, no litoral da Região Sud­este, é refú­gio de algu­mas espé­cies de aves, entre elas, a fra­ga­ta-de-Trindade (Fre­ga­ta trini­tatis), espé­cie endêmi­ca da ilha, ou seja, só existe ali.

A ilha tam­bém é lar da fra­ga­ta-grande (Fre­ga­ta minor nicol­li), sube­spé­cie que só é encon­tra­da em Trindade. As duas pop­u­lações são com­postas por pou­cas dezenas de indi­ví­du­os e, como não vivem em nen­hum out­ro lugar do mun­do, ess­es ani­mais são os últi­mos rep­re­sen­tantes de sua lin­hagem.

Preser­var espé­cies que vivem num lugar tão restri­to quan­to Trindade, que tem ape­nas 10 km² (120 vezes menor que a cidade do Rio de Janeiro), já seria um desafio. A difi­cul­dade é ain­da maior quan­do se desco­bre que essas aves fazem seus nin­hos em árvores e que, na ilha, a prin­ci­pal espé­cie arbórea, Col­u­b­ri­na glan­du­losa, foi extin­ta na déca­da de 1960, ten­do sido rein­tro­duzi­da ape­nas 30 anos depois.

Devastação

Descober­ta no iní­cio do sécu­lo XVI, por João da Nova, a ilha era cober­ta por uma den­sa flo­res­ta trop­i­cal em mais de 80% do ter­ritório. Mas depois de 500 anos de ten­ta­ti­vas de col­o­niza­ção e inserção de ani­mais exóti­cos (ou seja, trazi­dos de fora), como cabras e por­cos, a veg­e­tação orig­i­nal de Trindade foi ampla­mente destruí­da.

Atual­mente, com exceção de uma flo­res­ta de samam­ba­ias-gigantes, da espé­cie Cyathea del­gadii, e de peque­nas pop­u­lações arbóreas, Trindade é cober­ta prin­ci­pal­mente por gramíneas e veg­e­tação de pequeno porte. Sem as árvores para nid­i­ficar, as fra­gatas pas­saram a impro­vis­ar e começaram a colo­car seus ovos no próprio chão.

Isso, é claro, provo­cou impacto na repro­dução das aves e, con­se­quente­mente, no taman­ho das pop­u­lações. A ideia, por­tan­to, é ten­tar restau­rar a veg­e­tação nati­va, para que o ambi­ente orig­i­nal de nid­i­fi­cação seja recon­sti­tuí­do e as aves pos­sam se sen­tir mais à von­tade para se repro­duzir a aumen­tar sua pop­u­lação.

Reflorestamento

Essa é a pro­pos­ta do Pro­gra­ma Reter-Trindade, pro­je­to de recom­posição do ecos­sis­tema da ilha oceâni­ca, em uma parce­ria do Insti­tu­to Chico Mendes de Con­ser­vação da Bio­di­ver­si­dade (ICM­Bio) com a Fun­dação Grupo Boticário, a Mar­in­ha, o Pro­gra­ma de Pesquisas Cien­tí­fi­cas na Ilha da Trindade (Pro­trindade) e diver­sas uni­ver­si­dades.

A ini­cia­ti­va começou em 2018, mas teve que ser prati­ca­mente par­al­isa­da por dois anos por causa da pan­demia de covid-19.

O pro­gra­ma só pôde ser retoma­do em março deste ano, já que a pan­demia provo­cou a sus­pen­são do envio de cien­tis­tas para Trindade. O primeiro pesquisador do Reter-Trindade envi­a­do à ilha depois desse perío­do, Bruno Lin­hares, pas­sou algu­mas sem­anas no arquipéla­go e retornou ao con­ti­nente no últi­mo fim de sem­ana.

“A notí­cia [repas­sa­da por Lin­hares] é que as fra­gatas ain­da não foram extin­tas. Temos fotos recentes delas”, comem­o­ra o coor­de­nador do Reter-Trindade, Lean­dro Bugo­ni, pesquisador da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio Grande (Furg).

Desafios

Reflo­restar a ilha, no entan­to, é um proces­so bem com­plexo. Sem a veg­e­tação nat­ur­al, grande parte do solo fér­til foi per­di­do em proces­sos de erosão. A dis­tân­cia em relação ao con­ti­nente tam­bém difi­cul­ta o trans­porte de mudas. Além dis­so, a trans­posição de plan­tas de out­ras áreas para a ilha tem o poten­cial de ger­ar ain­da mais dese­qui­líbrio, com a inserção, por exem­p­lo, de espé­cies exóti­cas.

