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Líder indígena recebe título de Doutor Honoris Causa da Unifesp

Repro­dução: © Ricar­do Stuckert/PR

Evento poderá ser acompanhado pela internet a partir das 10h


Pub­li­ca­do em 15/03/2023 — 06:37 Por Lety­cia Bond — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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A Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Paulo (Unife­sp) entre­ga hoje (15) o títu­lo de Doutor Hon­oris Causa a Davi Kope­nawa Yanoma­mi. A hon­raria é um gesto de recon­hec­i­men­to das uni­ver­si­dades a pes­soas que deix­am um mar­co de con­tribuição em cer­to cam­po de con­hec­i­men­to, como as artes, as ciên­cias e a edu­cação.

A Unife­sp é a primeira uni­ver­si­dade a out­or­gar o títu­lo ao líder e xamã yanoma­mi. A indi­cação inau­gu­ra a lista dos con­tem­pla­dos pela insti­tu­ição.

“A out­or­ga do títu­lo coroa um proces­so de bus­ca por diál­o­gos e des­col­o­niza­ção de saberes em anda­men­to na Unife­sp. É parte desse esforço a cri­ação da Cát­e­dra Kaa­po­ra de Con­hec­i­men­tos Tradi­cionais e Não Hegemôni­cos, em 2016, e, pos­te­ri­or­mente, em 2020, da Cát­e­dra Sus­tentabil­i­dade e Visões de Futuro, com foco na área socioam­bi­en­tal. As cát­e­dras foram pro­po­nentes do pedi­do de con­cessão do títu­lo, jun­ta­mente com o Pro­je­to Xin­gu, que atua no cam­po da exten­são uni­ver­sitária jun­to aos povos indí­ge­nas des­de a déca­da de 60”, desta­cou a Unife­sp em nota.

“A pro­pos­ta de con­cessão do títu­lo foi entregue à Reito­ria em 19 de abril de 2021, jun­ta­mente com 472 assi­nat­uras de apoio de docentes, téc­ni­cos e estu­dantes da uni­ver­si­dade”, acres­cen­tou.

O even­to poderá ser acom­pan­hado pela inter­net, a par­tir das 10h. A trans­mis­são pode ser acom­pan­ha­da pelo canal ofi­cial da Unife­sp no YouTube.

Retrospectiva

A mais céti­ca das pes­soas deve se sen­si­bi­lizar ao assi­s­tir o filme Xapiri, mes­mo na atu­al­i­dade, quan­do com­ple­ta 11 anos. A obra, ao assumir caráter exper­i­men­tal, de filme de arte, con­duz o espec­ta­dor a uma incursão pelo uni­ver­so dos yanoma­mi, convida‑o a emprestar de xam­ãs desse povo, por 54 min­u­tos, seus olhos e, com isso, avançar no entendi­men­to de mun­do do líder indí­ge­na.

Terceiro dia da Flip em Paraty. DAVI KOPENAWA
Repro­dução: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Sem data cer­ta, esti­ma-se que Davi Kope­nawa ten­ha nasci­do por vol­ta de 1956, na vila yanoma­mi de Marakana, que fica no alto do Rio Tooto­to­bi, a poucos quilômet­ros da fron­teira entre Roraima e a Venezuela. Ele par­tiu de sua aldeia quan­do ado­les­cente, para atu­ar como intér­prete da então Fun­dação Nacional do Índio (Funai).

Ao recu­per­ar a história de Davi Kope­nawa, con­sta­ta-se que, além da magia das cer­imô­nias que reúnem diver­sas lid­er­anças do xam­an­is­mo, ele tra­bal­ha em bus­ca de apoio e ali­a­dos para as causas que defende. Foi o caso de sua relação com o antropól­o­go francês Bruce Albert, com quem pro­duz­iu Xapiri e tam­bém escreveu A que­da do céu: palavras de um xamã.

Em con­ver­sa com Albert, que doc­u­men­tou os diál­o­gos na obra, o líder indí­ge­na comen­ta que seus avós, que vivi­am per­to das nascentes do Rio Tooto­to­bi, às vezes se deslo­cavam até as ter­ras baixas. Lá, vis­i­tavam out­ros yanoma­mi, que ficavam próx­i­mos do Rio Aracá. Nssa região é que se depararam com os primeiros bran­cos, que impres­sion­avam com o uso de facões.

Davi Kope­nawa con­viveu e con­vive com não indí­ge­nas con­stan­te­mente, des­de que deixou a aldeia. Tam­bém con­forme nar­ra o livro, feito em coau­to­ria com Albert no iní­cio dos anos 80, Davi Kope­nawa casou-se com a fil­ha de um respeita­do xamã, na comu­nidade de Watori­ki, onde per­maneceu. A ini­ci­ação no xam­an­is­mo foi fei­ta por seu sogro. Em sua ini­ci­ação, real­iza­da “ao pé da mon­tan­ha do ven­to”, rece­beu, das enti­dades xapiri, o nome Kope­nawa, em alusão aos espíri­tos das ves­pas kope­na.

Nun­ca hou­ve des­can­so, em vir­tude de suas mis­sões. No doc­u­men­tário A últi­ma flo­res­ta, com direção de Luiz Bolog­ne­si, Davi Kope­nawa comen­ta que, para ele, ficar longe da Ter­ra Indí­ge­na (TI) Yanoma­mi, a maior do país, com 9,6 mil­hões de hectares, é um sac­ri­fí­cio. Perde o con­ta­to com os son­hos que tem à noite, e os son­hos são fun­da­men­tais para os yanoma­mi. No tre­cho, o líder afir­ma que não con­segue nem mes­mo dormir quan­do está nos grandes cen­tros urbanos, cumprindo agen­da.

