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Tortura é prática disseminada pelo Estado, dizem especialistas

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Casos estão no passado recente da democracia brasileira


Publi­ca­do em 26/06/2023 — 10:30 Por Cami­la Boehm – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Um homem mor­to asfi­xi­a­do com gás no por­ta malas de uma via­tu­ra poli­ci­al, dedos de pes­so­as pre­sas fra­tu­ra­dos por agen­tes peni­ten­ciá­ri­os, poli­ci­ais car­re­gan­do um rapaz com mãos e pés amar­ra­dos com cor­das e um aju­dan­te de pedrei­ro desa­pa­re­ci­do há dez anos após abor­da­gem poli­ci­al. Os casos pare­cem saí­dos do perío­do da dita­du­ra mili­tar no país, mas estão no pas­sa­do recen­te da demo­cra­cia bra­si­lei­ra. 

Nes­te Dia de Apoio às Víti­mas da Tor­tu­ra — 26 de junho — espe­ci­a­lis­tas ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil afir­mam que a tor­tu­ra é uma prá­ti­ca estru­tu­ral no país e que não apa­re­ce ape­nas em casos iso­la­dos.

“Eu enten­do essas prá­ti­cas como tor­tu­ra e maus tra­tos. Sem dúvi­da nenhu­ma, o que a gen­te tes­te­mu­nha no Bra­sil, enquan­to tor­tu­ra e maus tra­tos, tem rela­ção dire­ta com o nos­so pas­sa­do dita­to­ri­al. E eu iria até mais lon­ge, tem rela­ção dire­ta com o nos­so pas­sa­do escra­vis­ta”, dis­se Gabri­el­le Abreu, coor­de­na­do­ra exe­cu­ti­va de Memó­ria, Ver­da­de e Jus­ti­ça do Ins­ti­tu­to Vla­di­mir Her­zog.

Para ela, há uma linha de con­ti­nui­da­de no que diz res­pei­to à tor­tu­ra e maus tra­tos que remon­ta à escra­vi­dão, aos sécu­los pas­sa­dos, e per­pas­sa pelo sécu­lo 20, ten­do a dita­du­ra como uma opor­tu­ni­da­de que a tor­tu­ra teve no Bra­sil de se apri­mo­rar, se alas­trar e se tor­nar pra­ti­ca­men­te um códi­go de con­du­ta não explí­ci­to dos agen­tes das for­ças de segu­ran­ça públi­ca no Bra­sil.

“Esse epi­só­dio em que o homem foi amar­ra­do, sus­pen­so, pelas mãos e pelos pés, me reme­teu ao pau de ara­ra, que era um ins­tru­men­to de tor­tu­ra mui­to uti­li­za­do pela dita­du­ra e foi mui­to usa­do tam­bém na escra­vi­dão con­tra homens e mulhe­res, negros e negras, que foram escra­vi­za­dos”, acres­cen­tou. Segun­do a his­to­ri­a­do­ra, tem um fio de con­ti­nui­da­de que é pre­ci­so rom­per o quan­to antes. “Senão, a his­tó­ria do Bra­sil vai se tor­nar uma his­tó­ria de tor­tu­ra, de maus tra­tos, de vio­lên­cia e, aci­ma de tudo, uma his­tó­ria de impu­ni­da­de”, enfa­ti­zou.

Divul­ga­do em abril des­te ano pelo Ins­ti­tu­to Vla­di­mir Her­zog, o moni­to­ra­men­to das reco­men­da­ções da Comis­são Naci­o­nal da Ver­da­de (CNV) reve­lou que o item que reco­men­da ao esta­do bra­si­lei­ro a cri­a­ção de meca­nis­mos de pre­ven­ção e com­ba­te à tor­tu­ra apre­sen­tou retro­ces­so. A CNV inves­ti­gou vio­la­ções de direi­tos huma­nos come­ti­das na dita­du­ra mili­tar.