“A gente tem lá uma espé­cie de lagar­tixa, dessas que a gente vê nas nos­sas casas (Hemi­dacty­lus mabouia) que foi intro­duzi­da jun­to com as mudas. Ela, provavel­mente, esta­va nas caixas ou tin­ha algum ovo enter­ra­do no solo das mudas e aí foi intro­duzi­da lá. Hoje é quase impos­sív­el a gente remover esse lagart­in­ho”, con­ta Bugo­ni.

A ideia de cri­ar um viveiro de mudas na ilha tam­bém esbar­ra em out­ro prob­le­ma. Com uma peque­na pop­u­lação flu­tu­ante de cien­tis­tas e mil­itares, não existe ninguém especí­fi­co para cuidar das plan­tas em cresci­men­to.

A solução é ten­tar se aproveitar das peque­nas pop­u­lações nati­vas remanes­centes e trans­plan­tar indi­ví­du­os dessas espé­cies em pon­tos chave da ilha, crian­do bol­sões de veg­e­tação que facil­i­tarão a regen­er­ação nat­ur­al da mata.

Segun­do Bugo­ni, a elim­i­nação, cer­ca de 20 anos atrás, das cabras que vivi­am há décadas na ilha já provo­cou efeitos pos­i­tivos com a recom­posição nat­ur­al da veg­e­tação em vários pon­tos de Trindade.

“Se a gente der um empurrãoz­in­ho, isso pode ser muito útil. A intenção é remover plan­tas onde elas estão muito den­sas e cri­ar núcleos de árvores e arbus­tos em out­ras áreas da ilha, como se fos­se um auxílio na recom­posição da ilha, usan­do as próprias plân­tu­las que ocor­rem lá”, afir­ma.

Mas mes­mo isso se mostra difí­cil, uma vez que um carangue­jo quase onipresente na ilha, o John­garthia lan­gos­toma, se ali­men­ta das sementes e espécimes veg­e­tais juve­nis.

Além da dis­per­são de espé­cies nati­vas pela ilha, os pesquisadores tam­bém tra­bal­ham na elim­i­nação de plan­tas exóti­cas, que prej­u­dicam o desen­volvi­men­to da veg­e­tação local, como a Gui­lan­d­i­na bon­duc.

“Ela [a Gui­lan­d­i­na] está cau­san­do um estra­go muito grande lá e está se espal­han­do. Ela resse­ca toda a ter­ra ao redor e impede que out­ras plan­tas se esta­beleçam. Ela foi intro­duzi­da de algu­ma maneira e está toman­do con­ta de algu­mas áreas”.

Longo caminho

Enquan­to as árvores não se espal­ham pela ilha, proces­so que pode levar anos mes­mo com a aju­da humana, os pesquisadores bus­cam atrair as fra­gatas com nin­hos arti­fi­ci­ais em postes que imi­tam árvores, para evi­tar que se repi­ta o que acon­te­ceu com o ato­bá-de-pé-ver­mel­ho (Sula sula), que parou de se repro­duzir na ilha.

Para garan­tir um maior grau de suces­so, os pesquisadores tam­bém plane­jam insta­lar apar­el­hos sonoros que emitem a vocal­iza­ção de aves nos locais de nin­hos e até recor­rer a sim­u­lações de ativi­dades pesqueiras nas águas do entorno, que cos­tu­mam atrair fra­gatas em bus­ca de ali­men­to. “Seria um teatrin­ho para elas serem atraí­das e a dis­tribuição dos peix­es, para que elas ten­ham um estí­mu­lo adi­cional para chegarem nos locais dos nin­hos”.

Segun­do Bugo­ni, o Reter-Trindade, que ter­mi­nar­ia em 2022, foi pror­ro­ga­do por mais um ano, dev­i­do à par­al­isação ocor­ri­da na pan­demia.

“A gente não vai con­seguir recu­per­ar o tem­po per­di­do na sua total­i­dade. A meta, de cur­to pra­zo, é que a gente ten­ha o esta­b­elec­i­men­to da colô­nia arti­fi­cial das fra­gatas. Mas a gente deve ter uma con­tinuidade [das ações] e, pen­san­do em lon­go pra­zo, o que a gente quer é que o número de fra­gatas aumente para que a pop­u­lação não seja extin­ta. Mas a sus­tentabil­i­dade da repro­dução só vai acon­te­cer quan­do a gente tiv­er árvores e que elas passem a uti­lizar as árvores nati­vas”, expli­ca.

Ele desta­ca, entre­tan­to, que não é da noite para o dia que se recon­sti­tui uma flo­res­ta, ain­da mais na ilha de Trindade, onde vários fatores difi­cul­tam esse tra­bal­ho. “A gente tem um lon­go cam­in­ho para ter uma sus­tentabil­i­dade das pop­u­lações de fra­ga­ta asso­ci­a­da à recom­posição da veg­e­tação na ilha”, final­iza o pesquisador.

Edição: Lílian Beral­do

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