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Consciência Negra: expressões reforçam racismo e devem ser evitadas

Repro­dução: © Arquivo/ Mar­cel­lo Casal Jr/Agência Brasil

Defensoria da Bahia criou Dicionário de Expressões (Anti) Racistas


Pub­li­ca­do em 20/11/2022 — 14:49 Por Agên­cia Brasil* — São Paulo

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No Dia Nacional da Con­sciên­cia Negra, lem­bra­do neste domin­go (20), espe­cial­is­tas aler­tam para a neces­si­dade de se repen­sar o uso de ter­mos e expressões que reforçam o racis­mo. Há casos em que essas palavras são repro­duzi­das sem que as pes­soas ten­ham o con­hec­i­men­to históri­co da origem delas.

Para con­sci­en­ti­zar sobre o tema, a Defen­so­ria Públi­ca da Bahia lançou o Dicionário de Expressões (Anti) Racis­tas, no ano pas­sa­do.

“Nos­so idioma foi con­struí­do sob forte influên­cia do perío­do de escrav­iza­ção e muitas destas expressões seguem sendo usadas até hoje, ain­da que de for­ma incon­sciente ou não inten­cional. Pre­cisamos repen­sar o uso de palavras e expressões que são fru­tos de uma con­strução racista”, desta­ca a pub­li­cação.

A car­til­ha cita expressões como “a coisa tá pre­ta”, em que a cor pre­ta ou negra é usa­da em uma cono­tação neg­a­ti­va, e propõe a sub­sti­tu­ição para “a situ­ação está difí­cil”.

Out­ro exem­p­lo de expressão con­sid­er­a­da racista é “cabe­lo ruim” para des­ig­nar cabe­lo cre­spo ou cac­hea­do. A pub­li­cação tam­bém apon­ta as expressões “mer­ca­do negro, magia negra, humor negro e ovel­ha negra” – em que a palavra ‘negro’ rep­re­sen­ta algo pejo­ra­ti­vo, prej­u­di­cial, ile­gal. Como alter­na­ti­va, propõe-se o uso de mer­ca­do clan­des­ti­no, lista proibi­da e humor áci­do.

“O racis­mo se rev­ela de diver­sas for­mas em nos­sa sociedade. Estas microa­gressões, além de repro­duzirem um dis­cur­so racista, ao iden­ti­fi­carem a negri­tude como mar­cador de infe­ri­or­i­dade social, afe­tam o bem-estar de pes­soas negras”, diz a car­til­ha.

Há out­ras palavras menos óbvias, como “boçal”, descri­ta na car­til­ha como “refer­ên­cia aos escrav­iza­dos que não sabi­am falar a lín­gua por­tugue­sa”. Essa desqual­i­fi­cação tam­bém é uma das for­mas de racis­mo que, segun­do o lin­guista e pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Sul da Bahia Gabriel Nasci­men­to, per­siste nos dias atu­ais.

“As palavras são resul­ta­do de uma for­mação históri­ca racista. O racis­mo lin­guís­ti­co não se resume às palavras”, enfa­ti­za.

Nasci­men­to lem­bra que os negros rep­re­sen­tam mais de 50% da pop­u­lação brasileira. “Essa pop­u­lação mod­i­fi­cou essa lín­gua. Ela é parte dessa lín­gua porque essa lín­gua é dela. No entan­to, quan­do a gente vai falar de como o Esta­do e as pes­soas tratam as pes­soas negras, nor­mal­mente a elas é impos­ta uma fal­ta de autoes­ti­ma lin­guís­ti­ca, como pes­soas que não são por­ta­do­ras da capaci­dade de falar essa lín­gua de maneira orgâni­ca e politi­ca­mente, de se comu­nicar”, desta­ca.

O uso das palavras tam­bém é uma for­ma de dis­pu­ta, segun­do Nasci­men­to. Ele desta­ca a palavra “negro” apli­ca­da a pes­soas, que não tin­ha equiv­a­lente na África antes da invasão europeia. “Como você expli­ca um país onde ‘negro’ seja uma palavra usa­da ao mes­mo tem­po para poli­ti­zar uma pop­u­lação mestiça e tam­bém para racis­mo? Ao mes­mo tem­po que o homem pre­to pos­i­ti­va a sua nar­ra­ti­va  – “eu sou um homem negro” – você tem a pre­sença desse homem negro sendo chama­do por uma mul­her bran­ca de ‘negro fedi­do’”, diz, usan­do como exem­p­lo o caso de racis­mo con­tra o humorista Eddy Júnior, ofen­di­do por uma viz­in­ha no con­domínio onde mora na zona oeste da cap­i­tal paulista em out­ubro de 2022.

Influência africana

Uma das maiores demon­strações do racis­mo na lín­gua por­tugue­sa no Brasil é a fal­ta de estu­do da influên­cia das lín­guas africanas na for­mação do idioma, segun­do Gabriel Nasci­men­to –  que é autor do livro Racis­mo Lin­guís­ti­co.

“O fato de a gente levar 14 anos na edu­cação for­mal ten­tan­do apren­der a difer­ença entre adjun­to adnom­i­nal e com­ple­men­to nom­i­nal mostra o quão colo­nial, o quan­to de racis­mo lin­guís­ti­co a gente tem no nos­so por­tuguês. Porque a gente não iden­ti­fi­ca a importân­cia das lín­guas ban­tus [grupo étni­co africano], a sua influên­cia nos falares do Brasil”, afir­ma o pesquisador.

Ess­es idiomas influ­en­cia­ram não só com palavras que são usadas no cotid­i­ano brasileiro, como tam­bém, de acor­do com Nasci­men­to, até na sin­taxe pre­dom­i­nante no país. Entre as palavras, o pesquisador apon­ta como exem­p­los sam­ba, bun­da, cachim­bo, acalan­to, den­go, quiabo, ben­gala.

Há ain­da, segun­do ele, usos comuns que na chama­da nor­ma cul­ta acabam sendo con­sid­er­a­dos incor­re­tos. “A gente não sabe, por exem­p­lo, que nas lín­guas ban­tus, que são lín­guas extrema­mente pre­fix­ais, toda a infor­mação de plur­al e sin­gu­lar entra de maneira pre­fix­al. Nes­sas lín­guas você nor­mal­mente colo­ca as infor­mações de sin­gu­lar e plur­al no primeiro traço da palavra”, expli­ca.

“Quan­do você faz a con­cordân­cia em ‘as meni­na’, você ape­nas colo­ca o plur­al no primeiro item. Essa influên­cia é vista nor­mal­mente no Brasil como erro. Mas ela é uma influên­cia ban­tu muito legí­ti­ma e vai se repro­duzir em out­ros lugares”, exem­pli­fi­ca. São ele­men­tos cul­tur­ais impor­tantes que, na visão do pro­fes­sor, não têm a atenção dev­i­da. “As nos­sas esco­las não abor­dam con­teú­dos lin­guís­ti­cos africanos. Essa diver­si­dade brasileira da lín­gua foi igno­ra­da pelas esco­las”, afir­ma.

*Colaborou Daniel Mel­lo

Edição: Juliana Andrade

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