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Jovens fazem propostas para reduzir violência policial em São Paulo

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Documento foi divulgado pelo Instituto Sou da Paz


Pub­li­ca­do em 17/05/2023 — 08:29 Por Elaine Patrí­cia Cruz — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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“Menos pre­con­ceito com a min­ha cor. Acho que você não sabe, mas negro tam­bém sente dor”. A reflexão, em for­ma de poe­sia, ilus­tra o doc­u­men­to Agen­da Juve­nil de Pre­venção à Vio­lên­cia Letal con­tra a Juven­tude Negra, divul­ga­do na sem­ana pas­sa­da pelo Insti­tu­to Sou da Paz.

relatório, que foi feito por jovens de várias regiões e situ­ações de maior vul­ner­a­bil­i­dade de São Paulo, apre­sen­ta pro­postas para diminuir a vio­lên­cia con­tra a juven­tude.

Os jovens que elab­o­raram o doc­u­men­to tin­ham entre 16 e 21 anos de idade e foram divi­di­dos em três tur­mas, com cer­ca de 20 pes­soas cada. Eles foram ouvi­dos em rodas de con­ver­sa e out­ras ativi­dades, onde pud­er­am com­par­til­har vivên­cias e cri­ar poe­sias e músi­cas sobre ess­es temas.

O pro­je­to foi exe­cu­ta­do des­de março do ano pas­sa­do e final­iza­do ago­ra em maio. Ele foi desen­volvi­do com três tur­mas, em média com 20 jovens de ter­ritórios de São Paulo — na zona leste, em São Mateus, e na zona norte, na Brasilân­dia -, escol­hi­dos pela alta taxa de letal­i­dade da juven­tude negra. “Além dess­es ter­ritórios, tam­bém escol­he­mos uma unidade da Fun­dação Casa, porque enten­demos que o públi­co das medi­das socioe­d­uca­ti­vas de inter­nação teria muito a con­tribuir no pro­je­to”, expli­cou Vanes­sa Alves, psicólo­ga e super­vi­so­ra socioe­d­uca­ti­va do Insti­tu­to Sou da Paz, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Um dos jovens que par­ticipou da agen­da foi Gabriel Souza, 19 anos, con­heci­do como MC GS e que atual­mente é segu­rança de even­tos. Ele disse que esta­va cumprindo medi­da socioe­d­uca­ti­va na Fun­dação Casa [de onde saiu em 2022] quan­do decid­iu par­tic­i­par do pro­je­to. “Todas as pro­postas retratavam tudo aqui­lo que eu pas­sa­va na min­ha real­i­dade den­tro das per­ife­rias e tam­bém den­tro do per­fil em que eu me enquadro, em ser um jovem negro”, acres­cen­tou.

“No começo, [o pro­je­to] chegou a abranger várias per­spec­ti­vas difer­entes. Eles relatavam o que a gente pas­sa­va lá den­tro, mas não era novi­dade, todo mun­do já havia vis­to isso [a vio­lên­cia] de per­to. A maio­r­ia dos mole­ques que esta­va lá inter­na­da já tin­ha pres­en­ci­a­do essas coisas. Então, o que fize­mos? Fomos além na pro­pos­ta. A gente não só fez uma roda de debates sobre o que acon­te­cia den­tro das comu­nidades, mas tam­bém mon­ta­mos um plano para cri­ar for­mas de que essas coisas que acon­te­ci­am den­tro das comu­nidades não voltassem a acon­te­cer”, afir­mou.

Para Gabriel, par­tic­i­par do pro­je­to lhe deu respon­s­abil­i­dades e nova per­spec­ti­va de vida. “Ter a opor­tu­nidade de par­tic­i­par de um pro­je­to, evi­tan­do que aman­hã out­ras pes­soas sejam víti­mas da mes­ma vio­lên­cia que sofri, foi muito sat­is­fatório”.

Violência

Jovens negros como Gabriel são as maiores víti­mas de homicí­dios no país. Segun­do o Atlas da Vio­lên­cia, mais da metade (51,3%) dos 45.503 homicí­dios que ocor­reram no Brasil em 2019 afe­taram jovens de 15 a 29 anos, sendo ess­es em sua maio­r­ia negros. No esta­do de São Paulo, dados com­pi­la­dos pelo Comitê Paulista pela Pre­venção de Homicí­dios na Ado­lescên­cia, no relatório Vidas Pro­te­gi­das, de 2022, já mostravam que 53,81% das cri­anças e ado­les­centes víti­mas de homicí­dio, latrocínio e lesão cor­po­ral segui­da de morte eram negros.