“Em rela­ção à tor­tu­ra e maus tra­tos, o retro­ces­so é com­ple­to. O esta­do atu­al é de mui­ta negli­gên­cia des­ses ins­tru­men­tos [de com­ba­te e pre­ven­ção à tor­tu­ra], a gen­te encon­trou qua­se um ter­re­no de ter­ra arra­sa­da mes­mo e está num esta­do da coi­sa pior do que quan­do a CNV con­cluiu seus tra­ba­lhos”, reve­lou Gabri­el­le.

Do total de 29 reco­men­da­ções da CNV, ape­nas duas foram rea­li­za­das (7%) e seis par­ci­al­men­te rea­li­za­das (21%), tota­li­zan­do apro­xi­ma­da­men­te 28%. As não efe­ti­va­das e retro­ce­di­das con­for­mam a mai­o­ria de cer­ca de 72%, sen­do 14 não rea­li­za­das (48%) e sete retro­ce­di­das (24%), o que reve­la uma situ­a­ção pre­o­cu­pan­te, segun­do o Ins­ti­tu­to Vla­di­mir Her­zog.

Prevenção

Um dos itens con­si­de­ra­do rea­li­za­do é o que diz res­pei­to à intro­du­ção da audi­ên­cia de cus­tó­dia para pre­ven­ção da prá­ti­ca da tor­tu­ra e de pri­são ile­gal. Ape­sar da implan­ta­ção des­sas audi­ên­ci­as, enti­da­des de direi­tos huma­nos ouvi­das pela Agên­cia Bra­sil apon­ta­ram ine­fi­ci­ên­cia do meca­nis­mo no com­ba­te a vio­la­ções do esta­do.

De acor­do com o rela­tó­rio, a ausên­cia de res­pon­sa­bi­li­za­ção dos agen­tes públi­cos que come­te­ram gra­ves vio­la­ções de direi­tos huma­nos na dita­du­ra é um dos pila­res da con­tí­nua impu­ni­da­de que impe­ra no país em rela­ção aos que aten­tam con­tra os direi­tos huma­nos e a demo­cra­cia.

“A gen­te pas­sa pela dita­du­ra, não res­pon­sa­bi­li­za, sequer iden­ti­fi­ca os tor­tu­ra­do­res, os agen­tes públi­cos da dita­du­ra, não se faz qual­quer inves­ti­ga­ção e a gen­te che­ga nes­se pre­sen­te onde a tor­tu­ra é total­men­te natu­ra­li­za­da no Bra­sil. É difí­cil cho­car as pes­so­as, inde­pen­den­te das prá­ti­cas come­ti­das serem bár­ba­ras e cruéis, não há gran­de sen­si­bi­li­za­ção públi­ca por­que a gen­te já entrou no modo de natu­ra­li­za­ção mui­to noci­vo des­sas prá­ti­cas”, dis­se Gabri­el­le.

Caso recen­te em que um sus­pei­to foi amar­ra­do pelos pés e mãos com cor­da por poli­ci­ais mili­ta­res duran­te sua pri­são por fur­to já teve des­do­bra­men­to na jus­ti­ça pau­lis­ta que o tor­nou réu. Já os poli­ci­ais, que estão afas­ta­dos das ati­vi­da­des ope­ra­ci­o­nais, seguem ain­da em inves­ti­ga­ção para apu­rar “even­tu­ais exces­sos”, segun­do infor­mou a Secre­ta­ria de Segu­ran­ça Públi­ca de São Pau­lo (SSP).

Víde­os da abor­da­gem mos­tram Rob­son Rodri­go Fran­cis­co com as mãos amar­ra­das aos pés, de for­ma que não per­mi­tia que ele ficas­se em pé, nem sen­ta­do. As ima­gens mos­tram que ele é arras­ta­do pelo chão den­tro de uma Uni­da­de de Pron­to Aten­di­men­to (UPA) e depois car­re­ga­do por dois poli­ci­ais mili­ta­res, segurando‑o pela cor­da e pela cami­se­ta. Ain­da amar­ra­do, ele é colo­ca­do no por­ta-malas de uma via­tu­ra.

