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Estudo com formigas revela efeitos do pasto na diversidade amazônica

Repro­du­ção: © San­de­ep Handa/Pixabay

Artigo foi publicado na revista Insect Conservation and Diveristy


Publi­ca­do em 22/02/2023 — 06:26 Por Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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A con­ver­são de por­ções da flo­res­ta amazô­ni­ca em áre­as de agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te e de pas­ta­gem para cri­a­ção de gado reduz a diver­si­da­de de for­mi­gas, que por sua vez pas­sam a pre­dar mais inse­tos. Esse pro­ces­so, no entan­to, ocor­re de for­ma mais inten­sa no caso dos pas­tos. A con­clu­são é de um estu­do rea­li­za­do por um gru­po de nove pes­qui­sa­do­res das uni­ver­si­da­des Fede­ral de Lavras (UFLA) e Fede­ral do Acre (UFAC), e estão em um arti­go publi­ca­do na revis­ta Insect Con­ser­va­ti­on and Dive­risty, perió­di­co cien­tí­fi­co refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal em ento­mo­lo­gia, ramo da zoo­lo­gia que estu­da os inse­tos.

“For­mi­gas são óti­mas bioin­di­ca­do­ras de impac­tos ambi­en­tais. Bioin­di­ca­do­res são orga­nis­mos que podem ser uti­li­za­dos para ava­li­ar a qua­li­da­de dos ambi­en­tes. Eles indi­cam como está a saú­de dos ecos­sis­te­mas. Isso se deve à alta sen­si­bi­li­da­de das for­mi­gas fren­te as alte­ra­ções nos ecos­sis­te­mas e à gran­de diver­si­da­de de suas espé­ci­es. Só no Bra­sil, exis­tem cer­ca de 1,5 mil [espé­ci­es]. Elas rea­li­zam impor­tan­tes fun­ções ecos­sis­tê­mi­cas, como pre­da­ção de inse­tos, dis­per­são de semen­tes, revol­vi­men­to do solo e defe­sa de plan­tas con­tra her­bí­vo­ros”, expli­ca Ica­ro Wil­ker, pes­qui­sa­dor da UFLA, que lide­rou o estu­do.

A agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te tam­bém é conhe­ci­da como roça­do ou cor­te-e-quei­ma. Tra­ta-se de uma prá­ti­ca comum em reser­vas extra­ti­vis­tas, uni­da­des de con­ser­va­ção des­ti­na­das à pro­te­ção do meio ambi­en­te e dos mei­os de vida de popu­la­ções tra­di­ci­o­nais que sobre­vi­vem do extra­ti­vis­mo e, com­ple­men­tar­men­te, do cul­ti­vo de sub­sis­tên­cia e da cri­a­ção de ani­mais de peque­no por­te.

“Na agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te, o ambi­en­te natu­ral é cor­ta­do e quei­ma­do. Duran­te 4 ou 5 anos, são cul­ti­va­dos diver­sos tipos de cul­tu­ras, como arroz, fei­jão, man­di­o­ca e pimen­ta. Quan­do as áre­as são enfim aban­do­na­das, ocor­re a rege­ne­ra­ção da flo­res­ta secun­dá­ria. Mas devi­do ao bai­xo ganho econô­mi­co com essas ati­vi­da­des, as áre­as de agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te, de onde tra­di­ci­o­nal­men­te as popu­la­ções locais pro­du­zem ali­men­to, e as áre­as de flo­res­ta, de onde ori­gi­nal­men­te reti­ra­vam seu sus­ten­to, vêm sen­do trans­for­ma­das em áre­as de pas­ta­gens para cri­a­ção de gado”, expli­ca Ica­ro.

Para rea­li­zar o estu­do, foi fei­to um tra­ba­lho de cam­po na Reser­va Extra­ti­vis­ta Chi­co Men­des, cri­a­da em 1990, no Acre. A imer­são ocor­reu em 2019. Nes­se mes­mo ano, dados do Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Pes­qui­sas Espa­ci­ais (Inpe) apon­ta­ram que o des­ma­ta­men­to ocor­ri­do den­tro da uni­da­de de con­ser­va­ção havia cres­ci­do 203% na com­pa­ra­ção com 2018.

Ao todo, 255 espé­ci­es de for­mi­gas foram obser­va­das. Algu­mas se mos­tra­ram mais sen­sí­veis à per­da de vege­ta­ção nati­va e só foram encon­tra­das nas flo­res­tas, estan­do ausen­tes tan­to em áre­as de agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te como em áre­as de pas­ta­gem. “Na Flo­res­ta Amazô­ni­ca, a mai­o­ria delas está adap­ta­da para sobre­vi­ver em um ambi­en­te com bai­xa inci­dên­cia solar e mudan­ças mais ame­nas de tem­pe­ra­tu­ra e umi­da­de. Quan­do a cober­tu­ra flo­res­tal é per­di­da, a inci­dên­cia solar aumen­ta e a tem­pe­ra­tu­ra e umi­da­de do local muda dras­ti­ca­men­te. Há mai­or vari­a­ção, fican­do mais quen­te duran­te o dia e mais frio à noi­te. São fil­tros que afe­tam a sobre­vi­vên­cia de boa par­te das espé­ci­es”, dis­se Ica­ro.

O estu­do reve­lou que as for­mi­gas rema­nes­cen­tes pas­sam a pre­dar outros inse­tos com mais frequên­cia. Segun­do os pes­qui­sa­do­res, isso ocor­re pro­va­vel­men­te em res­pos­ta às mudan­ças na dis­po­ni­bi­li­da­de de recur­sos natu­rais — como dimi­nui­ção das fon­tes de ali­men­to e dos locais para cons­truí­rem ninhos — e às alte­ra­ções nas con­di­ções ambi­en­tais tais como tem­pe­ra­tu­ra e umi­da­de.

Ape­sar de obser­va­rem que impac­tos do mes­mo tipo ocor­rem tan­to pela prá­ti­ca de agri­cul­tu­ra iti­ne­ran­te como nas áre­as de pas­ta­gem, os pes­qui­sa­do­res obser­va­ram que a inten­si­da­de dos efei­tos é bem dis­tin­ta. Ao com­pa­rar os dois ambi­en­tes, eles apon­tam que os locais onde ocor­rem o cul­ti­vo iti­ne­ran­te é mais hete­ro­gê­neo e diver­si­fi­ca­do em recur­sos, o que lhe per­mi­te abri­gar mais espé­ci­es de for­mi­gas. Nes­se sen­ti­do, o estu­do con­clui que sua subs­ti­tui­ção por pas­tos traz pre­juí­zos para a bio­di­ver­si­da­de.

“O aban­do­no das áre­as de agri­cul­tu­ra para for­ma­ção de flo­res­ta secun­dá­ria pode gerar um mosai­co de áre­as em dife­ren­tes está­gi­os de rege­ne­ra­ção, per­mi­tin­do a coe­xis­tên­cia de vari­a­dos ecos­sis­te­mas e auxi­li­an­do na con­ser­va­ção da bio­di­ver­si­da­de da região. Já em rela­ção às for­mi­gas, ape­sar da per­da em espé­ci­es nes­ses ambi­en­tes, o aumen­to da pre­da­ção de inse­tos pode favo­re­cer os peque­nos pro­du­to­res, prin­ci­pal­men­te nes­se sis­te­ma com bai­xo uso de pro­du­tos quí­mi­cos”, acres­cen­ta Ica­ro.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

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