Para dis­cu­tir o tema da vio­lên­cia com os jovens e con­stru­ir as pro­postas de enfrenta­men­to, o Insti­tu­to Sou da Paz fez uso de duas estraté­gias: ofic­i­nas artís­ti­cas e pon­tos for­ma­tivos, com par­tic­i­pação de espe­cial­is­tas em assun­tos rela­ciona­dos à segu­rança públi­ca. “Usamos como expressões artís­ti­cas a rima, o grafite e a per­cussão. Nes­sas ofic­i­nas con­struí­mos pro­postas de enfrenta­men­to à letal­i­dade da juven­tude negra. Por meio dessas ofer­tas, eles iam con­seguin­do nos diz­er como achavam que seria pos­sív­el diminuir os índices [de letal­i­dade]”, expli­cou Vanes­sa. “Eles con­seguiam nos diz­er, por meio de suas próprias exper­iên­cias de vida, quais seri­am as mel­hores for­mas de enfrenta­men­to”.

Foi assim que Gabriel Souza par­ticipou da cypher [músi­ca grava­da por vários MCs, que se alter­nam nas rimas] Paz na Favela, que está disponív­el em platafor­mas de músi­ca, como Spo­ti­fy e Youtube. Isso ago­ra está impul­sio­n­an­do sua car­reira de MC. “Como eu fica­va com a mente vazia, muito angus­ti­a­do, a rima foi um meio, uma válvu­la de escape para pas­sar meu tem­po, expor meus sen­ti­men­tos e desaba­far. Na min­ha segun­da inter­nação, encon­trei esse pro­je­to do Sou da Paz e eles viram em mim um poten­cial, min­ha facil­i­dade com rimas e de me expres­sar por meio da músi­ca. E fiz­er­am a pro­pos­ta de faz­er­mos uma cypher, a pro­dução de uma músi­ca com vários MCs”.

Propostas

Entre as pro­postas apre­sen­tadas por ess­es jovens para pre­venir a vio­lên­cia está o aumen­to dos canais de denún­cia con­tra a vio­lên­cia poli­cial, a imple­men­tação de ter­mi­nais de iden­ti­fi­cação dig­i­tal nas viat­uras e a ampli­ação do uso de câmeras cor­po­rais em uni­formes de poli­ci­ais mil­itares. Essa pro­pos­ta fei­ta por jovens, inclu­sive, vai ao encon­tro dos resul­ta­dos de um relatório elab­o­ra­do pelo Fun­do das Nações Unidas para a Infân­cia (Unicef) e o Fórum Brasileiro de Segu­rança Públi­ca (FBSP), divul­ga­do ontem. O relatório demon­stra que, após a adoção das câmeras cor­po­rais pela Polí­cia Mil­i­tar de São Paulo, o número de cri­anças e ado­les­centes mor­tos em inter­venções de poli­ci­ais em serviço caiu 66,3% em 2022 na com­para­ção com 2019, pas­san­do de 102 para 34 mortes.

“Um tema recor­rente nas três tur­mas e que chamou muito a atenção foi que eles escol­her­am, já no iní­cio do pro­je­to, falar sobre a vio­lên­cia das abor­da­gens poli­ci­ais. Inde­pen­den­te­mente do ter­ritório em que estavam, ess­es jovens dis­ser­am que que­ri­am dis­cu­tir a temáti­ca porque tin­ham muitas dúvi­das e muito receio de como pode­ri­am lidar ou enfrentar a vio­lên­cia decor­rente das abor­da­gens poli­ci­ais”, expli­cou Vanes­sa.

Os jovens con­sul­ta­dos pelo Insti­tu­to Sou da Paz tam­bém citaram, entre as pro­postas, a ampli­ação das opor­tu­nidades de emprego for­mal e de aces­so à cul­tura e a trans­for­mação das esco­las em ambi­entes mais acol­he­do­res. “Nas três tur­mas foram apre­sen­tadas ideias que diziam muito sobre a pre­venção à vio­lên­cia. Eles falaram sobre a importân­cia de uma esco­la mais acol­he­do­ra e que tra­bal­he, em seus con­teú­dos, temáti­cas de diver­si­dade, racis­mo, vio­lên­cias de gênero e dire­itos humanos. Tam­bém destacaram a importân­cia de jovens negros e per­iféri­cos aces­sarem espaços de cul­tura e de laz­er que abor­dem essas temáti­cas”, acres­cen­tou.

Para que o doc­u­men­to não se tor­nasse ape­nas um con­jun­to de ideias, as pro­postas apre­sen­tadas pelos jovens foram anal­isadas por espe­cial­is­tas. “A gente enten­deu que só a apre­sen­tação das pro­postas nesse doc­u­men­to talvez não trouxesse uma con­fi­a­bil­i­dade. Então, incluí­mos tam­bém dois pare­ceres téc­ni­cos de espe­cial­is­tas falan­do sobre a importân­cia das sug­estões e a via­bil­i­dade delas”, disse a psicólo­ga.

O obje­ti­vo é que o doc­u­men­to amplie as dis­cussões na sociedade sobre o tema, pos­sa ser encam­in­hado a diver­sas autori­dades do país e aju­de­na cri­ação de políti­cas públi­cas de juven­tude e de segu­rança públi­ca. “A ideia é que esse mate­r­i­al pos­sa ampli­ficar a voz da juven­tude para que chegue a pes­soas que têm poder de decisão”, afir­mou Vanes­sa.

Edição: Graça Adju­to

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