“O caso do Rob­son é um exem­plo de mui­tos outros que acon­te­cem no esta­do de São Pau­lo e em outros luga­res do país, em que a ausên­cia de uma polí­ti­ca ins­ti­tu­ci­o­nal que obje­ti­ve a mudan­ça de cul­tu­ra den­tro das cor­po­ra­ções poli­ci­ais e, ao mes­mo tem­po, meca­nis­mos que per­mi­tam a fis­ca­li­za­ção dos esta­be­le­ci­men­tos, a detec­ção e a apu­ra­ção des­sas prá­ti­cas [faz com] que [situ­a­ções assim] con­ti­nu­em se repe­tin­do na nos­sa his­tó­ria, nos momen­tos atu­ais, como ocor­re­ram duran­te a dita­du­ra”, dis­se a coor­de­na­do­ra auxi­li­ar do Núcleo de Cida­da­nia e Direi­tos Huma­nos da Defen­so­ria Públi­ca de São Pau­lo, Sur­raily Yous­sef.

Problema estrutural

O Bra­sil tem ain­da uma jus­ti­ça de tran­si­ção ina­ca­ba­da. Mui­tos dos rela­tos de tor­tu­ra e vio­lên­cia que acon­te­ce­ram na dita­du­ra mili­tar ain­da não foram apu­ra­dos, ape­sar da exis­tên­cia da Comis­são da Ver­da­de, ava­li­ou Yous­sef. “O cená­rio hoje é que a tor­tu­ra ain­da é uma rea­li­da­de no país. E por que ela é ain­da uma rea­li­da­de? Por­que a gen­te pre­ci­sa for­ta­le­cer os meca­nis­mos ins­ti­tu­ci­o­nais de apu­ra­ção e de detec­ção da tor­tu­ra”, dis­se. Para ela, a prá­ti­ca de tor­tu­ra no país ain­da é estru­tu­ral e é pre­ci­so uma mudan­ça de cul­tu­ra dos agen­tes esta­tais de segu­ran­ça e de sua manei­ra de atu­a­ção.

Para Yous­sef, dados das audi­ên­ci­as de cus­tó­dia, nas quais a Defen­so­ria Públi­ca atua na defe­sa de pes­so­as pre­sas em fla­gran­te, demons­tram que em mui­tos casos há rela­tos de vio­lên­cia poli­ci­al, prá­ti­ca de tor­tu­ra e outros maus tra­tos. Infor­ma­ção do Con­se­lho Naci­o­nal de Jus­ti­ça (CNJ) mos­tra ain­da que o órgão rece­beu, des­de 2005, mais de 85 mil denún­ci­as de tor­tu­ra ou tra­ta­men­to cru­el, desu­ma­no e degra­dan­te nas audi­ên­ci­as de cus­tó­dia.

“Mui­tas vezes há uma des­con­si­de­ra­ção da prá­ti­ca da tor­tu­ra que não é físi­ca, que é psi­co­ló­gi­ca tam­bém, que é mar­ca­da por uma série de mobi­li­za­ção de este­reó­ti­pos, de ame­a­ças, de xin­ga­men­tos e que isso tam­bém pode pro­vo­car o sofri­men­to inten­so e que pode ser qua­li­fi­ca­do como tor­tu­ra”, acres­cen­tou.

O rela­tó­rio Pon­tos Cegos da Tor­tu­ra — ela­bo­ra­do pela Defen­so­ria duran­te a pan­de­mia de covid-19, quan­do as audi­ên­ci­as de cus­tó­dia foram sus­pen­sas no esta­do de São Pau­lo — con­cluiu que a gran­de mai­o­ria dos autos de pri­são em fla­gran­te não tinha jun­ta­do o exa­me de cor­po de deli­to, o que con­tra­ri­a­va reco­men­da­ção do CNJ.

Após aná­li­se de 602 autos de pri­são em fla­gran­te de mar­ço de 2021 — rea­li­za­dos na Bai­xa­da San­tis­ta e na capi­tal — a Defen­so­ria con­cluiu que em menos de 2% dos casos foi rea­li­za­do o exa­me de cor­po de deli­to, jun­ta­do o lau­do ou fei­to regis­tro foto­grá­fi­co, que são docu­men­tos essen­ci­ais para ave­ri­gua­ção da prá­ti­ca de vio­lên­cia e tor­tu­ra.