A luta sem pausas e o preparo para encará-la é o que desta­ca o pres­i­dente da Asso­ci­ação Yanon­a­mi do Rio Cauaburis e Aflu­entes (Ayr­ca), José Mário Pereira Goes, ao falar sobre Kope­nawa, “Quan­do ele era jovem, já pen­sa­va em ser líder e defen­sor do ter­ritório yanoma­mi do Ama­zonas e de Roraima. É uma pes­soa que pen­sa em todos, no ter­ritório, na flo­res­ta, nos rios e nos igara­pés”, diz.

Dados da Comis­são Pas­toral da Ter­ra (CPT) mostram que, até 2021, a Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi con­tabi­liza­va qua­tro mas­sacres — um ocor­ri­do em Alto Ale­gre (RR), out­ro em Hax­imu (RR), o ter­ceiro em Paapiú (RR) e o quar­to na ser­ra de Couto Mag­a­l­hães (RR). Os episó­dios acon­te­ce­r­am em 2013, 1993, 1988 e 1987, respec­ti­va­mente.  Como critério para definir mas­sacre, a CPT entende que são casos em que três pes­soas ou mais são mor­tas na mes­ma data e em uma mes­ma local­i­dade, ou seja, em uma mes­ma ocor­rên­cia de con­fli­tos pela ter­ra.

No fim da déca­da de 80, mais pre­cisa­mente, em 1987, 40 mil garimpeiros invadi­ram a TI. A quan­ti­dade era o dobro da pop­u­lação yanoma­mi. Na época, Davi Kope­nawa pro­moveu uma mobi­liza­ção que atingiu escala inter­na­cional. Ali já estavam, entre out­ros par­ceiros de resistên­cia, Albert e a fotó­grafa suíça Clau­dia Andu­jar.

Clau­dia nat­u­ral­i­zou-se brasileira e perdeu a família nos cam­pos de con­cen­tração de Auschwitz e Dachau. Assim como out­ros com­pan­heiros de luta, é chama­da de “par­ente” por Davi Kope­nawa, como se pode obser­var, inclu­sive, em doc­u­men­tários e vídeos de even­tos públi­cos em que ele a men­ciona. Ela tam­bém gan­hou o nome de “Napëy­oma”, que sig­nifi­ca “a mul­her bran­ca”.

Albert con­ta no tex­to Um mun­do cujo nome é flo­res­ta, do livro Clau­dia Andu­jar: a luta yanoma­mi, pub­li­ca­do em 2019, pelo Insti­tu­to Mor­eira Salles, que ele e Clau­dia se con­hece­r­am já em solo indí­ge­na, na déca­da de 70. O francês era ain­da um estu­dante, doutoran­do em antropolo­gia. Ele, que já con­hecia o tra­bal­ho fotográ­fi­co de Clau­dia, endereçou a ela uma car­ta de qua­tro pági­nas. O plano era orga­ni­zar um pro­gra­ma de saúde, que aten­desse aos yanoma­mi do Rio Cat­ri­mani, que nasce na Ser­ra Pari­ma, con­sid­er­a­da berço dos yanoma­mi. “Em sua respos­ta, um mês depois, Clau­dia me infor­mou que a epi­demia de saram­po que se propa­gara em dezem­bro de 1976, a par­tir de um pos­to do serviço indi­genista brasileiro, a Fun­dação Nacional do Índio (Funai), às mar­gens do Rio Mapu­lau, acabara por diz­imar a maio­r­ia dos habi­tantes dos aflu­entes viz­in­hos do alto Cat­ri­mani”, escreveu Albert.

Em 1978, o grupo, jun­ta­mente com o mis­sionário Car­lo Zac­qui­ni, criou a Comis­são pela Cri­ação do Par­que Yanoma­mi (CCPY) e se artic­u­lou para lançar cam­pan­ha inter­na­cional de garan­tia dos dire­itos ter­ri­to­ri­ais dos indí­ge­nas. O primeiro escritório da comis­são era o aparta­men­to de Clau­dia em São Paulo. A enti­dade depois gan­hou o nome de Comis­são Pró-Yanoma­mi.

Em 2004, surgiu a Hutukara Asso­ci­ação Yanoma­mi, pre­si­di­da por Davi Kope­nawa. Atual­mente, a orga­ni­za­ção tem cer­ca de 200 mem­bros e, em sua lin­ha de frente, o fil­ho mais vel­ho de Davi, Dário Vitório Kope­nawa Yanoma­mi, que, aos 15 anos, já era pro­fes­sor em sua comu­nidade, com um pro­je­to de ensi­no bilingue.

Davi Kope­nawa tam­bém tem atu­a­do nas áreas da cul­tura e da arte. Foi um dos cri­adores da ópera Ama­zonas-music the­atre in three parts, apre­sen­ta­da em 2010 em Munique e São Paulo. Além de Xapiri e a Últi­ma flo­res­ta, pro­duz­iu o filme Uri­hi haro­ma­ti­ma pë: curadores da flo­res­ta, com Morzaniel Ɨra­mari Yanoma­mi. Ele rece­beu, em 2017, o Prêmio Itaú Cul­tur­al, entre out­ras dis­tinções, como a Ordem Nacional do Méri­to, do Min­istério da Cul­tura, e a incor­po­ração à Acad­e­mia Brasileira de Ciên­cias.

Edição: Graça Adju­to

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