“Ape­sar da reso­lu­ção do CNJ deter­mi­nar que, mes­mo que a audi­ên­cia de cus­tó­dia tives­se sus­pen­sa, deve­ria exis­tir uma aná­li­se do lau­do peri­ci­al de todas as pes­so­as pre­sas em fla­gran­te, acom­pa­nha­da da foto­gra­fia des­sas pes­so­as, para que hou­ves­se uma míni­ma iden­ti­fi­ca­ção de prá­ti­ca de vio­lên­cia ou tor­tu­ra, a gen­te per­ce­beu que isso não foi fei­to pelo judi­ciá­rio pau­lis­ta”, dis­se a defen­so­ra. Segun­do ela, esse resul­ta­do apon­ta que não hou­ve uma pre­o­cu­pa­ção cla­ra em enten­der esse meca­nis­mo ins­ti­tu­ci­o­nal como essen­ci­al para ave­ri­guar as prá­ti­cas de vio­lên­cia.

A com­pre­en­são da tor­tu­ra como estru­tu­ral tam­bém abran­ge as con­di­ções a que os pre­sos são sub­me­ti­dos nas uni­da­des peni­ten­ciá­ri­as, como ausên­cia de aces­so à ali­men­ta­ção, a bens mate­ri­ais e super­lo­ta­ção, o que é rea­li­da­de no país.

Vítima

O com­ba­te à tor­tu­ra deve ser fei­to por uma série de meca­nis­mos que pos­sam fun­ci­o­nar de for­ma arti­cu­la­da, mas que tenham como cen­tra­li­da­de a ampli­a­ção da nar­ra­ti­va daque­la pes­soa que é víti­ma de tor­tu­ra, de acor­do com Yous­sef.

“Não é à toa que o dia 26 é cha­ma­do de Dia de Apoio às Víti­mas de Tor­tu­ra, por­que é só a par­tir do momen­to que a gen­te dá cen­tra­li­da­de para nar­ra­ti­va des­sas víti­mas que é pos­sí­vel se pen­sar [em] meca­nis­mos de apu­ra­ção, de repa­ra­ção e apoio psi­co­ló­gi­co a essas víti­mas. Esse é um fator mui­to impor­tan­te de ser pen­sa­do quan­do a gen­te pen­sa nos meca­nis­mos ins­ti­tu­ci­o­nais”, dis­se.

Entre os meca­nis­mos cita­dos pela defen­so­ra estão as audi­ên­ci­as de cus­tó­dia, sua ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­ção e ampli­a­ção dos espa­ços de escu­ta das víti­mas; o for­ta­le­ci­men­to das perí­ci­as e dos flu­xos de inves­ti­ga­ção das denún­ci­as, prin­ci­pal­men­te ten­do em vis­ta que hoje essa inves­ti­ga­ção é fei­ta pelo pró­prio bata­lhão, no caso das polí­ci­as mili­ta­res; e o for­ta­le­ci­men­to de meca­nis­mos tan­to de con­tro­le soci­al, quan­to o meca­nis­mos ins­ti­tu­ci­o­nais de ins­pe­ções e super­vi­são dos esta­be­le­ci­men­tos de pri­va­ção de liber­da­de.

“Além dis­so, obvi­a­men­te, pen­sar em outra cul­tu­ra den­tro das cor­po­ra­ções poli­ci­ais, e isso pas­sa por orga­ni­za­ção de cur­sos de for­ma­ção para esses poli­ci­ais, e que exis­ta a par­ti­ci­pa­ção, inclu­si­ve, de pes­so­as que já foram víti­mas de vio­lên­cia e que pos­sam tra­zer essa pers­pec­ti­va, cur­so de direi­tos huma­nos, cur­sos prá­ti­cos para esses pro­fis­si­o­nais”, apon­tou.

Ela acres­cen­tou que o com­ba­te a vio­la­ções pas­sa ain­da por cor­re­ge­do­ri­as for­ta­le­ci­das e ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­ção do uso das câme­ras cor­po­rais, não só na Polí­cia Mili­tar, mas na Polí­cia Civil. Segun­do ela, o uso das câme­ras por poli­ci­ais, que ain­da não é dis­se­mi­na­do pelo país, aju­da a com­pre­en­der que mui­tas das abor­da­gens poli­ci­ais são acom­pa­nha­das de prá­ti­cas de tor­tu­ra e de vio­lên­cia.

Reparação e memória

Pen­sar na apu­ra­ção de tor­tu­ra tam­bém é pen­sar em meca­nis­mos de memó­ria, segun­do a defen­so­ra públi­ca, como des­cul­pas públi­cas e inde­ni­za­ções. “Não é só quan­do há uma res­pon­sa­bi­li­za­ção cri­mi­nal do agen­te que se pen­sa em meca­nis­mo de repa­ra­ção de prá­ti­ca de tor­tu­ra. É pre­ci­so repen­sar tam­bém a pró­pria manei­ra como o Esta­do repa­ra, de reco­nhe­cer a prá­ti­ca, de rea­li­zar pedi­dos de des­cul­pas públi­cas, de cons­truir espa­ços onde essas pes­so­as pos­sam ter apoio psi­co­ló­gi­co, por­que a vio­lên­cia de tor­tu­ra é para sem­pre, ela vai dei­xar mar­cas”.

“O Esta­do reco­nhe­cer a vio­lên­cia é o pri­mei­ro pas­so para a gen­te come­çar a trans­for­mar essa rea­li­da­de estru­tu­ral que, des­de antes da dita­du­ra mili­tar, a gen­te vive e que afe­ta deter­mi­na­das pes­so­as que são mais vul­ne­rá­veis: pes­so­as negras, pobres, peri­fé­ri­cas, mulhe­res”, acres­cen­tou.

A coor­de­na­do­ra do Meca­nis­mo Naci­o­nal de Pre­ven­ção e Com­ba­te à Tor­tu­ra, a advo­ga­da Caro­li­na Bar­re­to Lemos, ava­lia que a não res­pon­sa­bi­li­za­ção por vio­la­ções de direi­tos huma­nos é algo que mar­ca a his­tó­ria do país.

“É uma his­tó­ria de mui­tas anis­ti­as. A não res­pon­sa­bi­li­za­ção pas­sa o reca­do é de que está tudo bem, de que não é algo pelo que as ins­tân­ci­as e as auto­ri­da­des pre­ci­sam res­pon­der e que as pes­so­as não pre­ci­sam ser res­pon­sa­bi­li­za­das por isso”, dis­se.

Para ela, esse con­tex­to con­tri­bui de manei­ra enor­me para natu­ra­li­za­ção de atos de tor­tu­ra e maus tra­tos, no entan­to, não hou­ve nenhu­ma repa­ra­ção sim­bó­li­ca no país em rela­ção ao perío­do da dita­du­ra mili­tar. “Seria uma for­ma de rom­per com essa prá­ti­ca que ficou tão visi­bi­li­za­da na dita­du­ra. A res­pon­sa­bi­li­za­ção teria sido uma for­ma de sim­bo­li­ca­men­te dizer ‘nós não acei­ta­mos a prá­ti­ca de tor­tu­ra no Bra­sil’ e, no entan­to, mes­mo nes­se caso, hou­ve uma anis­tia que nova­men­te vem natu­ra­li­zar isso como algo que não tem pro­ble­ma tor­tu­rar pes­so­as pre­sas”, acres­cen­tou.

A advo­ga­da ava­lia que não hou­ve rup­tu­ra pós dita­du­ra mili­tar em rela­ção à vio­lên­cia nas situ­a­ções de pri­va­ção de liber­da­de. “A tor­tu­ra con­ti­nua tão dis­se­mi­na­da quan­to [antes], mas menos visi­bi­li­za­da por­que ago­ra ela vol­ta a atin­gir aque­le sujei­to que his­to­ri­ca­men­te foi atin­gi­do e que sofre com uma for­ma de desu­ma­ni­za­ção e natu­ra­li­za­ção da peri­cli­ta­ção de suas vidas”, dis­se, refe­rin­do-se à popu­la­ção negra e pobre.

“Tem algo bem ante­ri­or, inclu­si­ve à pró­pria dita­du­ra, que é aqui­lo que mar­ca essa polí­ti­ca cri­mi­nal de encar­ce­ra­men­to em mas­sa: o racis­mo estru­tu­ral. A desu­ma­ni­za­ção de pes­so­as pobres e negras é algo que natu­ra­li­zou his­to­ri­ca­men­te as prá­ti­cas de tor­tu­ra no Bra­sil des­de a escra­vi­dão”, dis­se a advo­ga­da.

Controle externo

Em rela­ção aos meca­nis­mos de pre­ven­ção e tor­tu­ra no país, ela ava­lia que o con­tro­le exter­no é fun­da­men­tal para alcan­çar tal obje­ti­vo. “Sem con­tro­le exter­no, não tem como com­ba­ter ou pre­ve­nir. Por­que, se exis­te a ideia de que aque­le local está lon­ge do olhar do públi­co, que ele não está sujei­to a um con­tro­le exter­no nem à fis­ca­li­za­ção, você cria todas as con­di­ções para que a tor­tu­ra acon­te­ça e para que não haja res­pon­sa­bi­li­za­ção, por­que inclu­si­ve não será sequer denun­ci­a­da, nem conhe­ci­da”, fina­li­za.

Ela res­sal­ta a impor­tân­cia da atu­a­ção dos órgãos que estão pre­vis­tos por lei para a fis­ca­li­za­ção da exe­cu­ção da pena, que são a Defen­so­ria Públi­ca, o Minis­té­rio Públi­co e poder judi­ciá­rio. “É fun­da­men­tal um tra­ba­lho sis­te­má­ti­co e qua­li­fi­ca­do de pre­ven­ção des­sas prá­ti­cas por meio da ação fis­ca­li­za­tó­ria, que é você fazer as visi­tas não anun­ci­a­das, che­gar de sur­pre­sa das uni­da­des para ver o que está acon­te­cen­do de fato”, citou.

Lem­bran­do do Rob­son, que foi amar­ra­do por cor­das, do Geni­val­do, que foi mor­to após asfi­xi­a­men­to no por­ta malas de uma via­tu­ra poli­ci­al, das pes­so­as pre­sas que tive­ram seus dedos que­bra­dos, Lemos res­sal­ta que é fun­da­men­tal que os pode­res deem uma res­pos­ta à soci­e­da­de. “No caso do rapaz que foi acor­ren­ta­do pelas mãos e pés e car­re­ga­do, já teve uma res­pos­ta mui­to ruim por par­te das auto­ri­da­des, inclu­si­ve dizer que aqui­lo não é tor­tu­ra, então isso já traz uma pre­o­cu­pa­ção.”

“A gen­te tem que pen­sar em ações de não repe­ti­ção. As polí­ci­as pre­ci­sam ter pro­to­co­los, e tam­bém res­pon­sa­bi­li­za­rem seus agen­tes admi­nis­tra­ti­va­men­te a par­tir des­ses pro­to­co­los. Por­que, se exis­te um pro­to­co­lo em uma polí­cia de que é per­mi­ti­do acor­ren­tar e car­re­gar o sujei­to daque­la for­ma, esse pro­to­co­lo pre­ci­sa ser revis­to. E, se não exis­te, então pre­ci­sa apu­rar e res­pon­sa­bi­li­zar [os agen­tes]”, dis­se.

Além dis­so, a advo­ga­da ava­lia a neces­si­da­de de rever a for­ma que esses agen­tes estão sen­do for­ma­dos “por­que eles não estão fazen­do isso a par­tir do nada, tem algu­ma coi­sa ins­ti­tu­ci­o­nal­men­te que está sen­do colo­ca­da para eles para atu­a­rem des­sa manei­ra”.

Edi­ção: Kle­ber Sam­paio

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